Nasceu um campo de refugiados no centro da capital da Europa

“Aqui sente-se que há humanidade”, diz um sírio que acabou de chegar a Bruxelas para testemunhar uma vaga de solidariedade inédita.

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O campo nasceu em frente da sede do Serviço de Estrangeiros EMMANUEL DUNAND/AFP

“Se a Bélgica nos mandar de volta para o Iraque, eu e a minha mulher decidimos que nos suicidamos”, diz à AFP um dos ocupantes deste campo que começou a crescer no início do mês no Parque Maximilien, perto da Gare du Nord. Engenheiro em Bagdad, casado com uma psicóloga, o homem de cerca de trinta anos que prefere não dizer o nome continua nervoso e desconfiado. Diz ser “ateu” e espera que a Bélgica lhe atribua o estatuto de refugiado.

Tal como centenas de homens, mulheres e crianças também ele encontrou um refúgio inesperado neste acampamento improvisado, onde reina uma atmosfera surpreendentemente descontraída. Todos eles, tenham vindo do Iraque, Síria, Somália, Eritreia ou Afeganistão, têm que esperar três a cinco dias para submeter o seu dossier no Serviço de Estrangeiros”.

O campo nasceu em frente da sede desse organismo no momento em que o número de refugiados ultrapassou a capacidade de processamento destes serviços administrativos, que só conseguem tratar de 250 inscrições por dia. Sem saberem para onde ir, totalmente desprotegidos, os refugiados não tiveram outra escolha a não ser instalarem-se neste pequeno parque rodeado de edifícios de escritórios e prédios de habitação social, local de encontro habitual para os sem-abrigo e os toxicodependentes, situado não muito longe da sede das instituições europeias e do parlamento belga.

Nos primeiros dias, cidadãos anónimos chegaram com algumas tendas, roupa ou comida. Depois estes bem-feitores criaram uma “plataforma cidadã” que contava no final desta semana com dez mil inscritos no Facebook.

Em poucos dias, os voluntários, na maioria jovens, montaram uma pequena aldeia, com a ajuda de organizações não-governamentais. Fazer a triagem das doações que chegam em grande quantidade, organizar um posto médico e uma cozinha, orientar os novos voluntários e informar os refugiados sobre os passos a seguir: tudo está organizado no terreno. Mas o sistema permanece frágil, reconhece um dos voluntários.

As famílias belgas continuam a chega com brinquedos e comida, propondo-se, às vezes, dar uma ajuda. “Eu até vi um senhor de fato e gravata a despejar o lixo dos caixotes”, conta Zained, um belga de origem iraquiana que ajuda como intérprete no campo.

Alguns voluntários, no entanto, dizem-se chocados. “Estou orgulhoso de ver a velocidade com que esta solidariedade se organizou, mas também estou escandalizado. Um campo de refugiados é para países que não tem meios para fazer de outra maneira. Seria a última coisa que devíamos ver na capital da Europa”, critica Jean Pletinckx.

Face à pressão mediática e das associações de apoio aos refugiados, o secretário de Estado para o Asilo e Migrações, o nacionalista flamengo Théo Francken, acabou por instalar 500 camas de campanha para os recém-chegados num edifício de escritórios ao lado do Serviço de Estrangeiros. Mas este centro de urgência só está aberto à noite, não tem duches e lá dentro não é permitido comer. “É completamente inadequado e indigno”, protesta Jean Pletinckx.

Depois da sua abertura, há uma semana, o centro de urgência só recebe cerca de 20 pessoas por noite. Théo Francken censurou os refugiados que “preferem as suas tendas acolhedoras” e exigiu “um pedido de desculpa” aos críticos, provocando uma vaga de indignação entre a oposição e as agências humanitárias. Já esta segunda-feira, o primeiro-ministro Charles Michel deu ordem para que as condições de estadia no centro seja melhoradas, que ai sejam colocadas mais camas, e que este passe a estar aberto 24 horas por dia. O objectivo é "evacuar progressivamente" o acampamento do Parque Maximilien.

Longe da polémica, um sírio de 52 anos, que partiu de Lattakia há um mês e chegou na passada quarta-feira a Bruxelas, recupera forças num banco do Parque Maximilien. “Aqui sente-se que há humanidade”, diz. Separado na Grécia dos seus filhos de 18 e 21 anos, que o regime sírio queria recrutar à força para o exército, ele considera “fantástico” o acolhimento recebido na Bélgica, e espera encontrar muito em breve os seus dois rapazes. AFP