Crítica

Cenas da luta de classes no Morumbi

A brasileira Anna Muylaert põe o dedo na ferida das desigualdades sociais com um filme cuidadosamente desconfortável.

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Que Horas Ela Volta?: Val (Regina Casé) é empregada de uma família paulista há quase 20 anos, ao ponto de ser mais mãe do filho do casal do que da sua própria filha DR

Se dissermos que há muito tempo não nos retorcíamos na cadeira com tamanho desconforto durante um filme, isso deve ser entendido como um enorme elogio à brasileira Anna Muylaert, que põe com esta sua quarta longa-metragem o “dedo na ferida” das desigualdades sociais. É verdade que Que Horas Ela Volta?, centrado numa empregada interna que vive em casa dos patrões ricos, se ancora numa realidade especificamente brasileira. Mas o que está em jogo aqui, de modo muito mais universal, é a dignidade humana e as relações de poder, entre os que “têm” e os que “não têm” (dinheiro, educação, classe).

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Val (Regina Casé) é empregada de uma família paulista há quase 20 anos, ao ponto de ser mais mãe do filho do casal do que da sua própria filha Jessica, que deixou para trás na província enquanto ganhava dinheiro para a sustentar. Quando Jessica vem a São Paulo para o exame de admissão à faculdade de arquitectura, a sua chegada abala o equilíbrio social estabelecido na vivenda do Morumbi: ela não encaixa no lugar-comum da “filha da criada”, e a sua recusa em jogar o jogo dos ricos e dos pobres vem baralhar o status quo, entalando um pauzinho na engrenagem que mantém Val subserviente à mesquinhez aleatória da patroa Bárbara. Não por acaso, nesta arena doméstica onde tudo se joga de modo subterrâneo, através de palavras e actos calculados para ferir onde mais magoa, os homens são simples figuras emasculadas que servem ao mesmo tempo de testemunhas e fantoches. O verdadeiro poder está nas mãos das mulheres. <_o3a_p>

Anna Muylaert filma esta história de guerra psicológica com uma distância calculada para criar o máximo efeito, jogando de modo extremamente inteligente com o fora de campo, com o espaço da casa, com os planos de conjunto. Mas não resiste a “pacificar” o filme com um final “feliz” que, sem ser descabido, neutraliza parte da violência psicológica do que veio antes, inscrevendo-se numa lógica narrativa que deixa a história embrulhadinha e atadinha. Nesse aspecto, O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho (2012) apresentava um retrato menos arrumadinho da luta de classes que borbulha logo abaixo da superfície do Brasil moderno. Mas é também sinal de que a realizadora compreendeu que o que estava em jogo era a necessidade de uma catarse e de uma redenção para o espectador, e que isso exigia um final certinho. E é mesmo só por aí que Que Horas Ela Volta? fica aquém do que promete durante a maioria da sua desconfortável duração.<_o3a_p>