Opinião

O homem capaz de desiludir todos os portugueses

Não se trata apenas de Sampaio da Nóvoa ter ganho o debate, mas de Rebelo de Sousa o ter perdido por indecente e má figura.

Há umas semanas, comecei a escrever uma crónica para este mesmo espaço que nunca cheguei a publicar porque, no próprio dia em que a escrevia, foi ultrapassada por já não sei que peripécia da vida política nacional e acabei por escrever um novo texto. Coisas que acontecem às vezes, como bem sabe quem já escreveu uma coluna de jornal. A crónica original era sobre as eleições presidenciais e, quase inevitavelmente, tinha como personagem central não as eleições em geral nem os candidatos em geral mas um então candidato a candidato em particular, Marcelo Rebelo de Sousa, que não conheço pessoalmente e sobre quem tenho a mesma informação que a maior parte dos dez milhões de portugueses, através do que diz na TV e do que em tempos escreveu no Expresso. A primeira frase da crónica era: “Simpatizo com Marcelo Rebelo de Sousa.” Não posso garantir que, se a dita crónica tivesse chegado à publicação, essa frase tivesse sobrevivido na mesma forma e posição, porque todos os artigos sofrem um processo de desbaste e edição antes de serem enviados para o prelo, mas ela começava de facto assim.

Explicava em seguida as razões dessa simpatia, que vão para além das suas qualidades intelectuais: a agudeza de espírito e mesmo o ocasional wit, o sentido de humor e a ironia, o seu lado brincalhão e até por vezes infantil, o toque de (ainda que selectiva) iconoclastia, o facto de me parecer uma pessoa feliz (qualidade maior), a sua afabilidade e o facto de me parecer uma pessoa que genuinamente gosta de pessoas. Listava essas qualidades para acrescentar que, por muito simpáticas que me parecessem, elas não perfaziam aquilo que deve ser a panóplia de um presidente da República e para concluir que, a par delas, Rebelo de Sousa possuía uma série de outras características que me pareciam constituir um sério obstáculo ao exercício responsável da presidência, como sejam a sua volubilidade, a sua aversão a comprometer-se, o seu gosto pelos dribles retóricos para evitar as tomadas de posição claras, a sua vontade de estar de bem com Deus e o Diabo, a sua manifesta falta de paciência para as tarefas mais chatas da existência, o seu desejo de ser admirado por todos e a sua vaidade (pecado menor mas que pode tornar-se maior quando impele a que se sacrifique algo mais importante em seu nome), etc.

Repare-se que não falo aqui de questões ideológicas, que me separam a uma escala oceânica de Marcelo Rebelo de Sousa - como o seu apoio discreto mas constante à política de austeridade do governo PSD-PP e a sua benevolência perante os diktats da União Europeia - mas apenas de questões de carácter, sempre essenciais em política, mas particularmente relevantes no caso da Presidência da República.

Ora acontece que hoje, apesar de não me ter entretanto encontrado com Marcelo Rebelo de Sousa, nunca poderia escrever aquela primeira frase, depois dos dois debates que vi entre ele, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.

Não se trata apenas de Sampaio da Nóvoa ter ganho o debate de forma estrepitosa a Rebelo de Sousa, apesar de toda a experiência televisiva deste (sim, os debates não são jogos de futebol, mas são ganhos e perdidos e Rebelo de Sousa perdeu este por uma goleada que incluiu uma boa meia-dúzia de auto-golos) mas de Rebelo de Sousa o ter perdido por indecente e má figura, não apenas por não ter conseguido rebater nenhuma das questões substantivas suscitadas por Nóvoa, mas pelo tom presumido e arruaceiro com que enfrentou o seu interlocutor.

Se o Sampaio da Nóvoa do debate com Marcelo Rebelo de Sousa não me surpreendeu, com a sua calma segurança, com a sua delicadeza mas com grande firmeza na sua argumentação e uma enorme convicção no seu projecto para Portugal, já o verniz de Marcelo estalou de uma forma escandalosa. Vimos um Marcelo irritado, malcriado, visivelmente agastado por ser contestado, incomodado por ter de se defender, incapaz de contestar o óbvio e reduzido ao uso de argumentos ad hominem que me pareceram resumir-se à acusação de que Nóvoa não teve, nos últimos anos, um programa de televisão a partir do qual difundir as suas ideias. Será que a TVI subiu de tal forma à cabeça de Marcelo que este pensa que o facto de ter ocupado esse palco, só por si, o faz merecer a Presidência da República?

O tom de Marcelo melhorou um pouco perante Maria de Belém, mas não o suficiente, chegando ao ponto de se referir repetidamente à adversária à sua frente como “ela”, enquanto apelava ao apoio do moderador, como um colegial no recreio. Ninguém esperaria tanto Boliqueime em Marcelo Rebelo de Sousa, mas ele lá apareceu, sem ser preciso arranhar muito a superfície. Apesar do tal oceano de separação e de nunca me ter passado pela cabeça votar no candidato presidencial do PSD e do PP, fiquei desiludido com Marcelo. Teria gostado de poder continuar a simpatizar com ele. Mas fiquei com a convicção de que, se for eleito, Marcelo Rebelo de Sousa nos irá desiludir a todos.

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