Editorial

A praga dos empirismos

Não se deve ignorar as diferenças de cada indivíduo. É que os empirismos também são uma praga, que nos compete combater.

Há um exemplo chinês que, apesar de conhecido, é sempre bom lembrar. Durante o período do chamado Grande Salto em Frente (1958-1960), destinado a tornar a China um país altamente desenvolvido num curto espaço de tempo, o regime maoista apelou ao extermínio de mosquitos, moscas, ratos e pardais, incluindo estes últimos na lista não porque provocassem doenças mas porque comiam as sementes necessárias ao cultivo. A campanha foi levada muito a sério (havia recompensas de mérito) e o extermínio foi bem sucedido. Com um “pequeno” senão: os insectos que eram comidos pelos pardais destruíram as plantações e o que se imaginava riqueza redundou em miséria e fome. O regime comunista de Mao deu conta do erro, mas corrigiu-o tarde. O mal estava feito.

Vem isto a propósito de uma outra campanha, num país situado nos antípodas da China de Mao, os Estados Unidos da América. As Recomendações Alimentares oficiais dos últimos 35 anos tiveram por objectivo proporcionar aos americanos uma dieta saudável e melhorar o seu equilíbrio alimentar. Fez-se, nesse período, guerra às gorduras e às calorias, ignorando que a sua diminuição originou um maior consumo de açúcares. O resultado, que está à vista (os americanos estarão “mais gordos e mais doentes do que nunca”, segundo nutricionistas citados pelo Washington Post, ver págs. 24 a 28), levou o Congresso a pedir agora mais prudência e bases científicas mais sólidas nas futuras recomendações dos Departamentos da Agricultura e Saúde e Serviços Humanos; para que não se caia na tentação de diabolizar um determinado grupo alimentar sem ter em conta a necessidade de equilíbrio, indispensável a uma dieta cuidada. É que não é uma questão de moda, como possa pensar-se, mas todo o equilíbrio de uma ou mais gerações que se joga nestas campanhas que, em lugar de terem em conta a diversidade física dos indivíduos e o impacto real das alterações alimentares neles induzidas, se movem muitas vezes por campanhas avulsas, de base mais empírica que científica e não raras vezes influenciadas pelos interesses dos vários lobbies alimentares. Portugal, onde se consome açúcar, gordura e sal em excesso, não tem documentos-guia equivalentes às Recomendações Alimentares dos EUA, mas as sugestões que por aí há, baseadas no conhecimento científico disponível, são também gerais. As dietas, no entanto, deverão ser adaptadas a cada pessoa e tendo em conta as suas especificidades. As sugestões gerais podem servir de bitola, mas não se deve ignorar as diferenças de cada indivíduo. É que os empirismos também são uma praga, que nos compete combater.