Mais de 20 refugiados encontrados mortos em camião na Áustria

Polícia diz que morreram entre 20 e 50 pessoas na zona de carga de um camião, provavelmente sufocadas. Cimeira que discute Balcãs dominada pelas questões dos refugiados e de imigração.

Foto
Especialistas forenses junto ao camião deixado numa auto-estrada na zona de Parndorf Heinz-Peter Bader/REUETRS

O drama dos refugiados centrava-se esta quinta-feira na Áustria, onde um camião foi descoberto à beira da estrada com dezenas de mortos no interior – o estado de decomposição não permitiu às autoridades dizer quantos.

A descoberta coincidiu com uma cimeira de líderes em Viena, que iria discutir a política União Europeia-Balcãs mas que acabou centrada nas questões de imigração e refugiados.

O chefe da polícia de Burgenland, a região perto da fronteira com a Hungria em que estava o camião, disse que esta é a pior tragédia no local desde a II Guerra Mundial. Responsáveis europeus usam a marca da II Guerra para fazer notar que a crise dos refugiados é a maior que a Europa enfrenta desde então.

O responsável da polícia regional, Hans Peter Doskozil, explicou numa conferência de imprensa que o camião chamou a atenção por estar parado há algum tempo numa área de serviço ainda relativamente perto da fronteira húngara. Fluido escorria da porta entreaberta.

Um funcionário da auto-estrada que liga a fronteira húngara à capital chamou a polícia que descobriu os corpos em avançado estado de decomposição. Análises pretendem agora determinar quantos eram os mortos, de que nacionalidades, que idades teriam. A polícia não sabia sequer dizer se havia crianças entre as vítimas, que provavelmente terão morrido sufocadas.

A maioria dos refugiados chega à Hungria depois de começar pela travessia da Turquia para a Grécia, em pequenas embarcações insufláveis e com muito mais pessoas do que deveriam, e seguem depois viagem para a Macedónia, Sérvia, e então Hungria, que esta semana declarou guerra aos imigrantes e refugiados. Em todos os países, as autoridades queixam-se de não ter meios para lidar com o número cada vez maior de chegadas.

Que estes refugiados morram na Áustria depois de tantos perigos é uma ironia horrível. “Hoje refugiados perderam as vidas que tinham tentado salvar ao escapar, mas perderam-nas às mãos dos traficantes”, lamentou o chanceler austríaco, Werner Faymann.

Ainda no dia anterior a polícia austríaca tinha detido três condutores suspeitos de transportarem refugiados da Síria; um deles tinha levado 34 pessoas na traseira de uma carrinha branca, incluindo dez crianças pequenas, que foram depois abandonadas à beira de uma auto-estrada perto de uma cidade a meio caminho entre a fronteira e a capital. Os refugiados dizem que mal conseguiam respirar, e que o condutor foi directo da Sérvia até à Áustria, ignorando os seus pedidos para mais ar.

Cada vez mais há apelos para criar vias seguras para os refugiados poderem chegar à Europa evitando os traficantes. As autoridades austríacas prometem agir contra os que transportam os refugiados e migrantes nestas condições.

A ministra do Interior, Johanna Mikl-Leitner, reforçou esta ideia na conferência de imprensa sobre o camião. “Esta tragédia devia preocupar-nos a todos”, disse Mikl-Leitner. “Os traficantes de pessoas são criminosos que não se interessam pelo bem-estar dos refugiados, apenas pelo lucro”, sublinhou. “Desengane-se quem ainda achar que eles ajudam os refugiados”, continuou, apelando a que ninguém dê auxílio ao condutor a escapar às autoridades.

Está em curso uma caça ao homem para o encontrar, em coordenação com as autoridades húngaras. Sabe-se que o camião, de uma empresa eslovaca de carne de aves, foi vendido em 2014 e está registado em nome de um cidadão romeno. A polícia não sabe quando terá mais informações. “Não temos referência para um caro destes”, dizia um responsável à emissora pública ORF.

A Hungria está a ver números recorde de refugiados passarem a sua fronteira, numa altura em que ameaça parar a sua progressão com muros, arame farpado, e até xército. Na quarta-feira, verificou-se um novo pico de pessoas a passar a fronteira da Sérvia com a Hungria - 3241 pessoas. ´

O ministro sérvio dos Negócios Estrangeiros, Ivica Dacic, pediu à União Europeia um “plano de acção”.

“Este é um aviso para resolvermos este problema e mostrarmos solidariedade”, comentou a chanceler alemã, Angela Merkel, que participava na conferência. A Alemanha – que receberá este ano 800 mil pessoas, mais do que qualquer outro país europeu – vem a apelar repetidamente a outros países que partilhem o número de refugiados.

O ministro austríaco dos Negócios Estrangeiros, Sebastian Kurz, também opinou que é necessária uma melhor redistribuição dos refugiados, sugerindo por exemplo que no país de chegada possam escolher o local onde querem pedir asilo (as regras actuais ditam que têm de pedir asilo no primeiro local onde chegam, ou então chegar ao local onde querem pedir asilo).

Enquanto isso, Kurz juntou-se ao coro de alertas sobre uma ameaça ao espaço Schengen: A União Europeia “sem fronteiras no seu interior está em risco”, se as fronteiras no seu exterior não estão seguras, afirmou.