Extrema-direita alastra e impõe-se como força política na Alemanha

Previsões apontam para um mau resultado da CDU em dois dos três estados que foram a votos. Partido anti-imigração com resultados inéditos.

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A felicidade da líder do partido de extrema-direita, AfD, Frauke Petry Fabrizio Bensch/Reuters

O partido conservador de Angela Merkel não venceu em dois dos três estados federados que foram a votos este domingo, naquele que foi visto como um voto castigador contra a política de acolhimento de refugiados da chanceler alemã.

Segundo as sondagens à boca das urnas, o partido que mais subiu na votação foi a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido anti-imigração. São eles os grandes vencedores destas eleições e os seus resultados vão certamente complicar a tarefa da CDU, SPD e Verdes para conseguirem coligações estáveis nos três estados.

As derrotas em Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado representam o pior cenário para Merkel, que apostou o seu legado quando, no ano passado, decidiu abrir as portas da Alemanha a mais de um milhão de refugiados.

Em Baden-Württemberg, antigo domínio indisputado dos conservadores que o perderam em 2011, a CDU deverá obter 27,5% dos votos, sendo ultrapassada pelos Verdes (32,55%). E na Renânia, a candidata-estrela da CDU, Julia Klöckner, tida como uma possível sucessora de Merkel, fracassou e ficou atrás dos sociais-democratas. Esta é a única vitória que salva o SPD, que a nível nacional governa em conjunto com a CDU), do desastre absoluto. Nos outros dois estados deverá ficar abaixo dos 13%, um resultado "humilhante", segundo vários comentadores políticos.

O descontentamento dos eleitores em reacção a esta opção política da chanceler também foi visível na Alta Saxónia, no leste do país, onde a CDU deverá continuar a ser o partido mais votado, mas também onde a AfD deverá receber 21,5% dos votos. Segundo as projecções, o partido de extrema-direita ulrapassa os sociais-democratas do (SPD), sendo a primeira vez que a AfD fica em segundo lugar numas eleições regionais.

A extrema-direita deverá entrar nos parlamentos dos três estados, tendo largamente superado a barreira necessária dos 5% dos votos. Este partido, que nasceu apenas há três anos, passa assim a estar representado nos parlamentos de oito das 16 regiões da Alemanha, a 18 meses das eleições legislativas, e quando ainda são esperadas até lá mais eleições regionais.

O co-presidente da AfD, Jörg Meuthen, já deu conta da sua “alegria” perante estes resultados, afirmando que o seu jovem partido anti-imigração “não é racista e nunca será racista”. No Twitter surgiu a mensagem de que a AfD quer ser o novo partido “conservador” e “sério” de que “a Alemanha precisa”.

A popularidade da AfD, que durante a campanha multiplicou as derrapagens verbais anti-imigrantes, constitui um cenário inédito na Alemanha desde 1945, ano em que acabou a Segunda Guerra Mundial e o horror nazi.

O Le Monde recorda que em Janeiro, a jovem líder do partido, Frauke Petry, provocou um escândalo ao considerar que a polícia devia “usar armas de fogo” contra os refugiados que tentavam passar a fronteira. “Incluindo as mulheres e crianças”, veio precisar uma das suas adjuntas, Beatrix von Storch, para quem “o anti-islamismo” deveria constituir a espinha dorsal do partido.

Mas já em campanha, Jörg Meuthen, cabeça de lista da AfD no estado de Baden-Württemberg, foi bem mais comedido nas suas afirmações, considerando que se devia “adaptar e não suprimir o direito de asilo”, defendendo apenas “um encerramento momentâneo das fronteiras”

Depois, a Leste, há o líder regional da AfD na Turíngia, Björn Höcke, cuja proximidade com os neonazis é notória e conhecida. Höcke não hesita em alarmar-se com “o excedente da população em África” e considera que, enquanto a Europa estiver disposta a “acolher esse excedente”, “os comportamentos de reprodução dos africanos” não vão mudar.