Crítica

Até ao fim: drama religioso, leitura actual

Luís Miguel Cintra põe a ópera Dialogues des Carmélites, de Poulenc, a funcionar perfeitamente.

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A ópera de Poulenc Dialogues des Carmélites, sobre o martírio de um grupo de freiras guilhotinadas na sequência da Revolução Francesa, subiu ao palco do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) apenas um ano após a sua estreia em 1957. Atendendo ao conservadorismo artístico do TNSC de então, é de suspeitar que a  temática católica e a mensagem anti-revolucionária implícita no texto, à medida da ideologia do Estado Novo, terão pesado tanto nessa opção como a acessibilidade estética e a simpatia que Poulenc granjeava no meio musical português.

A presente produção, a primeira desde o 25 de Abril, procura sublinhar ideias mais abstractas; quais, depende do espectador. A violência do mundo? A fraqueza humana? A superação do medo? A dádiva de si? A cumplicidade espiritual? A diluição do eu no corpo místico de Deus? Tudo isso está lá, em doses a combinar pelo freguês. O extraordinário é que a ópera, através de diálogos de grande densidade, vai criando empatia com todos aqueles que são ultrapassados pelos acontecimentos, mormente as carmelitas, que por sua vez, de forma contraditória, vão criando laços que finalmente se revelam complementares ou convergentes.

Cruamente despida de retórica (que aflora somente como atributo revolucionário), a dialéctica, construída sobre a variedade e a fragilidade do humano (fundamento do teatro), conduz à re-ligação (religião); ao mesmo tempo, a voragem histórica conduz à guilhotina, o que intensifica o drama. Mas a encenação (Luís Miguel Cintra), na senda das opções de Poulenc, embora reconhecendo o conflito histórico, interessou-se mais pelo primeiro aspecto, naquilo em que ele é mais generalizável. A personagem principal, Blanche de la Force (Dora Rodrigues), tem uma faceta histérica que Poulenc capta, e até transfere pontualmente para a música, mas que a presente encenação não acentua; a agonia vivida por Blanche permanece largamente interior, desvalorizada a favor do expectável decoro (seja este o da tradicional discrição feminina, ou o da rígida reclusão monástica). Já os momentos que precedem a morte da primeira Madre Superiora (Ana Ester Neves), no final do primeiro acto, foram correctamente entendidos como uma variação de uma cena de loucura; o facto de ela se libertar da cama (contra o previsto no libreto) é a sua metáfora visual. Se, como do texto se deduz, a sua má morte corresponde à atitude de Blanche, a caracterização desta última deveria ter incorporado, visualmente, mais loucura, antes da reviravolta final.

Terá sido a única incoerência da encenação. Tudo o resto funciona perfeitamente, quer na sua conjugação, quer na definição de cada identidade, graças também à direcção musical: o Marquês, pai de Blanche (Luís Rodrigues) é um velhote optimista e rabugento quanto baste; o Cavaleiro seu filho (Mário João Alves) quer-se um tanto impetuoso (o contacto físico na cena no parlatório assimila-o, com efeito discutível, a um amante rejeitado); o Capelão (Carlos Guilherme) surge, como se espera, um tanto nervoso; à segunda Madre Superiora (Ana Paula Russo) é justamente dada uma imponente e segura gravidade; maior complexidade psicológica, e variedade de movimentação, é atribuída a Maria da Encarnação (Maria Luísa de Freitas); e a irmã Constança (Eduarda Melo) incorpora modelarmente a leveza e o amor da vida. Os diálogos e a (pouca) acção decorrem num cenário (Cristina Reis) à base de modelação de luz e painéis amovíveis, com ou sem aberturas; é simultaneamente discreto, de concepção económica, e, entre as muitas configurações de cena, por vezes muito belo, evocando o céu; o efeito pode contudo ser prejudicado pela colocação lateral do espectador. A cena final de execução das freiras é resolvida sem adereços, de forma simples e tanto mais eficaz, no que respeita à queda abrupta, quanto mais jovens e temerárias são as cantoras...

A orquestra respondeu plenamente às exigências da partitura; a interpretação vocal, por parte de um elenco integralmente português, compreendendo três gerações de artistas, é de excelente nível (embora, na estreia, o Cavaleiro tenha sido instável nalguns agudos). Sendo injusto, atendendo ao equilíbrio do elenco e à rara entrega de cada cantor, destacar um papel em especial, não quero deixar de referir quer a grande prestação de Ana Paula Russo ao fim de 30 anos de carreira operática, quer a frescura de Eduarda Melo, sublime entre as mais jovens.