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O Artista na Cidade está a chegar e vai passar pela Cova da Moura

O congolês Faustin Linyekula começa o seu ano em Lisboa com um trabalho no bairro da Amadora.

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O bailarino, coreógrafo e encenador congolês vai levar Le Cargo a um bairro onde identificou muitas das temáticas que tanto gosta de trabalhar: colonialismo, guerra, miséria, fome... David Andrako

O ano de 2016 está a chegar e com ele a terceira edição da bienal Artista na Cidade, desta vez com o artista congolês Faustin Linyekula como convidado. Do programa da sua estadia prolongada, o destaque vai para o espectáculo Le Cargo, que o bailarino, coreógrafo e encenador já havia apresentado em Lisboa mas que agora terá um significado especial: Linyekula vai adaptá-lo à Cova da Moura. 

Quando o Artista na Cidade é convidado a viver em Lisboa durante um ano, não é apenas para que apresente por cá alguns dos seus trabalhos mas também para que o mesmo trabalhe com as comunidades locais. Quando este ano Faustin Linyekula (cuja área de intervenção se divide entre a dança e o teatro, mas incorporando a música e o vídeo) esteve em Lisboa a preparar a sua vinda, visitou a Cova da Moura, o bairro que fica na Damaia (Amadora) e onde o congolês identificou muitas das temáticas que tanto gosta de trabalhar e que em nada lhe são estranhas: o colonialismo, as feridas da guerra, a miséria e a fome. Decidiu por isso levar o seu Le Cargo até à Associação Cultural Moinho da Juventude, à qual tantos jovens do bairro recorrem. Ali vai trabalhar com a comunidade até à data de apresentação do espectáculo, 24 de Janeiro, numa parceria com o Maria Matos. Esta será apenas uma primeira experiência, uma vez que o programa da bienal prevê que Linyekula continue a trabalhar Le Cargo, onde cruza a sua história pessoal com a do seu país, noutros bairros multiculturais de Lisboa em Maio, Junho e Novembro.

Linyekula, nascido em Ubundu, no antigo Zaire (actual República Democrática do Congo) em 1974, tem desenvolvido um trabalho de proximidade com artistas e comunidades menos favorecidas e mais afastadas das artes. Em 2006, criou em Kisangani o centro de residências Studios Kabako, com o objectivo de dinamizar a formação, a criação e o intercâmbio internacional. O projecto Pamoja, criado pelos seus estúdios e apoiado pela União Europeia, desenvolve a colaboração e o intercâmbio entre três países da região: Congo, Moçambique e Senegal.

A bienal Artista na Cidade é também uma oportunidade para continuar a trabalhar esses cruzamentos numa cidade fortemente marcada pela imigração africana e por uma história colonial. Ainda antes de chegar à Cova da Moura, o coreógrafo apresenta-se no Teatro Camões, entre 14 e 24 de Janeiro, com com Portrait Series: I Miguel. 1Space Lab (25 de Janeiro a 5 de Fevereiro no Espaço Alkantara), Sur les traces de Dinozord (1 e 2 de Junho na Culturgest, no âmbito do Alkantara Festival), Dialogue Series IV: Moya (4 e 5 de Junho no São Luiz, também no âmbito do Alkantara), Sans-titre, com Raimund Hoghe (2 e 3 de Novembro no São Luiz), more more more… future (10 e 11 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian) e Statue of Loss/Triptyque Sans Titre (18 e 19 de Novembro no Centro Cultural de Belém) são alguns dos espectáculos que Linyekula apresentará por cá. Previstos estão ainda workshops com alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema, um espectáculo de rua integrado nas Festas de Lisboa, e uma palestra de Isabelle Danto sobre a obra do bailarino, coreógrafo e encenador que se estreou em Lisboa em 2003 e desde então tem apresentado por cá vários dos seus projectos.

Faustin Linyekula será o terceiro Artista na Cidade, sucedendo ao autor e encenador britânico Tim Etchells (2014) e à coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker (2012).