Antigos dirigentes do Movimento Estudantil reivindicam governo de esquerda

Grupo de antigos líderes estudantis que combateram a ditadura no pré-25 de Abril juntaram-se para exigir o “Governo votado pelos portugueses”.

O encontro juntou vários antigos dirigentes estudantis na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa
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O encontro juntou vários antigos dirigentes estudantis na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa Pedro Cunha (arquivo)

Um grupo de antigos dirigentes do Movimento Estudantil e Associativo, que actuava pela liberdade e democracia no tempo do Estado Novo, promoveu uma conferência de imprensa, nesta terça-feira, para exigir “respeito pelo resultado eleitoral”. Para os antigos alunos universitário e do secundário, é “claro” que os partidos que os portugueses querem a liderar o país são aqueles que “apresentaram propostas de ruptura com a política do governo anterior e que defendem o Estado Social”, ou seja, “PS, BE e CDU”.

Os antigos membros do Movimento Estudantil, entre eles Pedro Ferraz de Abreu, da direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (UL) — que chegou a ter três mandados de captura da PIDE —, Glória Ramalho, também de Ciências da UL e expulsa da universidade como método de repressão política, e ainda José Gomes, do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário, preso e interrogado pela PIDE, juntaram-se na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, sob o olhar atento do “capitão de Abril” Vasco Lourenço.

“A proposta de continuidade do governo anterior, apresentada pela coligação PSD/CDS, perdeu a maioria, os portugueses não querem a direita”, explicou Glória Ramalho, acrescentando que, “ao contrário do que querem fazer crer, os votos contam e são todos iguais, e mais de metade dos portugueses votou na esquerda”.

Que a coligação PSD/CDS tenha tido mais votos do que cada partido à sua esquerda isoladamente “é relevante”, mas em nada altera o facto “inquestionável” de que, se PS, BE e CDU se unirem, têm “melhores condições para a estabilidade, para criarem um Governo forte”, disse Pedro Ferraz de Abreu.

O professor doutorado em Ciência Política aproveitou para “desmistificar argumentos enganadores que têm eco desmesurado na comunicação social”. Pedro Ferraz de Abreu deixou muitas críticas aos media portugueses, de falta de imparcialidade e desvio à direita, assumindo que “uma democracia não existe sem liberdade de expressão e opinião, e a comunicação social doente dá um democracia doente”.

O antigo dirigente estudantil lamentou que se continue a discutir a “ilegitimidade” de um governo de esquerda. “Nós votamos deputados para a Assembleia da República, não votamos um primeiro-ministro. A democracia que nós temos não foi inventada, segue critérios e padrões muito semelhantes a democracias bem mais antigas da Europa. E existem países que são governados pelo segundo e pelo terceiro partido mais votado sem que fiquem diminuídos democraticamente.” E deixou um recado ao Presidente da República, Cavaco Silva: “Que não nos tome por tolos, sabemos o que queremos e sabemos em quem votámos. E não votámos num governo de direita.”

Pedro Ferraz de Abreu discutiu ainda outro “mito propagado pela comunicação social e pela direita”, o de que os portugueses teriam sido “enganados” por António Costa, que nunca teria revelado que se coligaria à esquerda para governar. “António Costa disse vezes e vezes sem conta que nunca aprovaria um Orçamento do Estado da direita. E agora diz exactamente a mesma coisa. Onde é que está o engano?”

Os antigos líderes do Movimento Estudantil saudaram ainda o diálogo entre partidos e o fim do sectarismo na esquerda. “É chegada a altura de uma mudança, há uma recomposição do espectro político em Portugal e na Europa muito interessante”, concluiu José Gomes. “E que a democracia vença, sempre.”

Notícia editada por Tiago Luz Pedro