Descoberto indício que sugere ligação biológica entre o Zika e a microcefalia

Pela primeira vez, foi posta em evidência uma acção do vírus sobre os neurónios em formação que é susceptível de explicar por que é que os fetos expostos a este agente patogénico apresentam defeitos cerebrais congénitos.

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As células progenitoras neurais morrem mais depressa (a vermelho) após terem sido infectadas pelo Zika (a verde) Sarah Ogden

O vírus Zika é capaz de infectar rapidamente e de danificar as células cerebrais em desenvolvimento no feto, anunciaram cientistas na sexta-feira, num estudo que dá pistas sobre a forma como o vírus poderia provocar defeitos cerebrais nos futuros bebés de mães infectadas durante a gravidez.

Os autores alertam no entanto para o facto que os resultados, publicados na revista Cell Stem Cell, não provam a existência de uma relação causal directa entre o Zika e a microcefalia, mas identificam, isso sim, os locais onde o vírus poderá estar a causar os maiores estragos nos fetos em desenvolvimento.

O vírus, transmitido por um mosquito, infecta de facto um tipo de célula estaminal neural que a seguir dará origem à formação do córtex cerebral, a camada exterior do cérebro que é responsável pelas capacidades intelectuais e as funções mentais superiores, conclui o estudo.

A equipa descobriu que estas células, quando expostas ao vírus in vitro no laboratório, ficavam infectadas num prazo de três dias, transformando-se em “fábricas de vírus” e permitindo assim a replicação do Zika. Estas células também viam o seu tempo de vida reduzido.

“O nosso estudo prova que, a partir do momento em que o vírus penetra no cérebro, pode atingir estas células extremamente importantes”, disse em entrevista Hengli Tang, da Universidade Estadual da Florida e autor principal do estudo. Segundo Tang, o estudo sugere que o vírus poderá ser capaz de causar os danos obervados na microcefalia, uma doença em que o tamanho invulgarmente pequeno da cabeça pode conduzir a problemas de desenvolvimento.

O Zika tem sido ligado ao aparecimento de numerosos casos de microcefalia no Brasil e está a alastrar rapidamente na América Latina e nos países das Caraíbas, tendo levado a Organização Mundial da Saúde a declarar uma emergência global de saúde pública.

Muito resta por saber acerca do Zika – e nomeadamente se causa ou não microcefalia. O Brasil já confirmou mais de 640 casos de microcefalia em bebés e considera que a maioria estão relacionadas com a infecção das mães pelo Zika. O Brasil está a investigar mais de 4200 casos adicionais suspeitos de microcefalia.

“Ao determinar que o Zika infecta as células no cérebro e o que acontece às células infectadas, este estudo começa a abordar a questão de saber como é que um vírus que já era conhecido por provocar uma doença ligeira poderá estar relacionado com a microcefalia”, diz em comunicado Amelia Pinto, da Universidade de Saint Louis (EUA), que não participou no estudo e é especialista em vírus transmitidos por artrópodes tais como mosquitos e carraças.

Tang salienta ainda que serão precisos mais estudos no futuro para determinar se o Zika provoca ou não microcefalia. “Sabemos que as pessoas estão interessadas em ter esta informação, mais ainda temos muito trabalho pela frente”, acrescenta. “Em última instância, a prova tem de vir lado da clínica e dos estudos em animais."

Os cientistas estão actualmente a fazer crescer no laboratório “minicérebros”, compostos de células estaminais, para ver como o vírus poderá afectar o desenvolvimento a mais longo prazo.

Foram encontrados vestígios do Zika nos fluidos corporais e nos tecidos de mães e bebés com microcefalia. Lyle Petersen, director da divisão de doenças transmitidas por vectores nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americanos, dissera na quarta-feira, numa conferência de imprensa na Organização Pan-americana de saúde em Washington, que já existem várias linhas de investigação que ligam o Zika à microcefalia. “Acho que não restam dúvidas quanto a essa ligação”, declarou.

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