Obama envia tropas norte-americanas para combater na Síria

Estados Unidos e Rússia confirmam acções militares em simultâneo com processo diplomático. Negociadores em Viena "concordaram em discordar" sobre o futuro de Bashar al-Assad.

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Membros do Exército Livre da Síria às portas da cidade de Alepo (arquivo) AFP/VEDAT XHYMSHITI

Apesar dos esforços diplomáticos para encontrar uma solução que ponha termo à guerra na Síria, foram as movimentações militares que captaram as atenções no que diz respeito aos “desenvolvimentos” da crise, esta sexta-feira. Ao mesmo tempo que em Viena se reuniam, pela primeira vez, os representantes das principais potências estrangeiras com “interesses” no conflito, as bombas caíam sobre um mercado dos arredores de Damasco, fazendo dezenas de vítimas, e os Estados Unidos seguiam a deixa da Rússia, escalando a sua missão com o envio de tropas para o teatro de guerra.

Esta sexta-feira em Viena, os diplomatas alinhados nos dois blocos em confronto na Síria – os Estados Unidos e aliados ocidentais, bem como a Turquia, Arábia Saudita e países do Golfo, que reclamam a saída do Presidente Bashar al-Assad; de um lado; a Rússia e o Irão, que apoiam o Governo de Damasco, do outro – deram conta de “progressos” nas negociações, que se centram na discussão do papel do Presidente sírio e da transição do seu regime autocrático para um novo sistema democrático. Tanto o Governo de Damasco como os grupos de oposição (no exílio) foram mantidos à margem das conversações.

Enquanto isso, em Washington, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu luz verde ao destacamento de um primeiro grupo de até 50 militares para território sírio. As primeiras tropas norte-americanas no terreno – provavelmente um grupo de 20 a 30 efectivos das forças especiais – terão como missão “aconselhar e apoiar” os grupos rebeldes de oposição (árabes e curdos) que combatem o autoproclamado Estado islâmico no Norte da Síria.

Ainda que os soldados americanos não tenham, à partida, nenhum papel “activo” em termos de combate, estão autorizados pelo Pentágono a devolver fogo em caso de ataque e a integrar raides militares com as forças da resistência síria (aliás, os EUA já participaram em missões especiais). Fontes da Administração Obama citadas sob anonimato pela imprensa do país consideravam o envio do reduzido contingente militar em permanência para a Síria como “a escalada mais significativa da campanha militar dos Estados Unidos contra o Estado Islâmico”, ao fim de um ano de hostilidades.

A nova iniciativa militar americana resulta, em parte, da constatação do fracasso da sua anterior estratégia para travar o avanço do Estado Islâmico. Mas o envio de tropas surge também em resposta às movimentações da Rússia no terreno: há um mês, Moscovo baralhou os dados dando início a uma intervenção militar contra o terrorismo na Síria, que até agora provocou mais baixas entre os grupos de oposição a Bashar al-Assad do que nas fileiras jihadistas.

Depois de oito horas de discussão em Viena, as “diferenças substanciais” entre os dois blocos de apoio e crítica ao Governo de Damasco ainda não tinham sido ultrapassadas, mas ambos assinalavam uma aproximação de posições – suficiente para, pelo menos, manter o processo em marcha, com um novo encontro agendado para meados de Novembro. Por exemplo, todos os participantes concordaram que as Nações Unidas deveriam intensificar os seus esforços de mediadora e reabrir as conversações entre o regime de Assad e os grupos de oposição, com vista a um cessar-fogo que abra caminho a “um processo político credível, inclusivo e não-sectário” que resulte numa nova Constituição e eleições livres.

Já quanto ao futuro político do Presidente Bashar al-Assad “foi impossível chegar a um consenso”, resumiu o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov. Segundo o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, “concordamos que discordamos quanto ao papel de Assad”, cuja permanência no poder é, na sua opinião, o grande factor desestabilizador para a paz e o principal entrave à derrota dos extremistas na região.

As declarações produzidas pelos diferentes participantes na conferência não deixaram dúvidas sobre o fosso que ainda os divide: se de acordo com o governante russo, essa é uma decisão que compete exclusivamente aos sírios, para a Arábia Saudita continua a ser ponto assente que “Assad tem de sair, ou a bem ou à força”, como explicou o representante saudita à BBC. “A posição dos Estados Unidos é que de maneira nenhuma Assad pode unir a Síria e governar o país”, repetiu John Kerry.

O Irão, que as agências internacionais por momentos descreveram como “a grande surpresa” da conferência de Viena, acabou por desmentir as informações que davam conta do seu apoio a uma proposta de transição política que previa a realização de eleições dentro de seis meses na Síria. Na véspera do encontro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, declarara que Teerão não tinha “pré-condições”, e o seu vice, Hossein Amir Abdollahian, acrescentara que a república islâmica “não insiste em manter Assad no poder para sempre”. Mas no fim da reunião de Viena, a imprensa iraniana garantia que os representantes de Teerão tinham “rejeitado categoricamente” qualquer plano para a demissão do Presidente da Síria.