Trump acelera a fundo e Sanders enche o depósito no Michigan

O magnata do imobiliário venceu três das quatro primárias de terça-feira no Partido Republicano e o senador do Vermont surpreendeu Hillary Clinton no importante Michigan.

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Sanders no Michigan Carlo Allegri/Reuters
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Trump na conferência de imprensa após conhecer os resultados REUTERS/Joe Skipper
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Clinton perdeu no Michigan, mas ganhou mais delegados no total J.D. Pooley/AFP
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Ted Cruz é o principal opositor de Donald Trump Jason Miczek/Reuters
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Marco Rubio não conquistou nenhum delegado Steve Nesius/Reuters

A corrida para a escolha dos candidatos à Casa Branca ainda nem chegou a meio, mas à medida que se aproxima a parte mais decisiva, a história começa a repetir-se. No lado do Partido Republicano, aquele camião gigante e cheio de luzes tipicamente americano chamado Donald Trump continua a rasgar o asfalto até à nomeação final, ainda que os seus adversários tenham motivos para manter a esperança acordada atrás dos seus volantes; no lado do Partido Democrata, aquela carrinha pão-de-forma decorada com flores saída dos anos 60 chamada Bernie Sanders continua a ter um caminho muito difícil pela frente, mas vai conseguindo reabastecer-se primária sim, primária não, deixando Hillary Clinton em sentido muito mais tempo do que se esperava.

E que bomba de gasolina a campanha do senador Bernie Sanders encontrou pelo caminho esta terça-feira: numa das maiores surpresas dos últimos 30 anos em eleições primárias nos Estados Unidos, Sanders e a sua mensagem de revolta contra os banqueiros de Wall Street venceram o estado do Michigan, quando mesmo as sondagens mais optimistas apontavam para uma derrota por 13 pontos de diferença frente a Hillary Clinton.

Desta vez, os candidatos do Partido Democrata só foram a votos em dois estados – o Michigan e o Mississippi –, e Clinton saiu claramente vencedora, olhando apenas para os números. Se a vitória de Sanders no Michigan foi arrancada a ferros (50% contra 48%) e lhe deu apenas mais sete delegados (65 contra 58), a vitória de Clinton no Mississippi atingiu proporções épicas: 83% contra 17%, e mais 25 delegados.

Com estes resultados, Hillary Clinton fica mais perto do número necessário de delegados para garantir a nomeação, que no Partido Democrata é de 2382. Contando com as declarações de apoio já conhecidas de muitos superdelegados (717 senhoras e senhores que têm liberdade de voto no momento da escolha final, na convenção do partido, entre 25 e 28 de Julho), Clinton tem 1221 e Sanders tem 571.

Mas o complexo processo de escolha dos candidatos à Casa Branca nem sempre se pode resumir a uma questão de números. Com a vitória surpreendente no Michigan, o senador Bernie Sanders mostrou que consegue reerguer-se e derrotar Hillary Clinton mesmo depois de ter sido praticamente riscado do mapa das primárias na Super Terça-feira, no passado dia 1 de Março. Mas mostrou também que se as sondagens falharam no Michigan, também podem falhar na próxima terça-feira, quando vão estar em jogo estados com eleitorados semelhantes e que também vão organizar primárias abertas a eleitores de todos os partidos, como o Illinois e o Ohio.

"A pergunta que faço a mim mesmo agora é se isto significa que as sondagens estão erradas em outros estados do Midwest, que vão realizar primárias abertas. Estou a falar especificamente do Illinois e do Ohio", escreveu o analista político Harry Enten no site FiveThirtyEight. A média das sondagens dá uma vantagem de 37 pontos a Hillary Clinton no Illinois e de 20 pontos no Ohio, mas o especialista ficou confuso depois do resultado no Michigan: "Se o Michigan foi apenas um acaso (o que é possível), então esse resultado vai ser esquecido rapidamente. Mas se as empresas de sondagens não estão a perceber algo de mais fundamental sobre o eleitorado, então as primárias do Ohio e do Illinois podem ser muito mais renhidas do que se espera."

Caminho favorece Clinton
Seja como for, as regras das primárias no Partido Democrata e a matemática continuam a jogar a favor de Clinton. Mesmo que Bernie Sanders continue a vencer em alguns estados importantes por margens curtas, o facto de os delegados serem distribuídos de forma proporcional (a que se junta o apoio da maioria dos superdelegados a Clinton) dificulta a vida ao senador do Vermont na sua batalha para ultrapassar a antiga secretária de Estado. Principalmente porque não se vislumbra de que forma poderá Sanders conquistar importantes segmentos do eleitorado, como os votos dos eleitores negros, que na sua maioria ainda olham para Bill Clinton como o seu primeiro Presidente.

Mas Bernie Sanders continua a acreditar, e prometeu aos seus apoiantes que o melhor ainda está por vir, numa breve declaração feita em Miami, na Florida: "O que o resultado desta noite significa é que a campanha do Bernie Sanders, a revolução do povo, a revolução política de que temos falado, tem força em todas as partes do país. E acreditamos, com toda a franqueza, que as nossas áreas mais fortes ainda estão por chegar. Vamos ter muito bons resultados na costa Oeste e em outras partes deste país."

E foi também na Florida que Donald Trump fez o seu discurso de vitória, depois de ter vencido em três dos quatros estados que foram a votos nas primárias do Partido Republicano. De forma apenas inesperada para quem nunca o ouviu falar nesta campanha, Trump aproveitou o seu discurso para promover uma vasta gama de produtos e serviços com o seu nome, numa resposta a Mitt Romney – o candidato do Partido Republicano que perdeu contra Barack Obama em 2012 e que lançou um forte ataque contra Donald Trump na semana passada em nome da ala mais tradicional do partido. Entre outras coisas, Romney acusou Trump de ser um fracasso nos negócios, e Trump respondeu como se fosse um daqueles canais de televendas que ocupavam as madrugadas das televisões.

"Só há uma pessoa que teve sucesso esta noite: Donald Trump", disse o próprio no discurso de vitória em Jupiter, na Florida, onde aproveitou para desacreditar o seu principal rival, o senador do Texas, Ted Cruz: "O Ted Cruz é interessante porque está sempre a dizer 'Eu sou o único que pode vencer o Donald Trump'. Já ouvi isso tantas vezes... Mas ele nunca me vence!"

Mas esta terça-feira Ted Cruz voltou a mostrar que é de facto o único que pode vencer Donald Trump, apesar de o ter feito em apenas um dos quatro estados em jogo – o Idaho. Nos outros três (Havai, Michigan e Mississippi), ninguém chegou perto do magnata do imobiliário, que terminou a noite com mais 71 delegados – tem agora 458, contra os 359 de Ted Cruz, os 151 do senador da Florida, Marco Rubio, e os 54 do governador do Ohio, John Kasich.

Como o Partido Republicano abriu a porta ao elefante que tem na sala

Os olhos estão agora postos na próxima terça-feira, 15 de Março, e principalmente em Marco Rubio, que tem de vencer no estado que o elegeu senador. Depois de ter apanhado a bandeira do establishment do Partido Republicano quando Jeb Bush abandonou a corrida, há duas semanas, o jovem senador, de 44 anos, está perante o momento mais importante da sua ainda curta carreira política – desistir antes das primárias no seu estado não é uma opção; e insistir em manter-se na corrida e perder no seu estado é uma humilhação que pode cortar-lhe o sonho de um futuro brilhante.

O desastre desta semana no Idaho, Havai, Michigan e Mississipi, onde não ganhou um único delegado, deixam Marco Rubio muito atrás do camião gigante de Donald Trump e da carrinha pão-de-forma de Bernie Sanders. Marco Rubio já nem sequer anda nesta campanha de bicicleta. Está a caminhar. Lentamente. E para trás.

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