Editorial

Fim de um governo, começo de outro?

O apoio explícito do PCP a quatro anos de um governo PS abre novo horizonte na actual crise política.

Jerónimo de Sousa anunciou, com as suas expressões peculiares mas sem margem para dúvidas, que o PCP apoiará um governo PS (já que não tomará parte nele) ao longo dos quatro anos que durar a legislatura. Incondicionalmente? Jerónimo sublinhou isto: “A possibilidade agora aberta, que não deve ser desperdiçada e que tudo faremos para que se confirme, não só não dispensa como confirma o indispensável objectivo de ruptura com a política de direita e a concretização de uma política patriótica e de esquerda”. É verdade: “ruptura com a política de direita e a concretização de uma política patriótica e de esquerda”. Isto é o que o PCP tem exigido ao longo de anos. E isto é aquilo que o PCP tem dito que o PS até hoje nunca fez. Fará agora? Integrando no seu programa (já que não é um programa novo, é o que o PS apresentou nas legislativas com alterações) as cerca de 70 medidas negociadas com o PCP, o Bloco e o PEV? Chegará isto para transformar uma prática até aqui “de direita” (segundo o PCP) numa “prática de esquerda”? Só o futuro o dirá. E isso manterá em “sossego” sindicatos, sobretudo a CGTP mas também a UGT, durante quatro anos? Uma coisa parece certa: o governo de Passos Coelho e Paulo Porta cairá no Parlamento, sob o fogo (paralelo, não conjunto) de várias moções de rejeição. O PS terá a sua, solitária, PCP, Bloco e Os Verdes terão as deles. Mesmo que só uma seja votada, isto mostra também que, havendo “quatro vias” para derrubar passos e Portas, coisa simples de unificar, como é podem garantir já uma só via para um governo de esquerda? As declarações são optimistas. Mas a procissão, como diria Jerónimo, ainda vai no adro. Não se sabe ainda o que fará Cavaco e, no caso de este passar o governo para a esquerda, o que fará esta com o poder que ganhará. Resta também saber se esta mudança política do PCP, saudada como histórica, terá os efeitos prometidos e esperados. Viramos, para já, uma página na história.

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