O telemóvel trouxe os amigos e a Samsung veio de óculos

Em 2016, o que está à volta de um smartphone importa tanto como o que está dentro, e este passa a ser o cérebro num ecossistema de aparelhos e acessórios onde, por agora, a estrela é a realidade virtual.

Os novos Samsung Galaxy S7 e S7 edge são lançados mundialmente nesta sexta-feira
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Os novos Samsung Galaxy S7 e S7 edge são lançados mundialmente nesta sexta-feira REUTERS/Kim Hong-Ji

Longe vai o tempo em que as capas plásticas para telemóvel eram o acessório mais desejado. Mas longe ficará também o tempo em que o smartphone valia apenas por si só, bem como a corrida dos fabricantes para oferecer cada vez mais capacidades dentro de um único e cada vez menos espesso aparelho. O lançamento mundial dos Samsung Galaxy S7 e S7 edge, nesta sexta-feira, fica marcado sobretudo pelo casamento entre o smartphone e as possibilidades da realidade virtual, com a marca a oferecer, na compra do aparelho, óculos para visualizar conteúdos vídeo em 360º. Em Maio, é a vez de chegar ao mercado português uma câmara com que a empresa sul-coreana espera iniciar o processo de democratização da produção destes vídeos, com um preço inicial na ordem dos 400 euros.

“Os telemóveis começam a ser utilizados para outros fins que não só o seu hardware e a sua própria função”, disse ao PÚBLICO Nuno Parreira, director da Samsung Portugal para o mobile. “O telefone irá revolucionar tudo isto que designamos como a Internet das Coisas. Os aparelhos comunicam entre si, com carros, com máquinas, mas o hub, a peça central, será sempre o smartphone. Porque o telefone será sempre aquela coisa mais privada e pessoal que temos sempre connosco”, explica.

Para já, e numa altura em que a indústria ainda precisa de fazer o trabalho de casa no desenvolvimento da estandardização, dos modelos de negócio e da segurança da chamada Internet das Coisas, “o primeiro vislumbre desse futuro” é a tecnologia 360º. Esta foi a estrela do recente Mobile World Congress (MWC) de Barcelona, com diversos fabricantes como a LG, a Sony ou a HTC a revelarem os seus próprios modelos de óculos de realidade virtual e de câmaras 360º.

As aplicações potenciais da tecnologia vão desde a partilha imersiva de momentos entre familiares e amigos até à transmissão de grandes eventos desportivos e culturais, passando pela utilização em reuniões e pela demonstração de produtos em áreas como o imobiliário ou a hotelaria. O que até agora víamos em imagens estáticas vamos passar a ter à nossa frente, em cima, nos lados e atrás, como se estivéssemos no local. De resto, note-se a recente profusão no Facebook de anúncios em 360º.

Aqui, a parceria entre a Samsung e o Facebook representa uma vantagem para a marca sul-coreana em relação aos seus competidores. No MWC, e precisamente durante a apresentação dos novos S7 e S7 edge, o fundador da maior rede social do globo, Mark Zuckerberg, subiu ao palco para oficializar um casamento entre as duas empresas na aposta no 360º, que designou como “a próxima plataforma” de conteúdos e de contactos sociais. Em 2014, a rede tinha adquirido a start-up norte-americana Oculus por 1400 milhões de euros. Um dos resultados desse investimento são os óculos Gear VR da Samsung, que chama a si o desenvolvimento e comercialização do hardware, enquanto o Facebook trabalha para se estabelecer como a plataforma de referência para o alojamento e partilha de vídeos em 360º (a Google, com o YouTube, pretende disputar esse estatuto).

Em Portugal, e mesmo se os 400 euros da câmara de realidade virtual da Samsung não bastarem por si só para massificar a produção de vídeos em 360º, ainda que se trate de um valor reduzido face ao praticado para os equipamentos profissionais, este será um ano importante para demonstrar ao grande público as possibilidades da tecnologia. Depois da transmissão de um Porto-Benfica, de um concerto dos The Gift e de uma etapa do campeonato mundial de surf, a marca prepara uma iniciativa para durante o Rock in Rio Lisboa.

Mercado ainda em crescimento
Com várias lojas abertas às 00h de sexta-feira para o lançamento dos novos S7 e S7 edge, a Samsung tem boas expectativas em relação ao desempenho comercial da mais recente geração dos seus telemóveis topo de gama, competidores directos dos iPhone da Apple, que deverá lançar um novo modelo nos próximos meses.

“A nível de pré-reservas, já está a ser sucesso”, refere Nuno Parreira, que indica um volume de encomendas em Portugal “três vezes maior” face à anterior geração. Um interesse que, admite, terá sido impulsionado pela apresentação de Barcelona e pela participação do fundador do Facebook no evento.

Para além da oferta dos óculos de realidade virtual, a Samsung apresenta como argumentos do S7 e S7 edge uma câmara fotográfica e vídeo Dual Pixel de 12MP, uma maior capacidade de processamento com implicações no jogo mobile ou a reintrodução da slot para cartões de memória SD. O preço recomendado dos aparelhos é de 729 euros para o modelo base e de 829 para o modelo de ecrã curvo.

Sobre os receios de uma saturação do mercado, o responsável da Samsung disse ao PÚBLICO que “a transição dos dumbphones para o smartphone continua, e isso vê-se mesmo em Portugal”.

“Ainda há uma taxa elevada de pessoas que não têm smartphone, ou que não têm um aparelho de gama média ou topo de gama. Para que este mundo da Internet das Coisas funcione, não pode funcionar com um telemóvel de baixa gama. A maior parte das pessoas irá começar a usar smartphones topo de gama quando começarem a ir além da voz e das apps e começarem a interagir com outros equipamentos”, argumenta.

Segundo dados divulgados pela analista de mercado GfK, as vendas mundiais de smartphones cresceram 6% em 2015 face ao ano anterior, com Portugal em linha com a tendência global. A subida é suportada sobretudo pelo crescimento na aquisição de equipamentos de gama baixa nos mercados asiáticos.

Já sobre os smartwatches, de implantação visivelmente mais lenta, Nuno Parreira disse ao PÚBLICO que a Samsung espera dobrar as vendas de 2015 em Portugal, indicando uma estimativa de venda de wearables na ordem das 20 mil unidades. “A evolução próxima passa pela integração [do smartwatch] no ecossistema e também pela possibilidade de ter cartão SIM, o que poderá criar uma mais-valia para o consumidor que ainda não existe neste momento”, afirmou.