2015: o ano em que João Maria Gusmão e Pedro Paiva deixaram o mundo fora dos eixos

A trabalhar juntos desde 2001, este ano foram dados como artistas em ascensão pelo Art Newspaper. Tiveram também uma das 10 melhores exposições do ano para Adrian Searle, o influente crítico do Guardian.

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Pedro Paiva e João Gusmão foram os mais jovens artistas de sempre a representar Portugal em Veneza DIANA QUINTELA

 Em 2009, João Maria Gusmão e Pedro Paiva foram dos mais jovens artistas de sempre a representar Portugal na Bienal de Veneza, a mais importante bienal de arte contemporânea do mundo. Na altura, tinham respectivamente 29 e 31 anos e estavam entre os portugueses em mais franca afirmação no circuito internacional. Souberam trabalhar o efeito potenciador do “trampolim italiano”: desde Veneza, praticamente não voltámos a vê-los em Portugal. A aposta tem sido internacional. E com resultados evidentes.

“Num mundo artístico em que os vídeos de formatos mais longos se estão a tornar na norma, os filmes de João Maria Gusmão e Pedro Paiva são um choque curto e penetrante”, um corte “bem-vindo” na paisagem, lê-se num dos textos que o The Art Newspaper publicou neste fim de ano.

Ao contrário de nomes como Jeff Koons, por exemplo, João Maria Gusmão e Pedro Paiva surgem em ascensão no balanço anual desta publicação britânica. Mas podiam até estar em queda – em termos estritos da visibilidade conseguida para ali chegar, o significado da presença seria idêntico.

É raro que artistas plásticos portugueses se vejam incluídos neste tipo de listas internacionais. Em 2015 João Maria Gusmão e Pedro Paiva chegaram a pelo menos duas na Grã-Bretanha. Adrian Searle, o influente crítico do The Guardian, escolheu Papagaio como uma das 10 melhores exposições do ano.

Inaugurada em Junho de 2014 no Hangar Biccoca, em MilãoPapagaio, com curadoria de Vicente Todolí, transformou-se num tour de force para esta dupla de artistas a trabalhar em conjunto desde 2001. Num périplo que passou também por Berlim, sempre em formatos distintos, a apresentação no Camden Arts Center, em Londres, foi determinante. 

Uma exposição “louca, mágica e hipnótica”, escreveu Searle em Fevereiro, quando fez a sua crítica à mostra. “Cheia de ideias, pedaços de realidade, truques ópticos e momentos enigmáticos, esta exposição está viva”, explicava então. Chegado o fim do ano, Papagaio ficou em oitavo lugar entre as exposições preferidas do mais interessante crítico da imprensa britânica. Depois da mostra de abertura do novo edifício do Whitney, em Nova Iorque; da grande exposição dedicada pela Tate à “arrebatadora” Sonia Delaunay; dos retratos de Goya na National Gallery; da exposição comissariada por Danh Vo para François Pinault no Punta della Dogana; da mais do que consensual exposição de Ai Weiwei na Royal Academy; da remontagem, no Hangar Biccoca, da última exposição que Juan Muñoz fez em vida (Double Bind, em 2001, na Tate); e da retrospectiva de Agnes Martin, também na Tate. Atrás da dupla de artistas portugueses, em nono e décimo lugar na lista de Searle, ficaram Chantal Akerman e Bruce Conner.

Com cerca de meia centena de peças, Papagaio foi recebida em Londres como “um mundo genuinamente imersivo de filmes realizados com câmaras a alta velocidade e depois projectados em slow motion […] cada trabalho a parecer uma rica pintura a desenvolver-se lentamente”, escreveu o The Art Newspaper.  “No seu melhor, Gusmão + Paiva devolvem-nos àquele sentimento de espanto que os espectadores dos primeiros filmes devem ter vivido enquanto viam o mundo abrir-se perante eles no escuro”, escreveu por seu lado Searle.

No fim o texto, o crítico do Guardian arrasta-nos para um mergulho no impacto emocional daquilo que viu: “Quanto mais tento fazer sentido de Gusmão + Paiva, mais fico sem explicações. A dada altura, o meu crítico interior vai-se embora. Que alívio. Fico ali horas embasbacado. Quando por fim também eu saio e atravesso o trânsito na frenética Rua Finchley, o mundo está fora dos eixos.”

Esse mundo fora dos eixos não é um efeito específico de Papagaio, é da generalidade do corpo de obra que João Maria Gusmão e Pedro Paiva têm vindo a construir. Desde o início. De exposições iniciais como a mostra em três partes Eflúvio Magnético (2004-2006), para a Galeria Zé dos Bois, e Intrusion: The Red Square, a primeira museológica, no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (2005), até exposições já com o fôlego de Papagaio, como foi Abissologia, na Cordoaria Nacional (2008).

Precisamente, desde o ano da Cordoaria, que antecedeu Veneza e foi o mesmo ano em que João Maria Gusmão e Pedro Paiva participaram na Manifesta 7, é raro ver em Portugal exposições destes artistas. Em 2011, houve Breve História da Lentidão e da Vertigem, na Galeria Graça Brandão, que os representa, no ano seguinte houve 10000 coisas, na ZDB, e em 2013 houve Maçã de Darwin, Macaco de Newton, na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada. O foco tem sido sobretudo internacional. Agora sobretudo com grandes exposições individuais: para além de Papagaio, em 2015, o Kunstverein de Colónia apresentou The Missing Hippopotamus, que deu destaque à escultura, uma faceta de obra pouco conhecida em Portugal; o REDCAT de Los Angeles apresentou One Month Without Filming, com oito novos filmes de 16mm realizados nos meses anteriores no Japão.

A recepção desta última exposição em Los Angeles foi semelhante à de Papagaio em Londres: “O efeito é tão assombroso quanto um tanto desorientador, como entrar noutro mundo”, escreveu Sharon Mizota no Los Angeles Times.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva foram vencedores do Prémio EDP Novos Artistas de 2004. No ano seguinte recusaram a nomeação para o prémio BESPhoto, acusando-o de "promiscuidade institucional". 

(Noticia corrigida às 13h15 de 31 de Dezembro: Inicialmente escrevemos que João Maria Gusmão e Pedro Paiva foram "os mais jovens artistas de sempre a representar Portugal em Veneza". Essa afirmação contemplava apenas as participações portuguesas a partir de 1995, ano em que se tornaram sistemáticas e abandonaram o formato das mostras colectivas, passando a individuais. No antigo formato, vindo dos anos 1950, participaram artistas mais jovens. Xana e Pedro Casqueiro tinham 27 anos quando participaram na ediçao de 1986. Na mesma edição, Ilda David tinha 31 anos.)