Opinião

Cantata em eme

O povo caiu na primeira esparrela, há quatro anos; na segunda, maltratado mas astuto, jamais cairá.

A campanha, do lado da coligação PAF é uma cantata em eme. Começa pela mentira, passa ao músculo, recolhe o maná, dedilha os acordes do medo, entra na mistificação e termina com a maré.

Mentira. Toda a história da chamada da Troika foi cultivada num caldo de mentira: a crise internacional de 2008 nunca existiu, foi apenas nacional; o PEC 4, apesar de aprovado por Bruxelas, pelo Banco Central Europeu e por Merkel em pessoa, era excessivo. Com os votos contranatura da ultra esquerda, o governo Sócrates caiu e a Troika tornou-se inevitável; apesar da satisfação de Passos e Catroga com o desfecho, e depois de se gabarem de ir além da Troika, ao fim de três anos ela tornou-se incómoda e renegada, passando para o PS a canga da chamada. Os erros e excessos, uns de fé cega, outros de incompetência, desgraçaram a economia, agigantaram o desemprego, desmantelaram a coesão social, forçaram a emigração qualificada, ampliaram a pobreza, alienaram da cidadania os mais fracos e menos vocais. Foram destruídos 420 mil empregos, criando-se apenas 130 mil, 2/3 dos quais a prazo. Como bem assinalou Fernanda Câncio, o Governo impôs cortes para 2015 a todas as pensões acima de mil euros, bem como 10% de punção às pensões da Função Pública acima de 600 euros; tentou reduzir, logo a partir de 2014, as pensões de sobrevivência. Toda a classe média baixa seria afectada. O Tribunal Constitucional opôs-se a essa sangria. À sua recusa e à reposição do 13º e 14º mês se deve a ténue recuperação económica. O ódio destilado contra o Tribunal Constitucional transformou-se em sanha contra os mais pobres, no corte dos apoios: entre 2011 e 2015, 63 mil perderam o abono de família, 69 mil perderam o complemento solidário para idosos e 112 mil perderam o rendimento social de inserção. De forma vil lançaram a comparação errada de universos diferentes: os seiscentos milhões de cortes em pensões a que o governo se obrigou com Bruxelas são 2,4 milhares de milhões em quatro anos, mas os 250 milhões anuais variáveis passaram a ser 1.050 milhões. Incauta e pouco atenta, a media engoliu o engodo. E o PS, o defensor último do Estado Social, passou a vilão da fita. Em vez de se preocuparem com a correção dos números e conceitos, muitos criticavam o PS por não vencer as barreiras que eles próprios lhe erguiam. Assistiram ao mal e colaboraram na caramunha.

Músculo. Financeiro, mediático e físico. A coligação PAF arranca com grandes meios: imensa frota de carros, enormes jantaradas, arregimentação de tropas jovens, pagas e treinadas para todo o terreno, disciplinadas e ambulatórias, moscas varejeiras nas redes sociais. Sempre que se receiam embaraços com descontentes, envolvem-se estes numa nuvem dissuasora de militantes e bandeiras. Os percursos evitam os pontos onde se concentra descontentamento. Os indignados do BES, apesar de desidratados e liofilizados, ainda resistem e incomodam. A cenarização torna-se dia a dia empolgante. Quando algum mais irado tem o arrojo de os interpelar, recorrem ao músculo, sem pensar que estão presentes operadores de imagem, como em Espinho. A voz dissonante abafa-se com murros de corpulentos senhores de fato escuro. Tal como no gulag, no terreno, a dissidência apenas é consentida a alienados mentais. O foguetório entrou no léxico da campanha, com a variada semântica da palavra maioria.

Maná. O Velho Testamento refere que Deus proveu o povo judeu, na travessia do deserto, com alimentação caída do Céu, ao longo de quarenta anos. Há diferenças para os tempos atuais. O maná não é ainda real, mas uma promessa e os quarenta anos foram reduzidos a quatro. Mas existe no imediato: contratos cirurgicamente surgidos, de uma época, para professores desempregados; remuneração complementar para médicos reformados que estejam dispostos a trabalhar em cadência elevada; médico de família a todos os portugueses, primeiro até ao fim deste ano, depois, até 2017; subsídios a mais turmas do ensino privado; cabimento para cirurgia ambulatória praticada em hospitais particulares, mesmo sem concurso; recursos para modernizar a tecnologia da Saúde, aqui e ali. Com grossos lapsos, como as senhas para uma colonoscopia, a cada 45 dias, exigindo madrugada e frustração. A nível macro, ficaram em promessas: anulação de 35% da sobretaxa do IRS, “se a execução fiscal estiver como estava em Agosto”; redução do défice abaixo dos 3%, mesmo que seja necessário atrasar por meses as devoluções de IRS e IRC. Impossível é prometer a redução do défice de 2014 e da dívida acumulada, depois do desfecho da não venda do Novo Banco. Que a venda se não tenha concretizado, nas condições negociais deprimentes em que era proposta, até será bom, mas afirmar, como Passos, que a demora rende juros ao Estado, ou que não causa mossa ao povo, já releva do imaginário celestial. E a procissão ainda vai no adro.

Medo. No final da primeira semana de campanha, a coligação recorreu a outra palavra-chave, de há muito preparada: medo. Pensam que é eficaz para o imaginário coletivo. Cortes nas pensões, cortes nos apoios a cantinas sociais, cortes em subsídios. Mais: a coligação PAF ameaça com instabilidade política e novas eleições dentro de um ano, se nela não votarmos. Ou seja, a vitória das oposições será peste, fome e guerra; a vitória da PAF, um glorioso caminho de paz e descanso. Inacreditável, vindo de quem lançou os portugueses na maior incerteza e na mais funda crise dos últimos cinquenta anos. Convicta da falta de memória do povo, nas vésperas do voto não hesitam em agitar espantalhos. Descreem de, em democracia haver sempre soluções, propagandeando a violência da continuidade contra a esperança da renovação. Nem vale a pena argumentar com a ética política. O povo recusará a chantagem.

Mistificação. Perante a forte eventualidade de o PS, mesmo sem maioria absoluta ou outra, vir a ser o partido com mais assentos parlamentares, cabendo-lhe um papel determinante nas negociações sobre a composição de futuros governos, instilam a ideia de que a coligação perdura unida como um só partido, no Parlamento a eleger. Sabem bem que assim não é. Após o 4 de Outubro, teremos Parlamento constituído por partidos, cada qual com os seus mandatos. Lógica irrefragável e clareza legislativa não impediram que um governante viesse lançar barro à parede, negando o que era evidente. O mesmo que se notabilizou há dois meses com o imaginativo programa VEM, destinado a fazer regressar a Portugal dúzia e meia de emigrantes qualificados. Sem vergonha pelo ridículo em que caiu, logo se dispôs a averbar nova asneirada. Espera-se que tão desafinada viola não volte a sair do saco.

Maré. Maré alta esperam os coligados. Já se comportam com a arrogância de quem nela navega, construindo uma nau de jactâncias e grandezas. Sendo as tábuas dessa nau muitas delas apodrecidas e carunchosas convirá ter cuidado. Grande nau, grande tormenta. E a maré cheia, quando coincide com maremoto, tudo arrasa até parar “rés-vés Campo de Ourique”. Deixando um cortejo de destruições quando o mar voltar ao seu leito natural. O povo caiu na primeira esparrela, há quatro anos; na segunda, maltratado mas astuto, jamais cairá.

Professor catedrático reformado