Morreu Ellsworth Kelly, o gigante do abstraccionismo geométrico

Trabalhou até ao fim e deixa uma obra de peso no abstraccionismo - elogiam-lhe a originalidade e a capacidade de partir do mundo real, quotidiano, para a arte. Tinha 92 anos.

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Ellsworth Kelly fotografado em 1993 ao pé de uma das suas obras Richard Schulman/CORBIS
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Sculpture For a Large Wall, de 1957, exposta no MoMA de Nova Iorque REUTERS/Mike Segar
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Ellsworth Kelly: A Retrospective, no Guggenheim em 1996/97 David Heald/The Solomon R. Guggenheim Foundation
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Ground Zero Ellsworth Kelly
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DARK BLUE/DARK GREEN, de Ellsworth Kelly Miguel Madeira

O pintor e escultor abstracto norte-americano Ellsworth Kelly, um mestre da geometria e um artista plástico determinante para o século XX, conhecido pelo seu trabalho em grande escala, morreu no domingo aos 92 anos.

Kelly, “um dos grandes artistas abstractos do século XX na América”, escreve o crítico de arte do diário americano The New York Times Holland Cotter, morreu de “causas naturais”, informou o seu companheiro, Jack Shear. A notícia chegou à imprensa através do galerista Matthew Marks, que precisou que o artista nascido em Newburgh, Nova Iorque, morreu em Spencertown, em sua casa.

"Um verdadeiro original americano", recorda Marks, citado pela agência Reuters. "Fez a ponte entre o modernismo europeu e o americano", tendo estudado Arte primeiro em Boston, depois em França, na sequência do seu serviço militar durante a II Guerra Mundial. Regressaria aos EUA para, em 1951, expor pela primeira vez.

Influenciado por Picasso – que chegou a conhecer – e por Matisse, foi em Paris, em 1949, que Kelly teve uma epifania: inspirar-se-ia no mundo e não na História da Arte, recorda o jornal Los Angeles Times. "Penso que, se desligarmos a mente e virmos apenas com os olhos, no fim de contas tudo se torna abstracto", disse em 1991. A partir das formas que identificava no mundo real, abstraía.

Com o expressionismo abstracto de Jackson Pollock e De Kooning em ascensão nas décadas de 1940 e 1950, Kelly foi um dissidente, seguindo uma via distinta, de abstraccionismo geométrico: presenças minimalistas, de linhas puras e planos de cor sólidos – “nenhum gesto desperdiçado”, como refere a Art News. Window, Museum of Art, Paris, de 1949, foi um dos exemplos iniciais dessa pintura: dois rectângulos de madeira recortada; nada a não ser linhas negras verticais sobre um plano inferior cinzento e um plano superior branco. Seine, de 1951, que invoca o rio-emblema de Paris apenas através de pequenos quadrados negros sobre tela branca, e Colors for a Large Wall, do mesmo ano, feito de 96 quadrados coloridos, aplicam a estratégia de distribuição aleatória de cores depois frequentemente utilizada por Kelly.  

“Kelly foi um sucessor do abstraccionismo puro de vários artistas dos movimentos de vanguarda do início do século XX, um percussor do minimalismo dos anos 1960, mas, tal como acontece com tanta grande arte, o seu corpo de trabalho escapa a categorizações”, diz a Art News. Que cita o artista numa entrevista de 1969: “O meu trabalho é sobre a estrutura. Nunca foi uma reacção ao expressionismo abstracto. A minha linha de influência tem sido a ‘estrutura’ das coisas de que gosto: arquitectura românica francesa, arte bizantina, egípcia e oriental, Van Gogh, Cézanne, Monet, Klee, Picasso, Beckmann.”

O crítico de arte da revista New York, Jerry Saltz, lembra Kelly nas redes sociais, onde lamenta o seu desaparecimento, como um "geógrafo cósmico". O artista nas suas palavras: "Sou nutrido pelo passado, estou a questionar o presente e estou a intervir no futuro."

O escultor português José Pedro Croft, que em 2003 reflectiu sobre Ellsworth Kelly para o PÚBLICO, esclarecia que "o seu trabalho, parecendo muito erudito, vem do vernáculo, dos passeios pelas ruas, de postais de paisagens, de fotografias de jornais... É a vida toda dele". O próprio Kelly dizia algo parecido: “As formas encontradas numa catedral ou num plano de asfalto numa estrada pareciam-me mais instrutivas, uma experiência mais sensual do que a pintura geométrica. Em vez de fazer uma imagem que poderia ser a interpretação de qualquer coisa que via ou a representação de conteúdos inventados, encontrava um objecto e apresentava-o ‘como era’.”

Apesar de ser mais conhecido pela sua pintura, Ellsworth Kelly levou à escultura os mesmos princípios, com o mesmo vocabulário de linhas, formas e cores. Em 1957, no regresso de Paris a Nova Iorque, tinha 34 anos quando fez Sculpture for a Large Wall (Escultura para uma Parede Grande), hoje tida como uma obra seminal.

Os Estados Unidos viviam então um período efervescente em todos os sentidos, e também para a arte pública, com as grandes empresas privadas emergentes e as cidades em reconstrução a fazer encomendas de grande escala para novos edifícios de escritórios, praças e outros espaços. Kelly foi convidado a fazer uma intervenção num restaurante do novo Transportation Building de Philadelphia, uma estação feita de raiz no centro da cidade e que funcionaria como hub de transportes públicos. Os painéis metálicos coloridos que Kelly concebeu para o restaurante foram tão bem recebidos que acabou convidado a fazer para o hall principal da estação a sua maior escultura até então: 20 metros de lado – 104 painéis suspensos em linhas horizontais.

A peça do restaurante acabou por se perder numa remodelação logo nos anos 1960. A intervenção de maior escala, originalmente instalada sobre a zona dos elevadores e virada para uma praça exterior através de uma parede de vidro, esteve no local durante cerca de 40 anos. Está desde 1998 no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, que tem uma colecção de duas centenas e meia de trabalhos do artista e que descreve Sculpture for a Large Wall como fazendo parte do tipo de trabalhos que, para Kelly, “funcionavam na intersecção entre arte e arquitectura”.     

Há dois anos, quando Sculpture for a Large Wall voltou a Philadelphia para uma exposição temporária, Philip Kennicott, do Washington Post, escrevia: “Sugere um código ou alfabeto de algum tipo actualizado para a fase inicial dos computadores, na qual todos os problemas do mundo estão a ser reformatados em pedaços binários de on e off, aberto e fechado, zeros e uns. As cores, aparecendo ocasionalmente em alguns painéis, adicionam ao conjunto uma espécie de misterioso sublinhado linguístico, como sugestões tonais.”

A originalidade de Ellsworth Kelly é frisada pelos especialistas que o recordam, sublinhando a forma como "forjou a sua arte igualmente na exactidão observativa que ganhou enquanto entusiasta da observação de pássaros quando criança; das capacidades que desenvolveu como designer de padrões de camuflagem quando estava no Exército; e dos exercícios de desenho automático que adoptou do surrealismo europeu", diz o crítico Holland Cotter. Era visto como um dos maiores nomes do minimalismo dos anos 1950 e 60, uma frieza na abordagem artística que se expressava "em poucos artistas de génio" rumo a uma "perfeição formal sem precedentes", escreve H.W. Janson em History of Art, citado pelo LA Times. Distanciado da action painting, como explica a revista Artforum, focava-se em formas únicas, depurando sempre. 

Ao longo da sua carreira, Ellsworth Kelly foi alvo de retrospectivas nalguns dos mais importantes museus do mundo - e a sua obra está presente nas colecções de várias destas instituições - como o Guggenheim de Nova Iorque, o Museu de Arte Moderna de São Francisco e o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles; em Portugal, está representado na colecção do Museu Berardo, com uma peça: Yellow Relief with Blue, de 1991. Em 2011, foi o único artista integrado na mostra do PS1 do Museum of Modern Art (MoMA) sobre os dez anos do 11 de Setembro a ter uma peça directamente inspirada nos atentados. Em Ground Zero (2003) impôs um quadrado verde sobre uma fotografia do Ground Zero no New York Times, sugerindo que o memorial que entretanto se ergueu no espaço onde estavam as Torres Gémeas fosse, afinal, um relvado, evitando uma cicatriz na paisagem. 

Kelly, que não era fumador, sofria há alguns anos de uma doença respiratória que o obrigava a recorrer a oxigénio e que atribuía, explicou ao semanário britânico The Observer, à terebentina, uma substância usada para diluir tinta. Esta doença limitava-lhe o trabalho em obras de grande escala: "Por isso as ideias estão um bocadinho bloqueadas", disse na mesma entrevista há pouco mais um mês. Ainda assim, e segundo o galerista Matthew Marks, que representa Kelly, além de ter passado "um bom Natal com muitos amigos e artistas", tinha acabado de completar cinco novas pinturas.