Turandot, tragédias gregas e Ricardo Pais nos palcos do Teatro Nacional São João

O regresso a Turandot numa co-produção, a trilogia das tragédias gregas encenadas por Tiago Rodrigues e, de novo, Ricardo Pais fazem alguns dos pontos fortes da agenda do Teatro Nacional São João até ao final do ano.

Foto
Turandot, com encenação de João Cardoso, vai estrear no São João a 24 de Setembro Susana Neves

O Teatro Nacional São João (TNSJ) já mexe, nestes dias de regresso ao trabalho (e aos palcos) após as férias. MEXE é um Encontro Internacional de Arte Contemporânea virado para a inclusão social, uma iniciativa da associação PELE, que na sua terceira edição estabeleceu uma parceria com o teatro nacional portuense.

E foi, esta terça-feira, no primeiro dia deste festival – que até ao próximo dia 13 apresentará teatro, exposições, filmes e livros em mais de uma dezena de palcos da cidade –, que o TNSJ fez também a apresentação da sua programação até ao final do ano.

Num calendário com 16 espectáculos e inúmeras outras iniciativas paralelas ressalta, contudo, a presença de apenas uma co-produção em estreia absoluta. Trata-se de Turandot, de Carlo Gozzi, uma parceria com a Assédio e o Teatro do Bolhão, com encenação de João Cardoso, que estreará a 24 de Setembro.

O próprio encenador fez, no salão nobre do São João, a apresentação da peça como um "segundo desvio da Assédio à sua atenção habitual à dramaturgia contemporânea” para regressar, depois de O Triunfo do Amor (2002), à commedia dell’arte e ao mesmo século XVIII em que o veneziano Carlo Gozzi escreveu esta “tragicómica fábula chinesa em cinco actos”.

“A 15 dias da estreia, ainda há muito para decidir”, disse João Cardoso sobre o seu Turandot, que será uma adequação do texto setecentista, que deu uma ópera de Puccini, aos corpos de hoje.

Numa declaração prévia à apresentação da programação, a presidente da administração do TNSJ, Francisca Carneiro Fernandes, fez uma espécie de aviso aos (futuros) responsáveis políticos do país alertando para a necessidade de “tirar conclusões” após estes tempos de austeridade e tendo em conta, apesar disso, os “resultados que foi possível obter nos anos de auge da crise que Portugal tem atravessado”.

O desinvestimento nas produções próprias (menos 86%, relativamente a 2008) foi uma das consequências mais nefastas citadas por Francisca Carneiro Fernandes, referindo-se a um período em que o TNSJ baixou os custos da sua estrutura (agora gerindo também o Teatro Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória) em 32%, reduziu em 48% o orçamento das actividades e em 40% a verba para digressões (nacionais e internacionais). “Mas agora, passado o auge da tempestade (...), é hora de repensar bem aquilo que se perdeu e, consequentemente, aquilo que pode e deve recuperar-se entre o que teve de ser ‘sacrificado’”, acrescentou a administradora, elogiando, em contrapartida, o trabalho da equipa do TNSJ e em especial o seu director artístico Nuno Carinhas.

Na apresentação geral do calendário de actividades que fez, Carinhas foi dando o microfone aos responsáveis pelas produções que estavam na sala. Entre eles, Tiago Rodrigues, o novo director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, que irá trazer ao Porto (22-24 Out.) a sua encenação da trilogia das tragédias gregas Ifigénia (Eurípedes), Agamémon (Sófocles) e Electra (Ésquilo), que este fim-de-semana tem estreia em Lisboa, mas também Bovary (26 Nov.), que apresentou em Junho do ano passado no Teatro São Luiz, já então numa co-produção com o TNSJ.

Sobre a sua trilogia grega, Tiago Rodrigues disse tratar-se de “uma megalomania low-cost”, já que se trata da produção de três peças, que funcionam autonomamente, feita com a equipa de uma, mas que é uma forma de “assumir o risco artístico” próprio à carreira de actor e de encenador. E prometeu, para além da relação formal e institucional existente entre o Dona Maria II e o São João, “vir a estabelecer um diálogo mais profundo, e com mais consequências, com a cidade e os públicos do Porto".

As duas outras estreias portuenses da programação serão Neva (TeCA, 29 Out.) uma encenação de João Reis de "uma fantasmagoria de Tchekov" escrita pelo jovem dramaturgo chileno Guillermo Calderón; e Yuck Factor (TeCA, 25 Nov.), texto e direcção de Ana Vitorino e Carlos Costa (Visões Úteis) sobre a questão da alimentação e dos negócios que à sua volta se estabelecem, na Europa e no mundo.

Quem, uma vez mais, estará de regresso ao São João é Ricardo Pais, com a apresentação no Porto de Meio Corpo (TeCA, 18 Set.), “um divertimento” encenado “muito livremente” sobre texto de Jacinto Lucas Pires, e que estreou no CCB em Março passado.

O acolhimento do Festival Internacional de Marionetas do Porto (10-17 Out.), o retomar das Leituras no Mosteiro (que, no Natal, chegarão às 200 sessões), uma conferência sobre Teatro(s) da felicidade (7 Nov.), numa parceria com o pelouro da Cultura da Câmara do Porto, ou uma instalação de obras de Helena Almeida no salão nobre em paralelo com a grande exposição da artista no Museu de Serralves (17 Nov,) são outras iniciativas do calendário.

E há também novidades: as Quartas-feiras teóricas (MSBV, 14 Out.) e as Leituras no Museu (Serrralves, 6 Dez), mas também a reformulação da loja do Teatro São João, a instalação de dois suportes promocionais das suas actividades nas praças da Batalha e dos Leões, desenhados pelo arquitecto Adalberto Dias, e novas visitas guiadas ao Mosteiro de S. Bento da Vitória a acrescentar às que já se realizam ao icónico edifício do arquitecto Marques da Silva na Batalha.