PP, PSOE e Cidadãos empatados nas sondagens a três semanas das eleições

Rajoy será o grande ausente de um debate organizado pelo El País, onde Iglesias espera conseguir começar a diminuir a distância que separa o Podemos dos outros partidos.

Albert Rivera e Pablo Iglesias são os rostos da nova política em Espanha
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Albert Rivera e Pablo Iglesias são os rostos da nova política em Espanha Susana Vera /Reuters

Os debates eleitorais são uma raridade na história democrática espanhola, mas a situação em que o confronto desta segunda-feira à noite se vai realizar é absolutamente inédita. O anunciado fim do bipartidarismo em Espanha, já testado e confirmado em eleições regionais e municipais, confirma-se com as sondagens a três semanas das eleições nacionais de 20 de Dezembro. Partido Popular, o Cidadãos de Albert Rivera e o Partido Socialista surgem em empatados, com 22,7%, 22,6% e 22,5% das intenções de voto.

Se as eleições, e não o debate, acontecessem segunda-feira, o Podemos ficaria bastante atrás das três formações, com 17,1% dos votos. A sondagem do instituto Metroscopia para o diário El País comprova a tendência verificada desde Outubro, quando o partido de Rivera ultrapassou o de Pablo Iglesias. O PSOE estava então à frente do Cidadãos. Agora, o empate é a três.

O debate de segunda-feira também será a três, mas não são os mesmos. O PP, de Mariano Rajoy, à frente por uma décima, não vai estar representado. O ainda primeiro-ministro tentou que o El País, que organiza o debate, aceitasse que no seu lugar estivesse a vice-presidente do Governo, Soraya Sáenz de Santamaría. O diário recusou e assim este será um debate de 3+1, como lhe chama Marcos Sanz Agüero, analista do Metroscopia: “três candidatos presentes e um ausente, com o seu pódio a proporcionar durante todo o tempo a memória da sua ausência voluntária”.

Em Maio, 35 milhões de espanhóis foram chamados a votar e o mapa político mudou. O PP foi a força mais votada nas regionais e municipais, o PSOE a segunda, mas os partidos tiveram resultados historicamente baixos – os socialistas ficaram com 25%; os populares com 27% (vinham de 37%, nas municipais e autonómicas de 2011), perdendo maiorias em 500 câmaras municipais e as sete que tinham nos 13 parlamentos regionais que foram a votos.

Listas apoiadas pelo Podemos acabaram a governar cidades como Barcelona e Madrid, enquanto o Cidadãos se tornou incontornável em vários governos regionais. As eleições de Maio foram as segundas nacionais de sempre em que o Podemos se apresentou, depois de ter nascido a tempo das europeias de 2014, quando elegeu cinco eurodeputados com quatro meses de vida; o mesmo acontecendo com o partido de Rivera, criado na Catalunha há nove anos, mas que só se tornou num partido nacional nas últimas europeias.

Iglesias e Rivera são os rostos da nova política e da regeneração. Na sexta-feira encontraram-se para um, “em directo, sem perguntas encomendadas nem restrições”, escreveu o director do jornal El Mundo. Foi o primeiro frente a frente aberto e com perguntas não negociadas da democracia espanhola.

Em vez de um, houve dois pódios vazios: faltou Rajoy e faltou o líder do PSOE, Pedro Sánchez. Como o El País, também a Asociación Demos, que organizou o encontro na Universidade pública Carlos III com uma plateia de 1500 alunos (muitos dos interessados não couberam no auditório), recusou substitutos. Economia, educação e combate ao terrorismo foram os principais temas de uma conversa acesa.

Decepções e expectativas
“Rajoy e Sánchez são os perdedores. Demonstraram que a velha política não quer acompanhar os novos tempos e o que as pessoas querem”, comentou Fernando de Páramo, secretário de Comunicação do Cidadãos e membro do comité eleitoral do partido. “Principalmente, tendo em conta que este frente a frente foi organizado pelos universitários. Devem explicar por que é que têm medo.” Do Podemos vieram observações semelhantes. “Enquanto a velha política soma decepções, a nova gera expectativas, que se traduzem em filas para entrar e ver os candidatos à presidência do Governo”, disse ao El Mundo um membro da equipa de Iglesias.

A três semanas das eleições, é Iglesias que tem de recuperar terreno. O cientista político que treinou para a política e se tornou conhecido em programas de debate e tertúlias conta com o debate do El País para iniciar a recuperação. Líder de um partido jovem que anunciou querer “ocupar a centralidade do tabuleiro político” mas que continua a ser visto pelos eleitores como radical, Iglesias vai ser obrigado a explicar o que é hoje o Podemos, cujas propostas se têm moderado ao longo dos meses.

Com um só representante da velha política, Sánchez, é expectável que Iglesias e Rivera ataquem bastante o socialista, ao mesmo tempo que não podem esquecer que disputam entre si o voto da mudança. Um e outro roubam votos ao PP e ao PSOE, apesar do Podemos estar claramente à esquerda dos socialista e o Cidadãos ser em termos programáticos um PP liberal nos costumes, que se distingue ainda pelo combate à corrupção e a exigência de novas práticas, como a escolha de candidatos em primárias (aqui encontra-se com Iglesias).

Os espanhóis só assistiram a debates entre os candidatos à chefia do Governo, em três ocasiões, e todos foram altamente negociados. Aconteceu uma vez em 1993, entre Felipe González e José María Aznar, duas em 2008, com José Luis Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy, e em 2011, num só frente a frente com Rajoy e o ex-líder socialista Alfredo Pérez Rubalcaba.

No debate de 90 minutos que começa às 21h (20h em Lisboa) desta segunda-feira, os temas estão escolhidos e divididos em quatro blocos – economia, emprego, política social e territorial, e reformas e regeneração política – e, ao contrário dos anteriores, haverá eleitores a assistir e perguntas que chegarão através das redes sociais. Rajoy, o ausente, aceitou para já um debate, só com Sanchéz, no dia 14 de Dezembro. Para Sanz Agüero, do Metroscopia, o encontro do El País “é um triunfo, antecipado, do multipartidarismo que se avizinha sobre o bipartidarismo em decadência”.