A pensar no investimento iraniano, França faz volte-face diplomático em Teerão

Visita de ministro francês dos Negócios Estrangeiros a Teerão, onde é odiado, reforça a urgência que o Ocidente tem em entrar na economia iraniana. Empresa francesa Total já assegurou exploração de petróleo no Irão.

A França já sofreu, pela Peugeot Citroën, o peso das sanções económicas ao Irão
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A França já sofreu, pela Peugeot Citroën, o peso das sanções económicas ao Irão Behrouz Mehri / Reuters

Laurent Fabius sabia que chegava a território hostil quanto aterrou nesta quarta-feira no aeroporto de Teerão. À sua espera estava um pequeno grupo de manifestantes com cartazes de insulto ao ministro francês dos Negócios Estrangeiros, o primeiro a visitar o Irão em mais de uma década. “Rei da Sida, não és bem-vindo”, lia-se num deles. Cinco manifestantes foram detidos e os restantes dispersados pela polícia, segundo media locais.

O francês é uma das figuras do Ocidente mais odiadas em Teerão. Quando Fabius era primeiro-ministro, França enviou para Teerão uma remessa de sangue contaminado com o vírus VIH que matou 125 iranianos, além de vários cidadãos franceses. Fabius foi ilibado em França, em 1999, mas não aos olhos iranianos. Nesta quarta-feira, o jornal conservador iraniano Novin Ahvaz publicou uma imagem do ministro francês coberto de sangue e com uma estrela de David.

A reputação de Fabius no Irão caiu ainda mais no curso das negociações para o acordo nuclear iraniano. Passou a ser conhecido então como “O Obstáculo”, pela severidade com que se opôs a concessões a Teerão. Quis ser “firme e construtivo” e mostrar que França não era “um acessório com o qual brincar”, disse depois das negociações.

Mas quem aterrou nesta quarta-feira em Teerão foi um Laurent Fabius diferente. O do pós-acordo nuclear iraniano, assinado a 14 de Julho, de olhos postos nas oportunidades de uma economia iraniana isolada e, a curto prazo, livre de sanções internacionais. Poucas horas depois de chegar à capital iraniana, o ministro anunciava que François Hollande, Presidente francês, convidava o Presidente iraniano, Hassan Rohani, a uma visita a Paris, em Novembro. “É verdade que durante os últimos anos, por razões que todos conhecem, os laços desfizeram-se mas agora, graças ao acordo do nuclear, as coisas vão poder mudar", disse.

Rohani respondeu no seu tom “pragmaticamente moderado”. O Presidente iraniano resistiu aos protestos da ala mais conservadora, que quis travar a visita do ministro francês, e disse que “Fabius é uma personalidade internacional” e que agora não era o momento para o país “levantar a questão [do sangue contaminado]”.

Diplomacia económica

Não há segredo para este sucesso diplomático. França, tal como todas as outras economias desenvolvidas, quer investir o quanto antes na economia promissora de um Irão sem sanções económicas. E o Irão agradece. Daqui a pouco mais de um mês, Teerão terá acesso a cerca de 100 mil milhões de dólares em activos congelados e vai passar a poder exportar o seu petróleo e gás para o estrangeiro. Teerão tem as maiores reservas combinadas de hidrocarbonetos do mundo, mas restrições económicas e a tecnologia com que extrai estas matérias fazem com que este sector represente apenas 15% da sua economia.

Neste campo, a visita de Fabius já deu frutos. O ministro iraniano do Petróleo anunciou que a empresa francesa Total vai construir campos de petróleo no Irão durante os próximos 20 anos. A Total já teve operações no sector petrolífero iraniano, mas, por pressão dos Governos francês e norte-americano, interropeu actividades em 2010. 

A visita de Fabius é ostensivamente económica. Depois dos breves encontros com Javad Zarif, o seu homólogo iraniano, e o Presidente Rohani, visitou depois os ministros do Petróleo; Indústria, Minas e Comércio; e o vice-Presidente e responsável pela pasta do Ambiente. "Esta visita é uma ocasião para o Irão e a França relançarem as suas relações em todos os domínios, nomeadamente o económico, pois há muito que fazer", disse o francês.

A economia francesa já sofreu com as sanções ao Irão. A Peugeot Citroën viu-se forçada a abandonar o país em 2011, com a entrada em vigor de novas sanções a Teerão. Esta decisão deixou a empresa em maus lençóis no Irão e levou ao despedimento de 8000 trabalhadores em França.

É por isso a alemã Mercedes, e não a empresa francesa, quem está prestes a fechar um acordo de dez anos que lhe permitirá “entrar no mercado iraniano a toda a força”, nas palavras de Hashem Yekezare, o presidente da construtora de automóveis do Estado, a Khodro. “A Peugeot tem de aprender a responsabilizar-se pelo seu comportamento no passado”, disse Yekezare.

O Financial Times compara a abertura económica do Irão à que aconteceu na Rússia, com a queda do regime soviético, e na China. É que o país não tem apenas grandes reservas de matéria-prima. “Ao contrário dos seus vizinhos ricos no Golfo, o Irão não é um Estado rendeiro encharcado em petróleo, mas sim uma potência regional com uma economia industrial e muitas pessoas formadas que trabalham”, escreve a Economist.

Paralelamente ao crescimento económico do Irão – o supremo líder iraniano, o ayatollah Ali Khamenei, reviu as previsões de crescimento para 8%, em média, para os próximos cinco anos –, os críticos do acordo nuclear alertam para o risco de o país exercer mais influência no Médio Oriente. A capacidade de o país construir uma bomba atómica, sob as regras do acordo de Viena, fica condicionada por um período mínimo de dez anos. Mas Teerão ficará com mais disponibilidade para financiar o regime de Assad, por exemplo, como tem feito desde o início da guerra civil na Síria, e de enviar mais armamento para os seus braços armados na região, como o Hezbollah, no Líbano, e milícias xiitas no Iraque.