File: quando e como dizer-lhe adeus?

Desde Julho de 2015 que a Agência Espacial Europeia não tem qualquer contacto com o pequeno robô na superfície de um cometa.

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Esboços preliminares da sonda File como personagem animada da autoria do ilustrador Carlo Palazzari JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP

Não é fácil escrever a palavra “fim” na bela história do robô File, que se encontra pousado na superfície de um cometa. A esperança em retomar o contacto com o robô, mudo há mais de seis meses, é extremamente ténue, mas a Europa tem pena de lhe dizer adeus.

Ao fim de dez anos de viagem como passageiro da sonda Roseta, o robô File, que é uma pequena sonda, fez história a 12 de Novembro de 2014 ao aterrar no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Depois de ter ressaltado algumas vezes no chão do cometa, a File estabilizou finalmente à sombra.

Equipada com dez instrumentos científicos, trabalhou durante 60 horas antes de adormecer por falta de energia. Ainda acordou em Junho de 2015, mas desde 9 de Julho do ano passado que nunca mais dá notícias.

As suas peripécias apaixonaram o público, em parte graças a uma política de comunicação hábil da Agência Espacial Europeia (ESA), responsável por esta missão. Com a empresa de multimédia alemã Design & Data, a ESA tornou o pequeno robô metálico uma personagem de traços humanos futuristas e até lhe pôs na “cabeça” um capacete das obras, em desenhos animados difundidos na Internet. Também houve uma aposta nas redes sociais. Quando tinha qualquer coisa para dizer, a File enviava alegremente tweets para a Terra e a sua “mãe”, a Roseta.

Mas desde há meses que não se consegue estabelecer nenhum contacto com o robô-laboratório, apesar dos esforços dos engenheiros das agências espaciais alemã (DLR) e francesa (CNES). “Até ao final de Janeiro, as condições no cometa tornar-se-ão hostis para o robô e a missão da File conhecerá um fim natural”, anunciara no início do mês passado a DLR.

Como se matássemos o Bambi
Mas os cientistas querem ter a certeza de que não há realmente mais nenhuma esperança de entrar em contacto com o robô. Escoltado pela Roseta desde Agosto de 2014, o cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko encontra-se actualmente a 340 milhões de quilómetros do Sol e continua a afastar-se cada vez mais. Só que para poder funcionar, a File precisa que os seus painéis solares recebam luz suficiente para lhe fornecer energia. E a sua temperatura não pode descer para lá dos 51 graus Celsius negativos.

É às agências espaciais dos países que financiaram a File – nomeadamente a Alemanha, a França e a Itália – que caberá a decisão oficial sobre o fim da missão. Em breve, deverá ter lugar uma reunião sobre este assunto.

A Europa precisará de tempo para comunicar com tacto o fim da vida do pequeno robô, que actualmente conta com cerca de 456.000 seguidores no Twitter. E a Design & Data deverá ser novamente solicitada para esta tarefa.

“Fomos tão bem-sucedidos” a tornar a File antropomórfica, atribuindo-lhe comportamentos humanos, que “no dia em que a matarmos será como matar o Bambi”, dizia Mark McCaughrean, conselheiro científico da ESA, em Novembro. “A ESA vai ser acusada de abandonar este rapazinho”, brincou.

“A File quase que se tornou uma entidade viva”, declarou recentemente à agência de notícias AFP Philippe Gaudon, responsável pelo projecto da Roseta no CNES em Toulouse desde 2004. “É como uma pequena personagem. Tem três pernas para se apoiar e um cérebro – o seu software de voo.”

Mas o antropomorfismo tem os seus “riscos”, considera o filósofo Grant Ramsey, da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica. “Se [a File] pode originar emoções, como a alegria e o entusiamo, também pode provocar stress e dor” em caso de morte.

A escolha das palavras será importante. Nada impede que se sugira que a File está novamente a dormir no cometa em vez de falar em morte. Na Terra, os computadores permitirão que se continue a escutar o robô, caso emita um sinal, sem que para tal seja necessário mobilizar muitos recursos.

A missão da Roseta deverá terminar em Setembro. A sonda tentará então pousar o mais suavemente possível na superfície do cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko, para se juntar à File num sono eterno. Esta missão destinou-se a aprofundar os conhecimentos sobre os cometas, testemunhas do nascimento do nosso sistema solar há 4600 milhões de anos, e o que permitiu o aparecimento da vida na Terra.