Opinião

Portugal tem futuro sem Engenharia?

É urgente perceber as razões que “excluem” tantos jovens da aprendizagem, sobretudo, da Matemática.

Numa altura em que os jovens são solicitados a definir as suas escolhas, designadamente no acesso ao ensino superior, ensino que em Portugal tem uma procura inferior ao desejável, há que disponibilizar informação credível que lhes permita, na altura da decisão, que ela se processe de forma consciente e esclarecida, equilibrando a vocação de cada jovem com a perspetiva de futuro e de empregabilidade que a sua escolha lhe proporcionará.

As informações recentemente publicadas por um jornal diário de circulação nacional, alegadamente desenvolvidas com base em elementos disponibilizados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, é um exemplo desta situação, por serem apresentados valores absolutos e não relativos, não permitindo aferir a realidade efetiva de cada par Curso/Instituição de Ensino.

Este instrumento, esta informação, que tem tanto de imprescindível quanto de necessidade de rigor e de credibilidade, não existe verdadeiramente. A constituição de dados oficiais, desenvolvidos mediante a utilização de critérios sérios e transparentes, não tem pertencido às prioridades do país. Os jovens e as suas famílias, na hora de escolher algo que os condicionará para o resto das suas vidas, ficam à mercê das informações divulgadas e/ou publicitadas pelos órgãos de comunicação social, pelo seu gosto pessoal, por tendências ditadas pela moda e por meia dúzia de dados públicos deficientemente tratados.

Outras vezes essa escolha fica condicionada pela desistência, em fases anteriores do ensino, da aprendizagem de disciplinas cruciais para prosseguir determinadas áreas do conhecimento. É o caso da Matemática, mas também da Física e da Química, disciplinas fundamentais na estruturação do pensamento lógico, que, no entanto, carregam a tradição e o estigma da dificuldade e do trabalho árduo. Áreas do conhecimento que são determinantes para a entrada em cursos de engenharia.

Não se entende as razões para este estigma, bem evidenciado nas pautas das escolas de todo o país e nos resultados dos exames nacionais em Matemática em 2014, com notas negativas numa percentagem de 65% do total das provas realizadas. Felizmente que os resultados foram, este ano, bastante mais favoráveis. É já, estamos convictos, um sinal positivo, mas ainda insuficientemente expressivo para garantir que as áreas das ciências, da Engenharia, da Tecnologia, indispensáveis ao crescimento e desenvolvimento das sociedades, terão a adesão que a comunidade necessita. Sublinho, ainda insuficientemente expressivo e, de algum modo, de difícil compreensão: não se entende como, no prazo de um ano, se possa passar de uma situação de “quase desastre” para uma situação de “quase otimismo”. Pergunto se os alunos que cumpriram as provas nacionais em 2015 reunirão capacidades muitíssimo superiores que os seu colegas do ano anterior?

É, por tudo isto, urgente perceber como está organizado este processo e as razões que “excluem” tantos jovens da aprendizagem, sobretudo, da Matemática: porque não têm realmente capacidades? Porque os programas no preparatório e secundário estão mal elaborados? Porque os professores estão insuficientemente preparados? Não estimulam os alunos? Não ensinam com paixão uma área que poderá ser determinante para o percurso do seu educando? Porque a sua aprendizagem exige trabalho contínuo?

É imperioso perceber as razões e agir, combatê-las, sob pena de virmos a ter, daqui a anos, um país desprovido de cientistas, de gente ligada às tecnologias, de engenheiros…

Conscientes de que o país tem défice de engenheiros e da consequente necessidade de promover, designadamente em fases precoces do percurso escolar, nomeadamente o ensino básico, o gosto e o interesse pelas formações em engenharia e tecnologia e pela ciência em geral, a Ordem dos Engenheiros tem desenvolvido diversas iniciativas, sendo a mais recente baseada numa campanha com visitas às escolas sob o lema: “E um mundo sem engenharia? Já pensaste como seria?”

Ressalto, igualmente, as recentes iniciativas promovidas pela COTEC e por empresas de referência internacional que têm o mesmo objetivo: lutar por cobrir o défice nas áreas de engenharia e do conhecimento científico.

Falta agora que os decisores políticos tomem verdadeiramente consciência deste problema e façam o seu papel: atuem. Porque um país sem engenharia é, sem sombra de dúvida, um país com um futuro muito débil!

Bastonário da Ordem dos Engenheiros