Lula: “Parece que tudo ruiu quando a Dilma ganhou as eleições”

Ex-Presidente brasileiro protestou contra o impeachment no Rio de Janeiro, ao lado de artistas e intelectuais. Queixou-se da oposição, defendeu-se de acusações de corrupção e elogiou a sua Presidência. “A companheira Dilma aprendeu uma lição”, diz.

O ex-Presidente protestou, mas também fez campanha.
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O ex-Presidente protestou, mas também fez campanha. Christophe Simon/AFP

Espicaçado por sondagens de há dias que o colocam na frente das intenções de voto dos brasileiros numas próximas presidenciais — a par de Marina Silva —, o ex-Presidente brasileiro Lula da Silva liderou na noite de segunda-feira um comício no Rio do Janeiro em defesa do Governo, ao mesmo tempo que em Brasília uma comissão especial de deputados aprovava a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

“A comissão acabou de derrotar a gente, parece que 38 a 27, mas isso não quer dizer nada”, disse Lula a uma multidão de milhares, diante dos Arcos da Lapa, à medida que se recebiam notícias da votação no Planalto. “A comissão foi montada pelo Eduardo Jorge [Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados]. É a equipa dele. Domingo é que temos que ter clareza. Nós sabemos que temos que conversar com os deputados.”

Lula da Silva estava acompanhado por personalidades e artistas brasileiros, como o músico e escritor Chico Buarque, a cantora e guitarrista Beth Carvalho e o humorista Gregório Duvivier. Protestou contra a oposição que mobiliza o impeachment — ou “golpe”, nos termos dos apoiantes do Governo —, mas uma parte importante do seu discurso de 35 minutos foi passada a recordar a sua presidência e a memória de um Brasil não polarizado.

“Não quero dividir a sociedade entre nós e eles, porque ninguém governou mais para todos do que eu”, afirmou. “A gente não pode dividir a sociedade do jeito que está. Nós temos que dar a demonstração de paz. Este já foi o país mais feliz do mundo. Lembro da choradeira nacional quando a gente conseguiu as Olimpíadas lá em Copenhaga. Mas agora me parece que tudo ruiu quando Dilma ganhou as eleições em 2014.”

Dilma, aliás, não está impune. “A companheira Dilma aprendeu uma lição”, disse Lula, referindo-se ao programa de austeridade posto em marcha pelo actual Governo, alcunhado Ajuste Fiscal. “O mercado dela não é o banqueiro, é o povo consumidor, é o trabalhador, o cara que vai comprar carne. É o cara que vai no supermercado.”

Neste fim-de-semana, o instituto DataFolha revelou que Lula da Silva e Marina Silva lideram as sondagens como possíveis candidatos para as eleições presidenciais de 2018 — o ex-Presidente nunca escondeu a vontade de se candidatar, embora as suspeitas de que beneficiou com a rede de corrupção na Petrobras parecessem ter ferido de morte esse desejo. Comparando com a mesma sondagem de Março, Lula sobe de 17% para cima dos 20%, à medida que outros possíveis candidatos caem, como é o caso de Aécio Neves, que perdeu tangencialmente contra Dilma em 2014. 

“Aprendam com Lula”, disse, num recado à oposição no Congresso, regressando ao argumento de que o impeachment é um “golpe” para conquistarem o poder. “Saibam esperar. Lula esperou 12 anos para chegar lá [na presidência]. E chegou lá para provar que é possível o torneiro mecânico governar este país com mais competência que alguns que têm diploma universitário.”