Novo líder trabalhista apela à unidade mas vários dirigentes marcam distâncias

Confirmada a eleição de socialista da velha guarda para suceder a Ed Miliband. “As coisas devem mudar e vão mudar”, disse no discurso de vitória em que criticou as políticas de austeridade.

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Corbyn ganhou com 59,5% dos votos BEN STANSALL/AFP

Depois de os resultados terem sido anunciados, Jeremy Corbyn, eleito este sábado para a liderança do Labour, à primeira volta, com 59,5% dos votos, foi aplaudido e abraçado, mesmo pelos rivais. Mas os sinais de que aquele que é o líder mais à esquerda dos trabalhistas nas últimas décadas não terá vida facilitada chegaram imediatamente. Apesar dos seus apelos à unidade, vários dirigentes já se demarcaram da nova liderança.

Corbyn, à partida o outsider na corrida à sucessão de Ed Miliband, chega à liderança da oposição britânica aos 66 anos, com promessas de fazer uma política diferente. “As coisas devem mudar e vão mudar”, disse no discurso de vitória, em que defendeu uma “sociedade melhor e mais justa”.

As pessoas estão “fartas da injustiça e da desigualdade” no Reino Unido, disse o novo líder, cuja eleição deixou apreensivas as alas menos esquerdistas do partido. “Não temos de ser desiguais, não tem de haver injustiça, a pobreza não é inevitável.”

No campo conservador, a primeira reacção após a eleição foi de Michael Fallon, secretário da Defesa. "O Labour é agora um sério risco para a segurança nacional, para a segurança da nossa economia e para a segurança das vossas famílias", disse.

Com um longo currículo de discordâncias com a orientação do próprio partido, Corbyn, deputado desde 1983, deixou para claramente para trás os outros três candidatos, que pretendiam puxar o partido mais para o centro, para reconquistar o eleitorado perdido. Os dois concorrentes que se seguiram na votação interna foram ministros do Governo de Gordon Brown: Andy Burnham, que conseguiu 19% dos 408.470 votos expressos num universo de  540.272 eleitores; e Yvette Cooper que obteve 17%. Liz Kendall, vista como a “herdeira” do ex-primeiro-ministro Tony Blair, não foi além de 4,5%.

O apoio das centrais sindicais Unite e Unison foi muito importante para o resultado final. Tal como o voto de novos membros e simpatizantes do partido. Já entre os deputados, o pacifista Corbyn, opositor da segunda guerra do Iraque, defensor de um Reino Unido sem armas nucleares, ambíguo sobre a relação com a União Europeia – não foi ainda claro sobre a sua posição no referendo à presença na União Europeia – teve apoios muito limitados ou é mesmo visto com preocupação.

“Ganha porque representa a rejeição da política clássica e porque os outros candidatos não souberam inspirar entusiasmo nem esperança”, disse ainda durante a corrida Andrew Harrop, secretário-geral da Fabian Society, um think tank de esquerda, citado pela AFP.

Impostos mais altos para os mais ricos, renacionalização dos caminhos-de-ferro e das empresas de energia, saída dos privados do serviço nacional de saúde, reposição de apoios sociais, controlo das rendas de casa, fim da autonomia das escolas são algumas das propostas que o agora líder fez na campanha. Moderou a oposição à presença na NATO e já não defende a saída, mas antes uma participação mais restrita

Corbyn, que sempre se demarcou da Terceira Via do ex-primeiro-ministro Tony Blair, condenou no discurso de vitória as “desigualdades que atingiram proporções grotescas” e o sistema de protecção social que considera injusto.

Criticou as políticas de austeridade que levaram a cortes nos rendimentos e obrigaram os mais pobres a recorrerem à ajuda. “Não está certo, não é necessário e tem de mudar”, disse.

Compaixão pelos refugiados

Apelou também ao Governo conservador de David Cameron para ter mais “compaixão” pelos refugiados que estão a chegar à Europa. Um dos seus primeiros actos como líder foi a participação na marcha de solidariedade com os refugiados da tarde de sábado em Londres.

No discurso atacou também os media, que disse terem um comportamento por vezes “intrusivo, abusivo e simplesmente errado”. “Digo aos jornalistas: ataquem as figuras públicas. Isso está bem, mas, por favor, não ataquem as pessoas que não pediram para estar no centro das atenções.”

Corbyn disse aos congressistas que a campanha interna mostrou que um Partido Trabalhista “apaixonado, democrata, plural, unido e resolutamente determinado na busca de uma sociedade melhor e justa para todos”. Agradeceu o trabalho de Burnham como ministro-sombra da Saúde, a amizade de Kendall na campanha e o contributo de Cooper por – tendo mostrado disponibilidade para acolher sírios em sua casa – ter contribuído para que o Reino Unido receba mais refugiados. Logo depois de ser eleito, foi a um pub onde cantou o Red Flag, hino oficioso do Labour, algo esquecido nos tempos de Blair.

O Guardian avançou com a hipótese de Burnham ter um papel de destaque na nova equipa dirigente. Mas a unidade que Corbyn deseja não será fácil, apesar da promessa de ter uma liderança inclusiva, num esforço para acalmar a inquietação dos sectores centristas do Labour, que consideram ultrapassadas muitas das suas propostas e temem que afastem ainda mais o partido do regresso ao poder. Oito ministros-sombra não perderam tempo e depressa afastaram a hipótese de uma presença na primeira linha da luta política.

O primeiro a fazê-lo foi Jamie Reed, secretário de Estado-sombra da Saúde, que ainda antes de Corbyn ter acabado o discurso anunciava a sua demissão no twitter. Depois, segundo a imprensa britânica, demarcaram-se também, entre outros, Yvette Cooper, do Interior; Rachel Reeves, do Trabalho e das Pensões; Tristram Hunt, da Educação, ou Chuka Umunna, da Economia, que chegou a pôr a hipótese de concorrer à liderança. Liz Kendall tinha já dito que não trabalharia com Corbyn.

Ainda que os afastamentos possam ser vistos como normais, face à mudança de ciclo e à próxima constituição da equipa do novo líder, alguns dos que viraram costas a Corbyn deixaram bem claras as divergências. “Tenho diferenças políticas substanciais com Jeremy”, disse Hunt à agência PA. “Morgan Phillips [antigo secretário-geral trabalhista] tinha razão, o nosso partido deve muito mais ao metodismo do que ao marxismo – e sempre assim será”, disse Reed, citado pelo Independent.

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