Mayra Andrade: “Um concerto é como um filho que cresce”

A cantora cabo-verdiana Mayra Andrade tem três noites no Misty Fest: no Coliseu do Porto, esta quarta-feira (21h), dia 5 no CCB, em Lisboa, e dia 7 no CAE da Figueira da Foz.

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Mayra Andrade trocou Paris por Lisboa, a bem da criatividade DR

Mayra Andrade vivia em Paris, agora vive em Lisboa. A troca, diz ela, há-de ser benéfica para a sua criatividade. Por várias razões, de que falaremos mais adiante, mas o que a traz hoje à ribalta são os três concertos marcados para Portugal, todos eles pelo Misty Fest. Hoje no Coliseu do Porto (21h), amanhã no CCB, em Lisboa (21h), e dia 7 no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz (21h30).

“Este concerto” diz ela, “é essencialmente,o que eu tenho feito pelo mundo fora. Com o repertório do Lovely Difficult e algumas músicas, das mais conhecidas, do primeiro disco, o Navega. Aqui em Portugal fiz um dos primeiros concertos dessa tournée, mas nestes dois anos a música mudou muito, transformou-se, ganhou consistência, os arranjos foram melhorados, não tem comparação. Se eu fosse ouvir agora o concerto que dei nessa altura, se calhar apagava-o logo. E na altura já pensávamos que estávamos bem! Mas um concerto amadurece, acho que já estou a cantar as músicas muito melhor. Esse à-vontade, essa coisa que flui do início ao fim, proporciona ao público uma experiência diferente. Um concerto é como um filho que cresce.”

E esse crescimento é, ao mesmo tempo, uma correria. “Fiz quatro discos, estou nisto há quinze, a tournée dura no mínimo dois anos, 100 a 120 concertos por ano. E tenho que estar com condições físicas e emocionais para estar bem na estrada. Há momentos muito mais intensos do que outros e, de vez em quando, é preciso saber parar. E eu gosto de parar, de me afastar da música, de não ouvir música sequer, de viver momentos humanos fortes em sítios fora dos circuitos habituais.”

Não é coisa que Mayra consiga fazer com facilidade, mas vai tentando. “Há dias tive um concerto em Marrocos, fiz por cheguar um dia antes e fui andar pela cité blue, andei a perder-me naquela cidadezinha, encontrei músicos, andei a cantar com eles... E adoro a Turquia. Sempre que vou para Istambul, fujo, vou um dia antes ou fico mais um dia para ir aos souk, ao bazar egípcio.”

Aznavour, Bana, Cesária
Ao longo da sua carreira, tem somado experiências únicas. As mais mercantes? Mayra começa pelo seu dueto com Charles Aznavour. “Tem algo de surreal, são duas épocas muito diferentes, e marcou-me muito. Cantar com o Bana marcou-me também, fiquei muito emocionada de cantar com ele, porque para mim ele representa a geração dos meus avós, conheceu-os, e quando ele partiu [morreu em 13 de Julho de 2013] fiquei muito, muito triste. Cantar com a Cesária foi também, para mim, super importante. Mais recentemente, cantei num documentário sobre a vida e a obra de Dominguinhos [cantor, compositor e exímio sanfoneiro do Brasil] e o encontro com ele deixou-me transtornada. Estava a fazer uma homenagem em vida a uma pessoa que eu sabia que ia ver pela última vez [ele morreu dez dias depois de Bana, a 23 de Julho de 2013].”

"Vim de coração tranquilo"
Nos concertos do Porto e de Lisboa, Mayra terá dois convidados especiais: Sara Tavares e Pedro Moutinho. E uma banda renovada, com a qual tem vindo a apurar o seu som: Rémi Sanna (bateria), Nicolas Liesnard (teclas), Nenad Gajin (guitarra), Franck Orosemane (baixo).

Nascida em Cuba em 1985, de pais cabo-verdianos, Mayra viveu no Senegal, em Angola, na Alemanha e em Paris, onde se ficou em 2003. A troca de Paris por Lisboa é recente e foi muito amadurecida. “Acredito que a cidade me vai proporcionar novas trocas. Talvez por ser mais pequena que Paris, aqui cruzo-me e convivo mais com poetas, escritores, pessoal da música electrónica. Claro que tudo isso existe em França, mas é tudo mais complicado, mais longe, ninguém tem tempo. Aqui, o modus vivendi faz com que as pessoas queiram conviver e queiram perder tempo juntos. E isso acaba por gerar também uma maior vontade de criar juntos. A bem da minha criatividade, esta mudança era mesmo necessária. Em Paris já nada me prendia. Graças a Deus, cheguei a um nível onde posso viver cá e continuar a trabalhar lá. E se vim de coração tão tranquilo é graças aos lisboetas, que me deram essa segurança de que aqui eu posso ser feliz.”