Torne-se perito

Nos confins do Alentejo sonhava-se com o verde do Norte. E o sonho cumpriu-se

A maioria da população da aldeia de São Miguel do Pinheiro nunca tinha gozado férias fora da sua terra. A Fundação Inatel atribuiu-lhes o prémio “Aldeia dos Sonhos” e a possibilidade de visitarem um local do país à sua escolha. Optaram pela região Norte pelo verde intenso da sua paisagem.

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Nelson Garrido
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A pequena aldeia de São Miguel do Pinheiro, no concelho de Mértola, tem 87 habitantes. Metade deles cumpriu, no passado fim-de-semana, um sonho: conhecer o Norte. Para alguns foi, literalmente, a sua lua-de-mel, para muitos a viagem das suas vidas. Do Bom Jesus à Casa da Música, passando pelos degraus dos Clérigos, alentejanos de todos as idades renderam-se à paisagem e aos monumentos. Dançaram o vira e comeram francesinhas. Encheram os olhos e aqueceram o coração.

Eram 3h de sábado quando os 42 viajantes se começam a reunir junto ao autocarro. Felizes, mais que ninguém, estavam Pedro Ruas, de 34 anos, e Dionilde Marques, com 23. Juntaram as suas vidas na última passagem de ano mas não tinham condições económicas para a lua-de-mel, até que a Fundação Inatel premiou a candidatura de São Miguel do Pinheiro a "Aldeia dos Sonhos" e puderam viajar ao Porto, Braga, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira sem pagar um tostão.

O projecto promovido pela Inatel destina-se aos habitantes das aldeias portuguesas mais isoladas do país com cem ou menos residentes, que pretendam “concretizar sonhos de natureza turística, cultural e desportiva”.  A comunidade de São Miguel do Pinheiro foi a premiada em 2016, e propôs uma visita ao norte do país, justificando as razões da sua preferência pelo facto de ser a região mais afastada da sua terra e por ser preenchida de um verde intenso que a diferencia do Alentejo.

Na madrugada de sábado, os que iam viajar aceleravam o passo, ansiosos. A maioria deles iria realizar a mais longa viagem das suas vidas. Um quarto de hora antes da partida, não faltava ninguém. 

Ana Lúcia, a guia escolhida para os apoiar, deu instruções mal o autocarro iniciou a viagem: “Se precisarem de alguma coisa é só chamar: Oh Ana!” Mas a primeira centena de quilómetros é marcada pelo silêncio. O adiantado da hora e a música ambiente convida o sono a instalar-se.

A alvorada vai tomando corpo com o sol a aparecer entre as nuvens carregadas. A delegação vinda do Alentejo atravessava o rio Mondego e Ana fala da “cidade do conhecimento, de Pedro e Inês” e também da região do leitão da Bairrada. “Já ia um”, responde uma voz sumida.

A ponte do Freixo está à vista. No autocarro assume-se o único portista nascido e criado em São Miguel do Pinheiro. “Vamos ao estádio do Dragão?” A visita não estava no programa mas o alentejano exultou com a imponência do edifício quando o conseguiu avistar numa curva da estrada. 

E dançou-se o vira
A cidade de Braga, primeira etapa da visita, aproxima-se. O autocarro pára junto à Igreja do Bom Jesus e o gerúndio característico da pronúncia alentejana ecoa nos diálogos e nas observações, expressando o fascínio pela beleza do local. 

Collete Abreu passa agora a ser a guia. É minhota. Conduz os visitantes para o interior do templo. Os que encaram a religiosidade dos alentejanos como superficial ou marcada pelo agnosticismo, a imagem desmente juízos feitos. Respeito e compenetração é, afinal, o que define a sua relação com os valores espirituais.

As mulheres percorrem o interior da igreja observadoras e silenciosas, enquanto os homens, discretamente, saem para o exterior. “São pessoas com muita fé mas que não gostam de a exteriorizar nem de se expor. É uma questão muito intimista e pessoal”, explica ao PÚBLICO António Simão, técnico superior na Câmara de Mértola. Foi ele que elaborou a candidatura de São Miguel do Pinheiro ao concurso “Aldeia dos Sonhos”. As expectativas de ser a escolhida eram muito baixas, observa. “Mas com grande surpresa nossa, conseguimos o primeiro lugar”, entre cerca de 400 propostas apresentadas, salienta.

O presidente da União de Freguesias de São Miguel do Pinheiro, São Pedro de Solis e São Sebastião dos Carros, António Peleijo, expressa a sua satisfação. “É mesmo um sonho tornado realidade”, assinala, frisando nunca ter estado no Porto nem em Viana do Castelo.

Maria José Ruas, 53 anos, olha estática para a igreja do Bom Jesus e confessa: “Sou muito religiosa e gosto de visitar igrejas. E esta é uma beleza.” 

Não foi só a grandiosidade do templo que mereceu as preferências da maioria. “A verdura dos campos enche-nos o olhar de admiração”, comenta, comparando-a com a “secura na terra” alentejana.

Adélia Castilho, 80 anos, não imaginava o Bom Jesus assim tão grande. “Sabe? Saio pouco da minha aldeia por isso é natural que fique espantada com o que estou a ver.”

Os aguaceiros continuavam a intercalar com abertas em que o sol conseguia espreitar e Colette lembra aos alentejanos que a região é conhecida por penico do céu pela forte pluviosidade que a caracteriza.  

Depois de Braga, o autocarro segue em direcção a Vila Nova de Cerveira e depois Viana do Castelo para viajar no elevador de Santa Luzia, o único do género em Portugal. Mas os alentejanos não resistem à ironia: “É tal qual o de Mértola”. Na verdade, a vila alentejana não tem um elevador funicular, mas a observação acaba por deixar Collete confusa.

Do alto da colina e depois de uma visita ao interior da igreja, os visitantes param e ali ficam emudecidos pelo esplendor da paisagem. O dia termina com um jantar típico e a actuação do Grupo Etnográfico da Areosa. Desafiados a dançar o vira do Minho, os alentejanos não hesitaram e por momentos rodaram comandados pelos sons minhotos.

Um auditório onde cabem aldeias
Chega domingo e o dia arranca com uma visita à Casa da Música onde são recebidos por José Paulo Ferreira.  No auditório principal com 1238 lugares caberiam todos os habitantes (1045) da União de Freguesias alentejana.   

“Vocês vieram da Aldeia dos Sonhos visitar a Casa dos Sonhos”, realça Paulo Ferreira, que descreveu aos visitantes como a música tem exigências que fazem da Casa da Música uma estrutura sofisticada. Os olhos abriam-se de espanto e admiração, mas as palavras escasseavam: “Olhe é muito, muito bonito, tudo isto”.

O confronto de realidades, o imenso desfasamento social entre o litoral e o interior, torna-se evidente quando Paulo Ferreira não esconde a sua perplexidade ao ouvir Beatriz Marques, 11 anos de idade, contar que se levantava às 6h30 todos os dias para ir à escola em Mértola.

Segue-se a Torre dos Clérigos, outro dos sonhos que iria ser satisfeito. De nariz espetado para o céu, os de São Miguel estão finalmente à sombra de um dos monumentos mais emblemáticos dos portuenses.

São advertidos para as dificuldades em subir os 263 degraus da torre. Uns coçam a cabeça: “Nã, é muito degrau”, assume um desistente. Mas Adélia Carrilho, 79 anos, diz à cunhada de 80 anos. “Se tu fores, eu vou também.” António Peleijo interroga-se: “E se lhes dá alguma coisa na subida?” Foi com elas, receoso que as coisas não corressem bem.

Os que ficaram em baixo temem pela saúde das duas senhoras e questionam se o físico ainda dava para uma trabalheira daquelas. O tempo foi passando, até que o autarca, afogueado, arfando do feito, anuncia: “Porra! Elas chegaram lá acima”. Pouco depois aparecem as duas mulheres como se tivessem estado em amena cavaqueira. “Conseguimos, graças a Deus. A gente devagarinho vai a todo o lado”, riem. 

Na visita ao Porto não poderia faltar um almoço de francesinhas, no edifício transparente junto ao Castelo do Queijo. O director da Fundação Inatel, Francisco Madelino, explicou ao PÚBLICO que o projecto pretende proporcionar às aldeias isoladas do interior de Portugal a possibilidade de poderem visitar locais importantes do ponto de vista ambiental, histórico, cultural e etnográfico.  

“Queremos tornar felizes as pessoas de condição social mais débil que de outra forma não teriam condições” para custear um programa de visitas como o que beneficiou a população de São Miguel do Pinheiro, acentuou o presidente da fundação.

O périplo pelo Norte do país termina com uma prova de vinho do Porto numa das caves de Vila Nova de Gaia.

Ao final o dia de domingo, e depois do jantar na Cúria, o autocarro regressa a Mértola, quando o cansaço já começa a anunciar-se no rosto dos passageiros. A viatura deixa a auto-estrada em Ourique e segue em direcção ao largo de São Miguel do Pinheiro. As despedidas são rápidas. “Já está tudo vendo as camas”, ironiza António Simão. São 3h de segunda-feira e tinham percorrido cerca de 1500 quilómetros. O sonho cumpriu-se.

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