CP quer alugar pela primeira vez comboios de longo curso a Espanha

Os actuais dez comboios que a companhia ferroviária possui não chegam para responder ao aumento da procura nos pendulares, que prestam serviço no eixo Braga-Faro.

Actual frota de longo curso é insuficiente para a procura e alugar comboios à espanhola Renfe pode ser a solução
Foto
Actual frota de longo curso é insuficiente para a procura e alugar comboios à espanhola Renfe pode ser a solução Fábio Teixeira

O aluguer de comboios S-120 à Renfe é a medida proposta pela CP para fazer face à crescente procura do longo curso que tem vindo a ter nos últimos anos e para a qual a frota dos pendulares começa a revelar-se escassa.

A transportadora pública possui dez comboios pendulares que prestam serviço no eixo Braga – Faro. Em condições normais de exploração, um deverá estar em oficina para manutenção, mas cada vez mais a CP recorre à totalidade da frota para fazer face aos picos de procura dos fins-de-semana e nos períodos de ponta do Verão.

A situação vai agravar-se quando, a partir de Março, tiver início a revisão de meia vida dos pendulares, que prevê, para além da substituição de peças e componentes (estes comboios datam de 1998), uma profunda alteração no seu layout, com novos assentos, novas cores e um interiorismo diferente do actual. Contudo, isso implica que nos próximos dois anos haja pelo menos uma composição em oficina durante uns meses.

Com nove comboios, a CP ainda consegue assegurar a sua oferta regular, mas basta um pequeno incidente que imobilize uma das composições para que a empresa tenha de suprimir serviços ou assegurá-los com outro tipo de material circulante de categoria inferior.

A solução passa por alugar quatro ou cinco comboios de alta velocidade ao país vizinho. Trata-se dos S-120, construídos pela CAF e Alstom em 2005, capazes de circular a 250 Km/hora e dotados de bi-tensão, isto é, podendo circular na rede electrificada portuguesa e espanhola. São também comboios bi-bitola, o que significa que podem circular em bitola ibérica e bitola europeia, se bem que, no caso português, isso é indiferente uma vez que em Portugal só há uma bitola. São compostos por quatro carruagens, o que permite fazer composições de oito veículos (os pendulares só têm seis carruagens). Estes comboios funcionam actualmente em Espanha nos eixos Gijón/Oviedo/Léon/Irun, Irún/Barcelona via Pamplona, Sevilha/Jaén e Sevilha/Córdoba.

A medida terá de ser ainda aprovada pelo novo Governo a quem a CP terá de convencer que, sem material novo, terá de fazer uma diminuição na sua oferta de longo curso, utilizando material circulante menos moderno e confortável. A seu favor tem os números dos últimos anos. Entre 2013 e 2015 a procura no longo curso subiu de 4,48 para 5,25 milhões de passageiros (valor estimado uma vez que só há registos até Novembro deste ano), o que representa um crescimento de 17,2%. Neste período o serviço que mais cresceu percentualmente foi o Alfa Pendular, com 21,6%, tendo os Intercidades crescido 14,8%.

Num negócio muito sujeito à sazonalidade, é entre Maio e Outubro que os comboios de longo curso registam mais procura (todos com mais de 400 mil passageiros por mês) com picos de meio milhão em Julho e Agosto.

Segundo a CP, o melhor mês de sempre do Alfa Pendular foi o de Julho deste ano, com 194 mil passageiros transportados (num daqueles dias em que as oficinas de manutenção ficaram vazias porque toda a frota esteve a circular). E o máximo diário foi atingido em 25 de Setembro de 2015 com os pendulares a transportarem 7540 passageiros.

“O material é o que é. A infraestrutura é que a é. Por isso estamos a tentar o limite com a frota que temos, manipulando a única variável que temos à disposição, que é a captação de mais passageiros”, diz o presidente da CP, Manuel Queiró.

O recurso aos comboios espanhóis não é inédito, uma vez que a CP desde 2010 que paga cinco milhões de euros por ano pelo aluguer de automotoras a diesel para o serviço regional. Uma solução que começou por ser provisória, enquanto não se electrificam as linhas, mas que tende a tornar-se definitiva face ao adiamento desses investimentos por parte da Infraestruturas de Portugal.

Três anos de atraso
A revisão da meia vida dos pendulares deveria ter começado em 2012, mas tem vindo a ser sucessivamente adiada. Em Abril de 2014, Manuel Queiró dizia: “Vamos iniciar, no final deste ano, o processo de revisão de meia vida desses comboios e ao longo de 2015 tê-los-emos todos modificados”. E acrescentava: “Será uma revisão profunda que implica alterações no próprio habitáculo e no aspecto exterior. Na percepção do público será quase como um novo comboio”.

O processo de privatização da EMEF veio, porém, emperrar o projecto. O Tribunal de Contas não aceitou o contrato feito entre a CP e a sua empresa afiliada que iria mudar de mãos. Só quando o Governo desistiu da privatização da EMEF é que a CP voltou a ter autorização para fechar o negócio com a empresa de que é, simultaneamente, accionista e cliente.

Segundo Manuel Queiró, a revisão da meia vida dos pendulares custará 19 milhões de euros e terá início em Março.