Para compensar o envelhecimento, países ricos devem abrir portas aos imigrantes

Recomendações do Banco Mundial mostram como usar mudanças demográficas globais no combate à pobreza.

Foto
refugiados encaminham-se para um comboio na Croácia Dado Ruvic/Reuters

As migrações podem ajudar os países a ajustar-se às mudanças demográficas mundiais, que tendem a ser desiguais consoante o nível de desenvolvimento económico das nações. Essa é uma das mensagens mais fortes do relatório do Banco Mundial Objectivos de Desenvolvimento numa Era de Alterações Demográficas, divulgado nesta quarta-feira.

Mais de 90% da pobreza global concentra-se nos países com rendimentos mais baixos, e onde a população em idade activa vai crescer de forma significativa nos próximos anos. Mas três quartos do crescimento económico mundial é gerado em países onde por vezes a taxa de fertilidade bateu tão fundo que já não são repostas as gerações (2,1 filhos por casal), como em Portugal. Nestas nações, há cada vez menos habitantes e cada vez mais pessoas idosas, que necessitam de mais cuidadores.

A multiplicação de notícias sobre migrantes que esbarram nos muros do mundo rico fazem-nos temer um mundo a duas velocidades, mas o que o Banco Mundial diz que não tem de ser assim. “Com um conjunto de políticas adequado, esta era de mudanças demográficas pode ser um motor de crescimento económico”, afirmou o presidente desta instituição promotora do desenvolvimento, Jim Yong Kim. “Se os países com populações envelhecidas criarem caminhos para os refugiados e os migrantes participarem na economia, todos beneficiam. Os dados sugerem que os migrantes trabalham no duro e contribuem mais com os seus impostos do que consomem em serviços sociais”, escreve no prefácio.

Estima-se que existam 700 milhões de pobres no mundo – pessoas que vivem com menos de 1,9 dólares por dia (1,69 euros) –, menos que os 900 milhões de 2012. Em termos de rendimentos, a pobreza está a reduzir-se, mas para além da Ásia do Sul e outros pontos importantes, está a concentrar-se na África subsariana. Ali vive, em 2015, 14% da população mundial e, até 2050, metade do crescimento populacional global acontecerá neste continente.

Os países mais ricos têm 17% da população mundial, mas foram responsáveis por 42% do Produto Interno Bruto global entre 2000 e 2014 e por 60% da actividade económica em 2014, quantifica o relatório.

“Metade da população mundial – e a maioria dos pobres do mundo – vive em países onde a percentagem da população em idade activa (15-64 anos) está a crescer. A outra metade vive em países nos quais a população está a envelhecer e a população activa decresce. Torna-se necessário adaptar as políticas às mudanças demográficas”, diz o Banco Mundial, que sugere uma série de medidas.

Fala, por exemplo, na “criação de um mercado de trabalho mais inclusivo”, investindo no capital humano, na perspectiva de criar emprego para pessoas mais velhas, mas também na necessidade crescente de aumentar as despesas com os idosos e de garantir pensões que não deixem os mais velhos vulneráveis.

Mas indica também uma série de medidas para facilitar a livre circulação de estudantes e trabalhadores estrangeiros, para assegurar funções nos países ricos que têm falta de população em idade activa. Recomenda ainda uma abertura ao comércio internacional, que facilite o desenvolvimento dos países jovens e garanta benefícios aos mais ricos.

É uma questão de partilha de interesses: os mais pobres continuam a ter sérias dificuldades para escapar à pobreza, e os grandes motores do crescimento mundial estão a perder força. “Por isso, todos os países devem aproveitar as oportunidades dos fluxos de capital, da migração internacional e do comércio mundial”, diz o relatório.