Editorial

Palmira e os crimes calculistas do EI

Só uma metódica operação de combate ao EI poderá reduzir-lhe a influência até ao total apagamento.

Foi destruído, não foi destruído, foi destruído: entre a esperança de milhões de pessoas e o ímpeto criminoso de um grupo terrorista, foi este último que acabou por se impor, destruindo o mais importante templo de Palmira, o de Bel. Desde que ocuparam Palmira, em Maio, os fanáticos do autoproclamado Estado Islâmico fizeram daquela cidade-património síria não apenas refúgio (ninguém os bombardearia ali, arriscando destruir tesouros da história da humanidade) mas também prisão, palco sangrento de execuções e porto seguro de propaganda e saques. Pelo seu significado e pela sua riqueza histórica, Palmira tem, não apenas para a Síria mas para a humanidade em geral uma importância sem preço. Ao destruir, nela, o quer não consegue saquear para depois vender no mercado negro em benefício dos seus planos de terror, o EI quer mostrar-se poderoso perante os que planeia vir a subjugar. E as suas acções, ali, têm obedecido a uma lógica calculista. A execução em massa de soldados sírios, no espaço do anfiteatro, foi uma “superprodução” para infundir medo, enquanto a decapitação do arqueólogo Khaled al-Assad, de 81 anos, frente ao museu que dirigiu durante décadas, teve o efeito de um aviso: pessoas e pedras, ligadas pelo amor à história, são para subjugar ou destruir. Tal como os taliban fizeram em 2001 com os gigantescos Budas de Bamiyan, no Afeganistão, desfazendo-os a tiro, no que viria a ser um “aviso” para o 11 de Setembro, o EI iniciou em Palmira um processo metódico de destruição: primeiro o Leão de Al-lat e vários bustos fúnebres, depois o tempo de Baal-Shamin (dinamitado) e agora o de Bel. Destruição e calculada propaganda. Porque, inevitavelmente, o muito que se falar de Palmira surgirá associado aos seus carrascos. Só uma, também metódica, operação de combate ao EI poderá reduzir-lhe a influência até ao seu total apagamento. Não o fazer é soçobrar perante a mais ignóbil desumanidade.