Franco Citti (1935-2016): A morte de um “rapaz da vida”

Presença indissociável do universo cinematográfico de Pier Paolo Pasolini, Franco Citti era um símbolo do profundo compromisso do cinema italiano com a realidade e autenticidade.

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Franco Citti em Accattone

O actor Franco Citti, uma lenda do cinema italiano, morreu na quinta-feira aos 80 anos em Roma. Citti, que estava há muito tempo doente, tornou-se famoso aos 26 anos com o papel principal no filme de Pier Paolo Pasolini Accattone, a estreia do realizador italiano no cinema, em 1961.

Citti interpretava o papel de um proxeneta dum bairro miserável da periferia romana, e o seu rosto, a sua presença, para além de exibirem uma fotogenia rude mas estranhamente magnética, também faziam “corpo” com o cenário, físico ou social, do filme de Pasolini, numa impressão de autenticidade “pós-neo-realista” que também era uma das forças da estreia do cineasta italiano.

Franco Citti, irmão de Sergio (também colaborador de Pasolini e depois realizador em nome próprio), não era absolutamente nada estranho a esse universo, muito semelhante ao da sua conturbada juventude, parcialmente passada em reformatórios, como teve ocasião de contar na autobiografia que publicou nos anos 90, A Vida de um Rapaz da Vida.

Ambos, Franco e o irmão, conheceram Pasolini fortuitamente, numa pizzaria nos subúrbios de Roma, quando Pasolini preparava Accattone. Não custa perceber que Pasolini tenha imediatamente visto que estava ali o seu protagonista. Tão bem sucedida foi essa estreia que Franco se tornou, como mais tarde sucederia a Ninetto Davoli, uma das presenças recorrentes da obra de Pasolini, com quem voltaria a trabalhar, em papéis mais importantes ou mais secundários, num número considerável de filmes onde se incluem títulos como Mamma Roma (contracenando com Anna Magnani), Édipo Rei (na pele do protagonista), A Pocilga, Decameron, Os Contos de Cantuária ou As Mil e uma Noites.

Tão importante foi a sua ligação ao universo pasoliniano que, quando episodicamente passou para trás da câmara, o filme que realizou (Vergogna), era uma evocação de Pasolini, através duma visita ao local – em Ostia, nos arredores de Roma – onde o cineasta foi assassinado.

Apesar de ter sempre recusado qualquer formação profissional (por achar, provavelmente com razão, que a aquisição da “técnica” destruiria ou adulteraria o lado instintivo e selvagem da sua presença no ecrã), o impacto de Citti nos filmes de Pasolini lançou-o efectivamente para uma bem recheada carreira de actor, em filmes de realizadores italianos tão importantes como Valerio Zurlini, Elio Petri, o seu irmão Sergio ou Bernardo Bertolucci (embora o seu papel em La Luna tenha sido, rezam as crónicas, aquele que mais se arrependeu de ter aceite).

Não se arrependeu, embora fosse um pequeníssimo papel (Caló, o guarda-costas siciliano de Michael Corleone), do seu trabalho com Francis Ford Coppola em O Padrinho, tanto assim que voltou, 18 anos depois, para o Padrinho III que Coppola dirigiu em 1990. Teve também uma breve experiência teatral, quando Carmelo Bene o repescou para um papel na sua heterodoxa encenação da Salomé, em finais dos anos 60.

Franco Citti não era só um “actor italiano”, era uma memória viva, um “símbolo”, desse compromisso fundamental com a realidade, e com a autenticidade da sua representação, que foi o de grande parte do cinema italiano da segunda metade do século XX.