As minas da Panasqueira são “uma lenda no sector” e a casa da Almonty

Multinacional canadiana que voltou a comprar as minas de volfrâmio da Covilhã promete mais investimento e quer contratar trabalhadores. Garante que regressa a Portugal para ficar.

Almonty diz que os portugueses são os melhores operadores de tugsténio no mundo
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Almonty diz que os portugueses são os melhores operadores de tugsténio no mundo Daniel Rocha

“As minas da Panasqueira são uma lenda” e os portugueses “são os melhores do mundo” a produzir tungsténio. As palavras são de Lewis Black, presidente da Almonty, a multinacional que nos últimos dias de 2015 recomprou à Sojitz Beralt Tin & Volfram as minas de volfrâmio da Covilhã que, garante, toda a gente no mundo conhece, desde a segunda guerra mundial, como um caso de excelente gestão e produção. Desta vez, assegura Lewis Black, em declarações feitas por telefone a partir de Paris, a Almonty veio para ficar.

“A Panasqueira tem finalmente a oportunidade que merece, de pertencer à maior empresa de produção de tunsgténio fora da China. É importante que a Panasqueira se junte a outras minas activas, porque a Panasqueira é uma lenda no sector. Não há outra que esteja a produzir tão bem, e há tanto tempo”, argumenta.

Se na altura da segunda guerra mundial, a Panasqueira chegou a empregar 1200 pessoas, nos últimos anos o número de mineiros e funcionários desceu dos 400. Só no último ano, sob a gestão do conglomerado japonês da Sojitz, a Panasqueira emagreceu os seus quadros em cerca de 20%. Lewis Black diz que a empresa ainda está a trabalhar nos planos de desenvolvimento da mina, pelo que ainda não avança com os montantes que estarão previstos para investimento, mas deixou já uma certeza: a produção é para continuar, independentemente da actual baixa do preço do minério, e que o número de trabalhadores é para aumentar. “Devemos contratar entre 60 a 80 mineiros”, anunciou Lewis Black, confirmando que a intenção é chegar aos 400 trabalhadores. O objectivo é aumentar a produtividade, e com isso baixar os custos de produção da mina, tornando-a mais competitiva.

“Em primeiro lugar teremos de estabilizar a produção, e temos uma obrigação de garantir que a Panasqueira terá condições para aguentar a actual baixa de cotação do tungsténio, não estamos dependentes de ajudas do Estado”, argumenta Lewis Black. Foi essa mesma promessa que, confirmou o PÚBLICO, o representante da Almonty foi deixar à tutela, na reunião que teve no Ministério da Economia no dia 8 de Janeiro. “O novo accionista da empresa veio dizer que está consciente da responsabilidade que assumiu perante o Estado, não esquecendo o impacto que o projecto tem em termos sociais e económicos não só na região como no país”, disse ao PÚBLICO fonte autorizada do ministério da Economia.

“Percebemos que anda toda a gente à procura da ajuda do Governo, e nós somos apenas mais um de muitos. O que podemos garantir é que pretendemos ser auto-suficientes, o mais possível. Não quer dizer que não haja conversas. Mas seria injusto ter comprado a Panasqueira e a seguir ir a correr ter com o governo a pedir dinheiro”, explica o empresário.

Lewis Black reafirma, então, que a história que pretende escrever na Panasqueira é muito diferente da que assinou entre 2005 e 2008. “Não é um déjà-vu”, limita-se a responder à provocação do PÚBLICO, quando questionado sobre o que foi anunciado há oito anos. A Almonty comunicou ter comprado à Primary Metals o que identificou como sendo “um activo pobremente gerido” em 2005, (os valores do negócio não foram comunicados) e três anos depois, em 2008 vendeu-as à Sojitz com um encaixe que lhe permitiu multiplicar por 30 o montante investido.

Black não quis fazer nenhuma crítica à gestão da Sojitz, dizendo que os japoneses fizeram “um bom trabalho”, “o melhor que conseguiram”, uma vez que “não são operadores de minas”, mas sim “operadores de mercado”. “A Sojitz é um conglomerado muito activo e eficiente, que nos dava garantias do futuro da Panasqueira. Na altura pareceu-nos que fazia sentido vender-lhes o projecto. Agora, que comprámos todos os outros projectos que queríamos [as minas de Los Santos (Espanha), Wolfram (Austrália) e Woulfe (Coreia do Sul)] para nós só fazia sentido regressar à Panasqueira. É como um regressar a casa”, afirma.

Lewis Black garante, pois, que não estará tão dependente de cotações, apesar de estar atento ao mercado. “Acredito que a cotação comece a subir nos próximos três ou quatro meses. E que no final do ano, a cotação do minério, o paratungstato de amónio (APT) atingirá os 250 dólares por MTU (acrónimo de metric ton unit). Recorde-se que a Sojitz começou a perder dinheiro com a produção a partir do momento em que a cotação desceu dos 350 dólares. Actualmente está muito abaixo dos 200 dólares por MTU.

“Os portugueses são os melhores operadores de tungsténio no mundo. O grau de conhecimento, as competências e a capacidade de quem lá trabalha não são possíveis encontrar em mais nenhum lugar do mundo. Estou a falar dos mineiros, dos geologistas, do pessoal do laboratório, de todas as pessoas que lá trabalham. São as melhores naquilo que fazem e são pessoas que lutam. Nós não temos controlo sobre o preço. Mas lutamos todos juntos, como fizemos da última vez”, argumenta. “Até porque”, termina, “a Panasqueira é uma velha senhora, que merece todo o nosso respeito e todos os nossos cuidados”.