A crise dos refugiados não tornou a vida mais fácil para Merkel

Chanceler alemã enfrenta quebra de popularidade e críticas internas por causa da sua posição de abertura ao êxodo dos sírios que fogem da guerra.

Para os refugiados sírios, a chanceler alemã é a Santa Merkel
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Para os refugiados sírios, a chanceler alemã é a Santa Merkel Marko Djurica/Reuters

A chanceler Angela Merkel está debaixo de fogo na Alemanha por causa da sua política de abertura aos refugiados, com a popularidade em baixa e críticas que se multiplicam no campo conservador.

Os números continuam a ser o sonho de qualquer político ocidental, mas com 64% dos alemães a desejarem que Merkel “desempenhe um papel importante no futuro”, a dirigente conservadora perdeu cinco pontos em relação à anterior sondagem, de Junho, segundo os números que o semanário Der Spiegel publica esta segunda-feira.

A mesma tendência verifica-se no último barómetro da televisão pública ZDF, que coloca a chanceler ao seu mais baixo nível de popularidade depois do início do seu último mandato em 2013, recuando para quarto lugar entre os responsáveis políticos alemães.

Esta baixa de popularidade da chanceler verifica-se ao mesmo tempo que sobem de tom as vozes críticas no seu próprio partido contra os apelos de Merkel para que não sejam fixados limites ao acolhimento de refugiados em nome dos princípios humanitários. Só este ano, são esperados na Alemanha entre 800 mil a um milhão de requerentes de asilo.

E as críticas não chegam apenas dos bávaros da CSU, claramente mais à direita, mas também de deputados e altas figuras da CDU.

“A vida não se tornou mais fácil com as posições tomadas pela chanceler”, lançou este fim-de-semana Erika Steinbach, porta-voz do grupo parlamentar CDU/CSU para os direitos humanos.

Num documento interno da CDU, citado pelo jornal Handelsblatt, vários deputados declaram que a recusa de Merkel em restringir o número de refugiados representa um perigo para o país. “O convite feito a todos os refugiados deste mundo a virem para a Alemanha pode sobrecarregar o nosso país e a nossa sociedade”, escrevem os deputados, sublinhando que existem “de facto limites máximos à capacidade de acolhimento” da Alemanha.

Mesmo o Presidente Joachim Gauck, caução moral no sistema político alemão, sublinhou que a Alemanha não pode acolher toda a gente. “Nós temos um grande coração mas as nossas capacidades de acolhimento são limitadas”, disse num discurso no domingo.

Mais à direita, Horst Seehofer, líder da CSU bávara, partido irmão da CDU, recebeu na semana passada o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, muito criticado por Merkel devido ao tratamento controverso dado aos refugiados, nomeadamente com a construção de uma vedação em vários pontos da fronteira.

Nos meios de comunicação social, jornalistas e especialistas interrogam-se sobre as consequências a médio-prazo para a chanceler que durante os dez anos que leva no poder resistiu a todas as tempestades políticas.

O semanário Die Zeit interroga-se mesmo se a abertura das fronteiras decidida por Merkel, à revelia de um eleitorado conservador, não terá sido uma decisão falhada. “Será que Merkel, no zénite do poder, programou a sua própria queda, a sua perda de poder?”

No círculo mais próximo de Merkel, o discurso parece estar a reajustar-se: depois do dever moral de acolher as vítimas de guerra, a insistência agora é no dever de integração dos refugiados e da expulsão necessária dos migrantes económicos.

“Não é a Alemanha liberal que deve mudar mas sim certos imigrantes (…), nós temos necessidade de um certo tipo de contrato de integração, com no Canadá por exemplo, porque aquele que tem direitos também tem deveres” sublinhou esta segunda-feira Julia Klöckner, uma vice-presidente da CDU próxima de Angela Merkel, em declarações ao tablóide Bild. Uma das possibilidades, explicou, “é reduzir as ajudas se esse contrato não for respeitado”.

Num artigo de opinião no jornal Rheinische Post, o deputado Günter Krings prevê que a chanceler vá reafirmar o seu discurso. “Ao sinal de misericórdia, junta-se também o sinal de que não podemos acolher todos os refugiados que chegam à Europa, e Angela Merkel sabe isso muito bem”, escreve Krings. “Nas próximas semanas esses dois sinais serão dados (…) e a chanceler não precisa que a ajudemos nessa matéria”.