20 filmes para ver no Indie antes de morrer

Na contagem descrescente para o festival que abre dia 20 de Abril, uma proposta pessoal, mas transmissível.

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Mate-me por Favor, de Anita Rocha da Silveira
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Boi Néon, de Gabriel Mascaro
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Spetters, de Paul Verhoven
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Robocop, de Verhoeven
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Starship Troopers, de Paul Verhoeven
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Showgirls, de Verhoeven
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O Livro Negro, de Verhoeven
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One Floor Below, de Radu Muntean
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Flotel Europa, de Vladimir Tomic
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Une Jeunesse Allemande, de Jean-Gabriel Périot
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Raiders of the Lost Ark: The Adaptation, de Chris Strompolos, Eric Zala e Jayson Lamb
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The Family, de Shumin Liu
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Balada de Um Batráquio, de Leonor Teles
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Un Monstruo de Mil Cabezas, de Rodrigo Plá
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Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de José Barahona
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The Lobster, de Yorgos Lanthimos
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Desde Allá, de Lorenzo Vigas
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Nuytten/Film, de Caroline Champetier
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Love, de Gaspar Noé
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Helmut Berger: Actor, de Andreas Horvath

Está tudo em expansão em Boi Néon, sairemos virgens da experiência. Há homens, mulheres, bois e cavalos, a sensualidade está com eles mas nos lugares onde não se espera. Nem gay, nem hetero, o filme de Gabriel Mascaro é – como dizer? – verdadeiramente transgénero. A grande obra do Indie está na secção Silvestre. E se o distribuidor o quiser, será um dos grandes de 2016.

Mate-me por Favor pede a longa-metragem de Anita Rocha da Silveira (Competição Internacional). Que excitadas com a morte, o sangue, o sexo estão estas meninas da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde os condomínios as protegem dos baldios que esperam mais torres e os Olímpicos de 2016! É um cenário sem história a pedir violência. E é isso que o filme faz, fantasiando, desregrando-se, musicando, cantando – Anita é cúmplice delas na conquista da Barra da Tijuca.

A surpresa da homenagem a Paul Verhoeven: Spetters (1980). Um insucesso na Holanda, um escândalo – por causa de uma cena de sodomia – que antecipou o de Instinto Fatal (1992), é um espantoso retrato de proletários sem saída (o odor pegajoso da gordura, da batata frita...) com o niilismo de Verhoeven s eer excitado pela new wave e pelo disco sound. Três anos antes estreara nos EUA Febre de Sábado à Noite. Na Holanda, nem a dança redimia...

Robocop é o primeiro filme americano de Verhoeven, é a abertura do ciclo do Herói Indie. Figuração extrema, com conotações crísticas, das máquinas de guerra do realizador (personagens que um dia redescobrem a sua humanidade), resultou do embate com uma cultura alienígena para Verhoeven – de que ele acabaria por, ao mesmo tempo, vestir a camisola.

Ninguém sabia bem o que se estava a filmar, estúdios e actores, só Paul Verhoeven levava a sua avante, seguindo os passos de O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl para mostrar o fascínio americano pelo fascismo. Starship Troopers (1997) é um gozo, sim, mas faz de cada plano uma ratoeira para todos – espectador incluído, que não sabe se é sátira ou deslumbre, e esse é o grande incómodo deste filme.

Vamos ver Showgirls sem guilty pleasure? É tão só a plenitude de Verhoeven, realizador que se expandiu em Hollywood – há rimas, motivos, personagens iniciados na Holanda que explodem na América, onde o realizador se tornou aquilo que no país de origem diziam que lhe faltava: autoria. Reparem como Elizabeth Berkley é, a seu modo, um Robocop de saias em Las Vegas.

A guerra é excitante! dizia a personagem de Rutger Hauer em O Soldado de Orange (1977) – era uma impressão da criança Verhoeven, a sua memória da II Guerra. A contradição (irresolúvel) entre a aventura e a moral sempre foi central ao cinema do holandês. As suas personagens nunca podem jurar sobre valores. O Livro Negro (2006) é o regresso à amoralidade europeia da II Guerra, com o fôlego da experiência hollywoodiana.

One Floor Below, de Radu Muntean (secção Silvestre) é um  filme insondável que cresce em nós, espectadores, à medida que interrogamos a sensação de solidão na sala: por inacção da personagem principal – um homem testemunha um crime e... nada diz –, ficamos sem thriller, sem género. E sem redenções, na tela e fora dela.

Flotel Europa, do sérvio Vladimir Tomic: (Competição Internacional) as cassetes vídeo de uma adolescência passada nos anos 90 num barco de refugiados ancorado em Copenhaga. Ou a autobiografia pícara e turbulenta a evocar, em tom documental, o “era uma vez a Jugoslávia” de um senhor chamado Emir Kusturica.

Para Une Jeunesse Allemande. Jean-Gabriel Périot (cineasta em foco na secção Silvestre) pesquisou o lirismo revolucionário dos anos 1965-67 alemães, o desespero estudantil que levou à radicalização terrorista (1967), a retaliação do Estado que dominou as imagens entre 1970-1977. É um fresco, um épico sem voz off, que pede a intervenção do espectador. Falando directamente ao presente, é preciso fazer algo com as dúvidas, transmiti-las como numa corrida de estafetas.

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation, de Chris Strompolos, Eric Zala e Jayson Lamb é um trabalho de fãs. Aos 12 anos pegaram plano a plano, e respectiva banda sonora (captada ilegalmente num cinema), no filme de 1981,de Spielberg. Muita coisa confere, mas ao longo de sete anos a idade dos protagonistas foi deixando marcas. Guerra das Estrelas e suas sequelas e prequelas? Não, isto é que é. Indie? Não, Indy.

Não é pelas quase cinco horas de duração que The Family, de Shumin Liu  (competição internacional) é um acontecimento. É-o pela forma como o realizador segue a normalidade de uma família de classe média chinesa – os seus membros interpretados pelos próprios – como um processo, plácido, de rasurar a memória. Aceder à normalidade é afinal esquecer.

Uma desesperada com o facto de o marido não ter acesso a um medicamento contra o cancro – por causa do pacto negro entre a Medicina e as Seguradoras – investe de pistola em punho... No momento redundante da denúncia, Rodrigo Plá inverte para o pesadelo (e humor), para a construção da realidade como laboratório de experiências – estilhaça,  afinal, como uma série B, que é aliás o “clima” do título: Un Monstruo de Mil Cabezas. Um filme-catástrofe na secção Boca do Inferno.

O Urso de Ouro em Berlim para as curtas, Balada de Um Batráquio, de Leonor Teles, está na Competição Internacional. Jovem cineasta, energia explosiva, vem pegando no seu legado familiar – o pai de Leonor é de etnia cigana – com um duplo movimento nada contraditório: tomar posse desse legado, dessa história, expô-la à violência das contradições. Vital.

Yorgos Lanthimos pega um cast estapafúrdio e exige dele nova gramática para as personagens. Aqui quem não arranjar parceiro é transformado em  animal – uma lagosta? The Lobster dá-nos regras para aprendermos a falar com ele. Afinal, a sua melancólica crueldade é a da velha história de amor. Acabaremos “lanthimizados” na Boca do Inferno.

Respira-se a limpidez do que vem depois das tempestades, é um filme de uma leveza comovente, mas é filme sem bonança. Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de José Barahona (Competição Nacional) é sobre os imigrantes brasileiros que chegam a Portugal, sobre o limbo que os imobiliza sem regresso. “Para quê voltar?” Uma tristeza rarefeita, belíssimo. E sobre nós, portugueses.

Desde Allá, de Lorenzo Vigas (secção Silvestre), conta o embate entre um cinquentão homossexual e um adolescente de Caracas. Galgam fronteiras: sexo, dependência económica, protecção paternal, sofreguidão e luta de classes. (Fassbinder paira aqui). Duas vidas diferentes: um é estrela do teatro chileno, Alfredo Castro (Tony Manero), outro um rapaz das ruas, Luis Silva. Encontro feroz, amoroso, solitário, mete medo.

NUYTTEN / FILM • extrait 2 from Isabelle Prim on Vimeo.

Caroline Champetier quis saber do desaparecimento de Bruno Nuytten, director de fotografia de Duras, Zulawski, Téchiné, realizador de Camille Claudel. Foi isto: Nuytten, fabricante de coisas bonitas, remeteu-se ao papel mais informe de espectador de coisas bonitas. Nuytten/Film (Director’s Cut) é “filme de artista” que se nega: a conversa parece desejar apagar-se.

Há saudades das transgressões da adolescência – isso é mais forte em Love, de Gaspar Noé, do que o marketing de “porno em 3D”. A propósito, dizia-nos Noé, o 3D aqui são saudades de um viewmaster; a cada um o seu na sessão da secção Boca do Inferno. O filme é um auto-retrato, e “o boneco” não é bonito: é pusilânime, naïf, frágil, a personagem está sempre a falar no amor e a perguntar pelo sentido da vida mas a responder sempre com a braguilha. Filme e cineasta expõem-se – não muitos o fazem. De forma obsessiva, uma ameaça: é o amor. Podia lá não ser violento?

A musa de Luchino Visconti, que passeou a sua arrogante beleza no jet set dos anos 70, é hoje um homem de 70 anos rodeado de medicamentos para a depressão e fantasmas. Arrogância e solidão: o seu retrato (impossível) foi tentado por Andreas Horvath. Agressões verbais e físicas entre actor e realizador. Mas na verdade, Helmut Berger: Actor (secção Director’s Cut: é um filme cheio de medo: o medo de Helmut de não ter sido mais do que a musa de um criador, o medo de não ser um “actor”, o medo do vazio, o medo de não ser…