James Salter (1925-2015): “A nossa vida está sempre a ir embora”

James Salter era um escritor de escritores. A frase foi muitas vezes repetida para sublinhar que as suas qualidades literárias mereciam ser melhor conhecidas. Morreu na sexta-feira, uma semana depois de ter completado 90 anos.

Foto
O escritor norte-americano James Salter Corbis

“A ficção está acima da verdade. Num outro patamar moral e estético, artístico. A verdade na memória remete para uma verdade mais objectiva, algo que terá acontecido. Terá ele visto? Terá ele dito? Terei sentido? Será que fomos? Eu adoro a memória. A nossa vida acaba por ser só memória. Está sempre a ir embora a todo o tempo, a mudar.”

As palavras foram ditas no final de Abril deste ano por James Salter, a quem chamavam o escritor dos escritores. Foi numa entrevista sobre o seu último romance, e o primeiro que publicou em Portugal: Tudo o que Conta (Livros do Brasil), uma reflexão sobre a passagem do tempo a partir da perspectiva de um homem que não queria ter uma existência comum. A vida passou e esse homem olha para ela, reconstruindo-a com a memória. A memória que passa, que faz que o fez dizer : “a nossa vida está sempre a ir embora”.

A revista Lire considerou Tudo o que Conta o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2014 e dedicou-lhe a capa. Pouco tempo antes, o jornal The New York Times escrevia que era um dos escritores essenciais da literatura norte-americana. James Salter morreu na madrugada de sexta-feira. Tinha feito 90 anos no passado dia 10 de Junho.

A voz algo trémula, os olhos de uma frontalidade que podia intimidar, sorriso desenhado no sobrolho, esperava na paragem a camioneta vinda de Nova Iorque. Em Bridgehampton, pequena vila de Long Island que multiplica a população no Verão, há uma rotina de província. A paragem do expresso que chega e parte mais ou menos de duas em duas horas é um ponto de encontro e de trocas. De encomendas, de abraços. Salter esperava a jornalista enquanto lia um livro: Do Lado de Swan, de Marcel Proust. Entrou depois no velho Saab e conduziu uns cinco minutos até à casa de madeira castanha onde vivia com a mulher, a jornalista Kay Eldredge. Era ali que continuava a escrever, diariamente, menos horas do que antes, mas num ritmo constante. Contos, ensaio, crítica, argumento, romance. Era um escritor de escrita lenta.

Tudo o que Conta demorou-lhe trinta anos e teve várias versões até lhe sair como queria. Foi fazendo outras coisas. Além da literatura, ensinava escrita. Desde 1956, ano em que se estreou com The Hunter, publicou seis romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias — Burning the Days (1997) —, ensaios; escreveu quatro argumentos para cinema — onde se destaca o filme Downhill Racer, com Robert Redford, em 1966 —, um livro de poesia, e finalmente em 2013 apareceu com Tudo o que Conta. Talvez o exemplo mais brilhante da escrita de Salter.

“Não é um livro biográfico, mas tudo o que eu sei está aqui”, declarou então numa conversa em que tanto quanto responder a perguntas procurava respostas. Queria saber de novos autores, dos que chegam à Europa. E dos que a Europa tem e não chegam à América. E sobre a sua escrita dizia que não sabia bem. “Gostava de poder dizer qualquer coisa mágica”, continuava. Qualquer coisa sobre esse processo que, no seu caso, tinha qualquer coisa a ver com respiração, música, um ritmo, e com a leitura em voz alta do que ia fazendo. Seria harmonia? Ele levantou as mãos no ar, imitou o gesto de um maestro a marcar o compasso e repetiu: “Pam, Pam, Pam”, para depois cruzar as mãos e referir que não há magia ou milagre: “Dá muito trabalho.”

A escrita de James Salter, nome literário de James Horowitz, antigo coronel da força aérea norte-americana, continha uma clareza e elegância que muitos escritores admiravam. Graham Green, Vladimir Nabokov, Richard Ford, John Irving, Bret Easton Ellis, Jay McInerney elogiaram-lhe várias vezes a concisão, a palavra certeira, os recursos que permitiam que quase tudo o que dissesse parecesse simples e nessa simplicidade fosse avassalador. Michael Dirda escreveu um dia no The Washington Post que quando quer Salter “é capaz de nos partir o coração com uma frase”. Era também um caso exemplar em algo que não é literatura, mas determina um percurso literário: um escritor sem vendas raramente consegue ter importância, mesmo que a tenha. Salter tinha-a, mas os seus livros nunca foram best-sellers.

Foi pela literatura que James Salter deixou o exército. Natural de Passaic, estado de Nova Iorque, onde nasceu a 10 de Junho de 1925, filho de um vendedor de imobiliário, cresceu em Manhattan, fez o liceu numa escola privada no Bronx, onde foi colega de Jack Kerouac e, para fazer a vontade ao pai — um antigo militar —, estudou em West Point. Serviu no exército até 1957. Já tinha publicado The Hunters e queria tentar viver da literatura. Mudou de vida e de nome. Fala disso sentado numa poltrona junto à janela. Entrava uma luz de manhã de Primavera com chuva. Ele pousara na mesa em frente Do Lado de Swan. Voltava a livros antigos. Estava a descobrir alguns a que sempre se mostrara relutante. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry era a sua última paixão literária. Lera-o no México, onde passava os invernos para escapar ao frio de Nova Iorque. “São livros formadores”, dissera, sem nunca se alongar nas suas coisas: a capacidade de observação, a atenção ao outro, os elogios. A lucidez da escrita é a mesma da conversa.

Filho de judeus, disse-se sem religião. A escolha do nome Salter não foi alheia a essa vontade de não se confundir com um “escritor judeu” pela temática. Como por exemplo, Saul Bellow, de quem chegou a ser muito próximo.

Falou de Bellow nesse dia, de um encontro que potenciou a escrita do último romance, onde o protagonista é um homem que sonhou ser singular. Na literatura que fez, Salter procurou o mesmo, não copiar estilos. “Não se pode escolher uma ordem mental”, declarou, antes de dizer que entre os que mais admirava estavam Raymond Carver e Thomas Wolfe. A lista, no entanto, na estava completa. Ele lia os novos. Podiam sempre entrar mais.