BCP lucrou 235 milhões em 2015 após quatro anos de prejuízos

Banco liderado por Nuno Amado admite antecipar em um ano o pagamento da dívida de 750 milhões ao Estado.

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Nuno Amado na apresentação dos resultados anuais Miguel Manso

Com o regresso do BCP aos lucros em 2015, de 235,3 milhões de euros, valor que compara com o prejuízo de 226,6 milhões do exercício anterior, a administração liderada por Nuno Amado admite que o banco pode antecipar em um ano o pagamento da dívida de 750 milhões de euros ao Estado.

 A actividade doméstica contribuiu com 44,2 milhões de euros para o resultado final, o que equivale a 19% do lucro consolidado.

“Temos intenção de reembolsar todo o valor em falta” ainda este ano, o que se traduzirá na antecipação do pagamento do empréstimo de 750 milhões de euros de CoCo's ao Estado em um ano [o prazo limite é o final de 2017]", revelou esta segunda-feira Nuno Amado. E admitiu poder “fazer uma primeira análise para um primeiro pagamento” depois de Abril, após a concretização da fusão entre o Millennium Angola e o Banco Atlântico, o que deverá acontecer no final do primeiro trimestre. 

Nuno Amado lembrou ainda que, desde a crise de 2007/2008 o BCP “já pagou e repagou dívida ao mercado de cerca de 23 mil milhões de euros”, o que justifica “uma situação de vencimentos tranquila em 2016”.

Durante a conferência de imprensa de apresentação das contas de 2015, com lucros de 235,3 milhões, dos quais 44,2 milhões de euros da actividade doméstica (19% do total). De acordo com o grupo, os dados do ano passado reflectem o “menor nível de dotações para perdas de imparidades e provisões”, bem como “as evoluções favoráveis da margem financeira e dos resultados em operações financeiras”.

Como prioridades, o presidente do BCP elegeu manter a robustez “do capital, a solvência, a liquidez e os clientes”. E garantiu que em Março o rácio de solidez ultrapassará os 11% (actualmente está em 10,2%) e comprometeu-se a chegar a 2018 com um rácio de rentabilidade, hoje em 5,3%, acima de 11%.

Estas metas inscrevem-se num contexto de mudança estrutural do “sector financeiro”, marcado pelo crescimento dos canais digitais, o que vai obrigar os bancos a ajustarem o negócio. Até 2018 o BCP admite que a rede comercial seja inferior a 570 sucursais, o que se traduz no encerramento de mais de 100 balcões face a 2015. A redução da rede de vendas surge em linha com o crescimento, em 35%, dos clientes com acesso ao digital e com mais 50% das operações a serem realizadas por esta via.  

Interrogado se admitia posicionar-se para disputar o Novo Banco, Nuno Amado referiu que o BCP tem constrangimentos resultantes da ajuda estatal que recebeu em 2012. E defende que o ideal seria vender o Novo Banco ao melhor preço, e, de preferência, a um banco que opere em Portugal. Isso, afirmou, seria o "dois-em-um". Sobre o Banif considerou que “teria sido interessante" ter "podido estudar o dossier", mas que não foi possível. O banqueiro destacou "a boa operação” feita pelo banco espanhol Santander [que pagou 150 milhões pelo Banif e recebeu um apoio dos contribuintes portugueses de 2000 milhões], e onde foi presidente antes de ir para o BCP.

Nuno Amado lamentou, em todo o caso, que as autoridades tenham  demorado tanto tempo para vender o banco “com um custo significativo” para o Fundo de Resolução (400 milhões) e para os contribuintes (que pode chegar aos 3000 milhões). “Já se sabe que quem vende à pressa vende pior”, afirmou, recordando que o Estado inglês interveio em vários bancos “e suspende” as privatizações “quando as condições de mercado” não são favoráveis.

Sobre o esboço do Orçamento do Estado para este ano, que está no centro de um "jogo negocial entre Governo e Bruxelas", Amado defendeu que o “importante é que haja um bom Orçamento, exequível e que se possa cumprir com rigor”. E que não ponha em causa a actual avaliação da agência canadiana de notação financeira DBRS, que tem mantido o rating de Portugal no nível acima da categoria vista como ‘lixo’ pelos mercados.  

Em termos da actividade do BCP, a actividade internacional contribuiu 176,5 milhões para os lucros consolidados, uma queda de  6,8 milhões face a 2014, em consequência da operação polaca que “teve um quarto trimestre difícil" (por exemplo, houve a contabilização de contribuições extraordinárias de 28,3 milhões de euros relacionadas com a falência do SK Bank).

Já Moçambique estabilizou com um acréscimo de apenas 0,2% (para 84,2 milhões), enquanto Angola subiu 50,1% para 75,7 milhões de euros, mesmo tendo em conta o impacto na economia africana da queda do preço do petróleo.

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