Infecções com vírus Zika podem chegar aos quatro milhões este ano, estima OMS

Organização convocou o seu comité de emergência para decidir uma resposta global à doença que alastra pelo continente americano. O surto assumiu "proporções alarmantes".

O vírus é transmitido através da picada de um mosquito, o mesmo que serve de vector ao dengue e à febre-amarela
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O vírus Zika é transmitido através da picada do mosquito do género Aedes AFP
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Distribuição dos casos de Zika no Brasil, segundo a informação divulgada pela OMS REUTERS/Denis Balibouse
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Funcionários municipais do Rio de Janeiro aplicam produtos químicos para combater os insectos no sambódromo CHRISTOPHE SIMON/AFP

A Organização Mundial de Saúde (OMS) vai reunir na próxima segunda-feira o comité de emergência para decidir uma resposta global à rápida disseminação de infecções pelo vírus Zika na América Latina. A doença, que foi associada a um aumento de casos de microcefalia em recém-nascidos, tornou-se uma ameaça de “proporções alarmantes”, afirma a directora-geral da organização, que estima que entre três milhões e quatro milhões de pessoas possam ser infectadas este ano.

A decisão vai ao encontro de um apelo lançado na véspera por dois peritos norte-americanos que, num artigo publicado no Journal of the American Medical Association, avisavam que o Zika tem o “potencial de uma pandemia explosiva”. O vírus foi detectado pela primeira vez em macacos no Uganda, em 1947, e, apesar de ser relativamente comum em África e na Ásia, nunca tinha ocorrido no hemisfério ocidental até Maio, quando foi confirmado no Brasil, um país de 200 milhões de habitantes – nunca, até essa altura, tinha atingido uma população tão vasta e sem imunidade.

Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas, e Lawrence Gostin, perito em legislação internacional sanitária, pediram, por isso, à OMS para não repetir as falhas na sua resposta inicial à epidemia de ébola, em 2014, que terão ajudado a que o vírus se disseminasse rapidamente por um punhado de países da África Ocidental, provocando mais de dez mil mortos. O panorama começou a mudar quando a organização declarou a epidemia uma “emergência de saúde pública de preocupação internacional”.

Um passo semelhante poderá ser dado na reunião de segunda-feira e que, afirmam os dois especialistas, ajudará a “catalisar a atenção, o financiamento e a investigação” necessários para responder a uma doença para a qual não existe prevenção ou tratamento. Especialistas prevêem que sejam precisos pelo menos dez anos até se conseguir desenvolver uma vacina eficaz contra o vírus, disseminado pelo mesmo mosquito Aedes aegypti que também transmite a dengue e a febre amarela.

O director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, informou esta quinta-feira que já apareceram dois potenciais candidatos à investigação e desenvolvimento de uma vacina para o vírus Zika. O responsável adiantou que uma das vacinas deve basear-se em trabalho que foi realizado para o vírus do Nilo. Fauci espera que os ensaios clínicos possam começar antes do final do ano, mas mesmo que isso aconteça, “demorará vários anos antes de uma vacina estar disponível no mercado”.

Margaret Chan admitiu que a ameaça, até agora moderada, está a assumir “proporções alarmantes”, com o “vírus a propagar-se de maneira explosiva” e a surgirem fortes indícios da correlação entre a doença e as malformações e outros distúrbios neurológicos detectados.  “O nível de preocupação é alto, tal como o nível de incerteza, as questões são muitas e precisamos de encontrar respostas rapidamente”, disse a responsável. Razão pela qual foi decidido chamar a Genebra, já na próxima segunda-feira, o grupo de peritos que tem poderes para decidir uma resposta de âmbito global – que poderá passar pela declaração de uma emergência internacional.

A directora-geral da OMS disse que, no imediato, os esforços devem concentrar-se no “controlo do mosquito”, através do ataque às condições que atraem a sua presença e favorecem a sua multiplicação, como águas paradas. A organização disse que é preciso ter cautela e não tomar medidas extremas que possam revelar-se “inapropriadas”, como por exemplo a restrição de viagens ou do comércio para as zonas afectadas. Para já, as mulheres grávidas estão a ser aconselhadas a não viajar para as áreas atingidas.

Bebés em risco
Apesar de três quartos das pessoas infectadas com o Zika serem assintomáticas e os sintomas, quando surgem, serem só febre e erupções cutâneas, alguns doentes já tiveram complicações neurológicas devido à infecção. Mas o que realmente está a preocupar os especialistas é o aumento exponencial de casos no Brasil, o país que regista mais infecções, de recém-nascidos com microcefalia, bebés que nascem com uma cabeça mais pequena do que a média, indicando problemas no desenvolvimento do cérebro durante a gestação.

Não foi ainda provado que o vírus cause a malformação, mas pensa-se que é no primeiro trimestre de gestação que os fetos estão mais vulneráveis ao vírus. No final da reunião desta quinta-feira, Chan sublinhou que, apesar de não ter sido ainda estabelecida uma "relação causal directa" entre a infecção pelo vírus do Zyka e as malformações, existe uma "suspeita forte" dessa ligação.

Segundo os últimos dados da OMS, o Zika foi já detectado em 21 dos 55 países do continente americano e vai continuar a alastrar. Na Europa, há também já casos registados da doença, incluindo seis em Portugal, relativos a pessoas que regressaram da região. No arquipélago de Cabo Verde também já foram confirmadas infecções.

O Brasil é o país mais afectado: as autoridades não comunicam o número de infectados, que os especialistas admitem ser superior a um milhão de pessoas, mas apenas o número de bebés com suspeita de microcefalia (recém-nascidos com perímetro cefálico inferior a 33 cm), actualmente a rondar os 3500 casos. Segue-se a Colômbia, com 13.800 casos de Zika confirmados, e uma centena de bebés com malformações.

A velocidade a que as infecções alastram e as consequências da infecção nos bebés levaram já os dois países a recomendarem às mulheres que adiem a gravidez, um conselho adoptado também pelo Equador, El Salvador e Jamaica.

Nos Estados Unidos, onde foram já confirmados infecções em pessoas regressadas da América Latina, as autoridades de saúde prevêem que o Zika possa propagar-se a regiões onde vive 60% da população. Casos das regiões húmidas da Flórida e da Luisiana, onde o mosquito pode sobreviver durante todo o ano, mas também a estados mais a norte, na costa Leste e Oeste, durante os meses de Verão.  Com Rita Siza