Opinião

A UE não aparece no álbum de fotografias

A União Europeia não nos inspira e não nos mobiliza. Pelo contrário: cada vez mais, envergonha-nos.

Pense nos acontecimentos históricos dos últimos 60 anos em todo o mundo. Mais ou menos a partir da segunda Guerra Mundial. Vá, faça um esforço de imaginação. Não, não precisa de saber nada de história. Não é um teste nem um concurso. Não ganha nada mas também não há respostas erradas. É só uma experiência. Comece por onde lhe der mais jeito, ali pelos anos 60 do século passado ou mesmo um pouco mais para trás, ou só depois do 25 de Abril, conforme a sua idade, a sua memória, o seu gosto pessoal e os seus conhecimentos de história.

Pode escolher os acontecimentos que quiser: grandes datas políticas, marcos científicos, revoluções sociais, saltos tecnológicos, choques culturais… Já conseguiu? Está a ver desfilar na sua mente uma série de imagens, como numa daquelas apresentações de documentários televisivos, cheias de imagens a preto e branco? Acrescente as imagens a cores. Podem ser excertos de filmes. Pode juntar documentos, quadros, música (não se esqueça da música). Já está? Está no meio de um turbilhão de recordações pessoais, de recordações importadas dos filmes que viu e dos livros que leu, de discursos e canções, de fotos e de bocados de telejornal, de capas de discos e de manchetes de jornais?

Bom, agora a pergunta: alguma das coisas que evocou tem alguma coisa a ver com a União Europeia? Inclua também as designações das organizações anteriores, a Comunidade Económica Europeia, Bruxelas e a Comissão Europeia, o que quiser, para não deixar escapar nada. Não? Nem de longe? Nem se lembrou de tal coisa? Torne a fazer um esforço, mais dirigido desta vez. Tente enfiar à força a UE nas suas memórias históricas. E agora? Ainda nada?

E havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com os Estados Unidos? Provavelmente havia. É natural. Os EUA são a mais poderosa potência do mundo precisamente pela sua capacidade de produzir imagens e de produzir narrativas. Não pelo seu poder económico nem pelo seu poder militar, como pensam alguns, mas pelo seu poder de produzir e difundir cultura, de fazer filmes, livros e televisão. É a cultura que suporta tudo o mais, incluindo a sua supremacia económica e militar.

É injusto fazer a comparação com o país mais rico do mundo? Bom, nesse caso alteremos um pouco o jogo: havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com um país europeu específico além de Portugal? Com a França, a Itália, o Reino Unido? Ou com a África do Sul, o Brasil, a China? Ou com uma organização internacional? Provavelmente havia. Até a insípida ONU gerou imagens de que nos recordamos: Che Guevara a dirigir-se à Assembleia Geral, Colin Powell a mostrar as “provas” das armas de destruição maciça do Iraque, Malala Yousafzai a discursar, até a (falsa) imagem de Nikita Khrushchev a bater com o sapato…

Será isto importante? É, porque significa que a União Europeia não representa nada, não está associada a nada de particular e, principalmente, não está associada a nada de que nos possamos orgulhar. Significa que a União Europeia, antes e agora, não conquistou espaço nem no nosso coração nem na nossa mente. Não conquistou sequer aquilo a que a gente do marketing chama “share of mind”. Não nos vem à ideia. Não faz parte das nossas narrativas, da nossa história emocional, da nossa história pessoal. Significa que é necessário um violento esforço intelectual para a invocar à nossa memória. Significa que, mesmo quando nos vem à ideia, a UE nos vem pelas más razões, porque nos enfia o pé na porta e nos quer impor a sua vontade, seja a austeridade seja a Europa-fortaleza da xenofobia, mas sem sequer o afirmar de forma clara.

Significa que esta entidade, apesar de condicionar de forma crescente as nossas vidas, não nos mobiliza e não nos inspira. Pelo contrário: cada vez mais, envergonha-nos.

A mobilização e a inspiração de que falo não são da ordem intelectual mas primariamente da ordem emocional. E a UE não aparece nas nossas referências porque mesmo aquilo que ela em tempos pretendia representar (a paz e a cooperação entre as nações, a defesa dos direitos humanos, a segurança e a justiça social, a educação e a cultura para todos, a ciência e o progresso) foi abandonado em troca de benefícios venais para alguns, da imposição de objectivos iníquos e do desprezo dos mais fracos, quer internamente (como a Grécia e Portugal) quer externamente (como os refugiados). A entidade UE não é responsável? A responsabilidade é dos Estados-membros? Claro que sim, mas isso significa apenas que não conseguimos usar a ideia de “Europa” para fazer vingar os objectivos generosos que ela representou em tempos.

O problema não é que a UE continue sem um número de telefone (Durão Barroso, numa tirada tipicamente tonta, disse em 2009, depois da nomeação de Catherine Ashton como responsável das relações exteriores da UE, que Kissinger agora já tinha a quem telefonar...) o problema é que a UE não aparece no nosso álbum de fotografias nem cumpre os requisitos mínimos para ser convidada para o nosso próximo aniversário.

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