Reportagem

Eles foram para dentro lá fora

Não há maneira de os contabilizar, mas os portugueses que escolheram ir fazer artes performativas no estrangeiro encheriam facilmente vários autocarros. Uma geração em jet lag existencial, que finalmente se reencontra em carne e osso (ou seja: sem ser via Facebook ou Skype) no FITEI.

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Rita Natálio: passaporte português, muitos carimbos brasileiros RITA FRANÇA

Há reportagens que pedem avisos prévios e esta que aqui se aproxima da casa chegada depois de quatro dias de jet lag (existencial, pelo menos, para citarmos um dos nossos sete artistas expatriados, a portuguesa no Brasil Rita Natálio) é uma delas. Para os termos a todos nestas páginas (ainda assim, sem foto de família) houve chamadas Skype de péssima qualidade e dispendiosos telefonemas internacionais, apertos de mão mulher-mulher como se estivéssemos em Berlim e atrasos que afinal eram pontualidade britânica (o iPhone é que não tinha actualizado a hora…), palavras em português que só um brasileiro entenderá e aquele irritante inglês de trabalho que se tornou língua universal.

Nem tudo, no entanto, se perdeu na tradução: segue-se uma amostra, pequena mas representativa, de um fenómeno que anos de Erasmus, viagens low-cost, bolsas Gulbenkian, apoios públicos à internacionalização e uma recessão profunda vulgarizaram, o da emigração (alguns preferem dizer nomadismo) nas artes performativas.

À falta de estatísticas especializadas, não há maneira de contabilizar os portugueses a fazer teatro, dança ou performance no estrangeiro. Gonçalo Amorim, o novo director do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, recebeu cerca de 80 respostas quando lançou um open-call destinado a mapear estes expatriados a que a 38.ª edição em curso até domingo dedicou um módulo (enquanto, no mundo real, um primeiro-ministro garantia nunca ter encorajado os jovens a emigrar…). Uma verdadeira operação de repatriamento – em carne e osso, depois de muitas horas a inventariá-lo no Skype – de um património da diáspora, e portanto maioritariamente desconhecido em Portugal, o que não quer dizer desincentivado. Dos seis portugueses que integram o ciclo Expatriados, só um não recebeu apoio público ou privado para sair: três tiveram bolsas de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), uma fez o INOV-ART (o programa de estágios internacionais da DGArtes), e outra passou de uma formação apoiada pelo INOV-ART para um mestrado apoiado pela Gulbenkian.

Os números da FCG e da DGArtes permitem uma aproximação à dimensão destes movimentos.

De 1957 a 2014, a Gulbenkian apoiou 621 bolseiros nas áreas do teatro, da dança, das artes cénicas e da cenografia (arquitectura/design e desenho/pintura/escultura absorveram mais de 50% do investimento, com mais de 2.800 bolsas no mesmo período). No total das suas três edições (2009, 2010 e 2012), o INOV-ART atribuiu 82 bolsas na área das artes performativas e cruzamentos disciplinares, com a Europa (sobretudo Espanha, Alemanha e Reino Unido) e, fora dela, o Brasil a dominarem a lista de destinos preferenciais. De todos os dados disponíveis, porém, este que consta do relatório da última edição é o mais sugestivo: 57% dos bolseiros optaram por não voltar a Portugal.

A casa às costas
Se uma das perguntas do interrogatório a que Ana Mendes, dramaturga, se submete em Self-Portrait – o trabalho que veio apresentar no FITEI em modo tão relâmpago que a entrevista do Ípsilon teve de ser feita em duas partes, metade ao vivo no Porto, metade por Skype já com ela em Viena – fosse “onde é que vives”, não haveria resposta. Ou pelo menos não haveria só uma. “A minha sede fiscal é em Londres, mas viajo bastante entre a Alemanha, a Áustria e a Suíça”, diz. Esteve uma hora à nossa espera porque não chegou a acertar o relógio e é como se continuasse na Áustria, onde acabou de comissariar uma exposição e vai começar a ensaiar a sua próxima peça com uma finlandesa e um suíço. A verdade é que “na Europa, é impossível sobreviver trabalhando num só país”, e “então é sempre este problema das viagens, do dinheiro, dos encontros e dos desencontros”. Isso e o problema de “já não saber como é que se cumprimenta em Portugal”.

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Jorge Gonçalves: Porto-Berlim, Berlim-Porto, o movimento pendular é constante desde 2010 RITA FRANÇA

No caso de Ana, o estrangeiro começou com uma bolsa para um mestrado na Goldsmiths, em 2010, e depois não acabou. Foi “um ano luxuoso”, em que pôde “ler e escrever a tempo inteiro” – um luxo a que continua a dar-se porque como ex-aluna mantém o acesso aos estúdios da universidade e ao cartão da biblioteca. “Para a minha condição de expatriada foi fundamental, porque um dos problemas de Londres é a falta de espaço para ensaiar e trabalhar. E tudo o que me aconteceu a seguir aconteceu porque estava em Londres, onde a competição é terrível, mesmo a matar, mas também há uma abertura que te permite experimentar. Não interessa que tenhas estudado teatro e agora estejas a fazer fotografia, ninguém te diz que não podes”, explica. Foi o que lhe aconteceu depois de mais uma bolsa, desta vez para trabalhar em Weimar, onde paralelamente pôde frequentar o curso de fotografia da Bauhaus. Estava redefinido o seu território, um eixo entre Londres e a Europa Central que é particularmente receptivo à consistência de um percurso (“Mesmo quando gostam muito, querem saber qual é a razão por trás, o que vem a seguir”) e ao trabalho “político” em que se especializou, depois de uma primeira fase de tentativa e erro, ainda em Portugal, no cinema de animação e na escrita para teatro (últimos desenvolvimentos, em que aparecem mais nítidas as questões pós-coloniais: Map Series, em que costura ao vivo as fronteiras dos impérios coloniais dos séculos XIX-XX; e The People’s Museum, em que fotografa imigrantes no Museu Britânico e a peça que cada um deles gostaria que fosse devolvida ao país de origem).

É por aí que Rita Natálio tem andado desde que chegou a São Paulo (também com uma bolsa da Gulbenkian para um mestrado): Museu Encantador, que hoje apresenta na Mala Voadora, às 18h, é o seu contributo para a reconstrução, a meias com a encenadora carioca Joana Levi, do encontro de Portugal com o Brasil, do colonizador com o índio, um contributo que pretende “resgatar a memória de uma história comum que se tornou quase fantasmagórica, não para curar uma ferida mas perceber como ainda nos afecta”.

Sendo uma ficção colectiva – 20 artistas dos dois países foram convidados a doar objectos –, Museu Encantador é também a história real do encontro de Rita e Joana, com quem trabalha desde 2012. Na verdade, desde 2010 que a ideia de sair de Portugal se punha peremptoriamente: “A dança e a performance já têm uma lógica de mercado que incita à internacionalização; os artistas são muito convocados a apresentar-se lá fora, até para sobreviverem, e eu viajei muito com os coreógrafos para os quais fiz dramaturgia. Mas quando chegou a crise e as artes começaram a ficar sucateadas, como se diz no Brasil, decidi sair.” Tinha com o Brasil afinidades electivas, uma história de trabalho (com a performer Marcela Levi), uma agenda de contactos. “Vivo entre o Rio e São Paulo, embora não tenha deixado de ter projectos cá. Por isso é que o jet lag é existencial. Com uma filha que acabou de nascer, tenho de criar casa onde quer que vá; ando literalmente com a casa às costas.”

Exactamente por isso – “São Paulo é demasiado agitado, poluído, grande e difícil para constituir família” –, está “num momento de transição”, sem saber se volta a Portugal ou recomeça do zero noutro sítio. O que a tem feito ficar, “embora o sistema de apoio às artes no Brasil seja muito mais neo-liberal” – “Tens de dar muito dinheiro, fazer publicidade às empresas ou estar a cumprir funções do Estado, como a educação” –, é a diversidade nas fontes de financiamento: “Aqui só tens a DGArtes. Lá tens apoios federais, regionais, municipais, de empresas, de fundações – então não são sempre os mesmos que ganham.” E depois tudo – apesar “do abismo social, da polícia a bater a torto e a direito, da guerra civil no Rio” – parece “menos difícil e menos depressivo”. Resumindo: “Voltar é uma possibilidade se não tiver de trabalhar cá. Não sei se estou disposta a procurar apoios aqui quando sei que tens de pôr em campo capacidades pessoais e sociais que estão para além do teu trabalho como artista, já para não falar na necessidade de repetir, sempre que saem os resultados de um concurso da DGArtes (e os últimos foram vergonhosos), que os artistas são importantes – às vezes parece melhor abrir um café. E depois eu lembro-me como era. Para ganhar algum dinheiro tinha de fazer 400 projectos e não podia ter vida própria. No Brasil consigo trabalhar, ser paga e ir à praia – sem me sentir culpada por isso.”

Raquel André, actriz, também foi ficando: chegou ao Rio para “um estágio de cinco meses na Cia. dos Atores que se transformou em quatro anos” de permanência. “Quando cheguei ao fim o Ministério da Cultura em Portugal tinha sido extinto e as coisas estavam objectivamente a piorar. Ao mesmo tempo, começava a sentir-me integrada no meio artístico e queria ver-me noutros contextos. No último ano em Portugal basicamente tinha feito telenovelas e séries: se voltasse, era isso que me esperava”, conta-nos a oito mil quilómetros e quatro fusos horários de distância. Chega hoje ao Porto para apresentar Nós somos o lugar que nos faz falta (domingo, às 18h, nos Maus Hábitos), uma conversa pública com o também expatriado no Brasil António Pedro Lopes, e fica por três meses, a construir a peça com que abrirá a 11 de Setembro a primeira temporada de Tiago Rodrigues no Teatro Nacional D. Maria II. Colecção de Amantes, em que marca encontros de uma hora com desconhecidos e ficciona com eles uma intimidade (vai em 38 pessoas; quer chegar às 75), é o tipo de trabalho que não lhe ocorreria antes da experiência emigrante: “Quando estás fora tens de ponderar como é que te apresentas, como é que entras em contacto com um desconhecido, como é que crias intimidade. No Brasil a questão complica-se porque a cultura e os códigos são muito parecidos, mas as diferenças são radicais. A língua então é todo um problema: o meu português aqui está completamente errado. Falar noutra língua teria sido menos cansativo do que falar a minha de outra maneira.”

Os três próximos meses serão o período mais longo que Raquel passa em Portugal desde que saiu, e isso “assusta”: “Não sei se Lisboa ainda é o meu lugar – não sei mais qual é o meu lugar.” O Brasil, admite, talvez também não seja, embora lhe tenha permitido fazer sete espectáculos em três anos, além de curadoria num teatro, o Galpão Gamboa, e assistência para “um encenador incrível”, Marco Nanini. Tal como Rita, que depende das viagens (caras) a Portugal para ver o teatro e a dança que verdadeiramente a “alimentam” – “Este ano vim menos a Portugal e isso faz diferença, parece que embrutece” –, Raquel sente falta da experimentação congénita das artes performativas europeias: “Foi uma dificuldade encontrar pares com quem pudesse trabalhar, sobretudo no teatro… Está muito ligado à narrativa, ao drama; de uma sala de espectáculos as pessoas esperam uma história com princípio, meio e fim, não um posicionamento político. Não é por acaso que o Brasil é a maior empresa mundial de produção de novelas.”

São prós e contras a pesar nos próximos meses: “Por coincidência, o mestrado acaba em Março, o contrato de arrendamento acaba em Março, o visto acaba em Março. Poder fazer o meu trabalho em qualquer parte do mundo é uma sensação muito boa, mas também pavorosa: se nunca passo três meses seguidos na mesma cidade, como é que garanto que o meu trabalho tem testemunhas?”

Daqui até Março, a vida continua on-line: “No meu computador, as janelas do Word, do YouTube, do Facebook e do Skype estão sempre abertas. Tornaram-se ferramentas de sobrevivência. Aquele toque do Skype? Já é como ouvir alguém a chamar-me na rua.”

Entretanto, na Europa
“Desculpa, eu agora patino muito entre o português e o inglês”, avisa Jorge Gonçalves, bailarino, coreógrafo, performer e director da Mezzanine, o motivo que o levou a Berlim, onde vive desde 2010. Um ano antes, tinha fundado a plataforma com Ana Rocha; quando ela ganhou uma bolsa INOV-ART acompanhou-a por uns nove meses que se prolongaram até hoje “porque se criaram cumplicidades artísticas que tornaram quase obrigatório ficar e pensar a vida internacionalmente, entre Berlim e o Porto”. As condições alteraram-se substancialmente com o fim dos anos Rui Rio e a reabertura do Teatro Municipal Rivoli (a Mezzanine integra, de resto, a candidatura com que a Câmara Municipal do Porto ganhou um apoio tripartido da DGArtes), mas é preciso lembrar que há cinco anos, sobretudo na dança contemporânea, a cidade era “quase um deserto cultural” onde “o fosso entre artistas estabelecidos e artistas emergentes tornava difícil reivindicar um lugar”.

A mudança do Porto é convidativa, mas para já Jorge mantém as chaves das suas duas casas paralelas. Na comunidade de Berlim encontrou um feedback (e condições de trabalho, a começar pela oferta de estúdios) que aqui nunca teve, e interessa-lhe explorar essas cumplicidades na Mezzanine, que em breve organizará no Porto uma residência de artistas berlinenses. A verdade é que a vida na capital alemã também começa a complicar-se: “Está excessivamente povoada de artistas e já não há condições financeiras para todos, instalou-se a precariedade. Ao mesmo tempo, sinto-me isolado porque não participo nas políticas da cidade: participo numa vida cultural globalizada que é uma espécie de bolha. É comum a esta geração que está sempre a viajar: não pertenço a lado nenhum e pertenço a todo o lado. Dá muito mais trabalho manter as relações profissionais e de amizade.”

O FITEI, onde apresentou o solo A Suspended Gesture , foi uma oportunidade para contrariar essa tendência: “É impossível pertencer à comunidade artística portuguesa, mesmo a expatriada. Em Berlim trabalho muito com um coreógrafo de Singapura e com uma encenadora e artista visual da Noruega. E em Portugal já não me apresentava desde 2011, portanto ninguém sabe o que estou a fazer, em que nível de discurso e de contexto me encontro.” Em contrapartida, o eixo Berlim-Bruxelas-Amesterdão, “à volta do qual gira a economia das artes performativas” – e do qual o Porto “está muito afastado”, piorando o acesso “a fundos, apoios, meios” –, indiferencia, ao forçar os artistas a entrarem no circuito da black box e a investirem em trabalhos totalmente independentes do contexto em que são apresentados (e das pessoas para quem são apresentados): “As condições de produção e de recepção são sempre iguais. Procuro contrariar esse nivelamento, dirigindo-me directamente ao espectador, e dando-lhe um papel activo nas minhas ficções.”

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Darr Tah Lei, islandesa: é uma das ficções que compõem o singular projecto de investigação de Sílvia Pereira RITA FRANÇA
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Nuno Lucas passou por Barcelona, Berlim, Montpellier, Paris RITA FRANÇA

Nuno Lucas, que passou por Barcelona, Berlim e Montpellier (aqui com uma bolsa da Gulbenkian para uma formação no Centre Choréographique National) antes de se fixar em Paris, também sente falta desse contacto pessoal, mas a outro nível: “Lisboa é das cidades mais violentas do mundo para um artista português apresentar trabalho. Há uma grande exigência, por vezes desmesurada. E depois há isto: se faço um espectáculo em Lisboa ninguém me diz nada a seguir porque as pessoas vão como para um jogo de futebol, em que têm de estar a favor ou contra; na Bélgica ou na Alemanha as pessoas não têm medo de discutir o teu trabalho, mesmo que não tenham gostado.” Desde que saiu das Caldas da Rainha para ir estudar Economia em Lisboa e se iniciou como intérprete com o coreógrafo Miguel Pereira, está habituado a estar entre dois mundos: hoje é um performer e criador a meio caminho entre o teatro e a dança, entre Portugal e França, tanto que a meio da entrevista se sente “a estrangeirar” (“Houve situações em que já não sabia falar nenhuma língua, nem sequer o português, e aí é assustador porque te sentes a perder-te, a afastar-te da tua história”).

Para quem gosta de se pôr constantemente “numa zona de desconforto”, Paris já se tornou demasiado confortável: “Tenho tido trabalho com o [encenador] Joris Lacoste e há uma comunidade de artistas com quem quero colaborar. França deve ser o único lugar da Europa onde é possível ter uma carreira sem precisar de saltitar de país em país; Portugal é o oposto, um engonhanço, e eu não queria estar limitado a fazer uma peça por ano: em França, só num ano sou capaz de estar 50 vezes em palco, aqui a tournée mais simpática que fiz teve nove datas.” De resto, em Portugal sente-se particularmente bloqueado (e não é só porque a luta pré-histórica pela defesa dos apoios públicos à criação artística continua, sem fim à vista): “Aqui eu podia ser intérprete mas não criador: preciso de uma distância que também é física para conseguir manifestar-me.”

Mais ou menos o contrário de Hugo Torres – o único que não integra o ciclo Expatriados, embora também esteja no FITEI com a sua companhia galega, a Voadora, que hoje apresenta Waltz no Teatro Municipal Rivoli, às 21h30. Depois de muitos anos a trabalhar regularmente como actor com o Trigo Limpo, de Tondela, e o Teatro Nacional São João, no Porto, mudou-se para Santiago de Compostela porque foi aí que encontrou a pessoa com quem queria dividir a vida e o trabalho. Fundou a Voadora em 2007 com Marta Pazos e José Díaz; vai a caminho da 11.ª produção, e sempre com um potencial de circulação que em Portugal, pela exiguidade do país e do mercado associado à língua, era impensável: é “uma diferença abissal”, com várias dezenas de apresentações por cada espectáculo (e a Voadora ainda nem sequer conseguiu entrar na América Latina…), apesar de mesmo fora daqui Hugo ter levado com a crise em cima. “Quando cheguei, havia uma estrutura de apoio montada e de que também beneficiámos. É claro que tudo isso desapareceu: quando todo a gente estava a deixar de trabalhar, nós estávamos a começar”, diz-nos ao telefone (aqui o Skype do Ípsilon não cooperou e voltámos à idade da pedra, financeiramente impraticável, das chamadas internacionais).

Com crise ou sem, toda a lógica do apoio às artes em Espanha é um pouco from outer space para um português, o que finalmente torna inteligível o facto de Hugo Torres chamar à Voadora empresa (e não companhia). “Aqui tens de montar uma empresa para poderes candidatar-te aos apoios públicos. O sistema é declaradamente empresarial: o próprio nome da instituição que distribui os dinheiros, Axencia Galega das Industrias Culturais, diz tudo. E não há apoios anuais ou plurianuais: é sempre projecto a projecto, e com montantes que não ultrapassam os 60 mil euros, o que nos obriga a diversificar as fontes de financiamento. A Tempestade, que vamos apresentar em Julho no Festival de Almada, fizemos com crowfunding.”

Alter-egos e ursos polares
Por estar em Espanha há tantos anos, Hugo já está “meio aculturado”: “Em Portugal sentia-me sempre fora da maneira como estava em palco. Aqui o que faço em palco é mais eu – se calhar é só uma questão de sentido de humor, o meu é muito espanhol.” Com Sílvia Pereira, cuja pesquisa artística mais recente implica uma heteronímia em cadeia como statement de recusa da lógica autoral do mercado da arte (um resumo dessa pesquisa, OMNIADVERSUS – self-actualising the subject, pôde ver-se no FITEI), dá-se um processo infinitamente mais complexo: não tem propriamente um corpo de trabalho, mas vários alter-egos com um corpo de trabalho autónomo, e absolutamente pessoal, cada um. Onde é que isso faz dela uma artista expatriada? Vera Suchankova, a sua primeira encarnação, criada acidentalmente para concorrer a um prémio, ainda antes de este processo se tornar um programa, é eslovaca (como todas, tem uma biografia: fez 38 anos no último sábado); Darr Tah Lei, a segunda, é islandesa; Urssa Severa, a terceira, é russa (e tem licença de porte de arma, porque já andou pelo Pólo Norte e todo o cuidado é pouco com os ursos polares); Jun O, a mais recente, é japonesa.

Em todos os casos, Sílvia obrigou-se a um rigoroso processo de imersão, e a uma disponibilidade permanente para a viagem (não tem uma base, tem várias: Alemanha, Islândia, Bélgica, Portugal…): as artistas vivem nos lugares, falam as línguas, e as suas obras são de facto o produto de circunstâncias biográficas – e geográficas – particulares. “Com a Vera percebi que achava piada à ideia de responder a uma personagem. De repente não tinha passado e podia continuar na vida real a questões que emergiam daquela ficção de biografia. Era estar a viver uma espécie de performance acidental – poder ser uma pessoa diferente num lugar diferente. Sempre tive uma ânsia voraz de pertencer a outras culturas – não tanto de visitar, mas de me tornar”, explica.

A evolução da pesquisa transformou esse act no seu próprio corpo de trabalho – um corpo de trabalho que leva à letra a sua primeira experiência como expatriada, quando ainda estudante pediu transferência para Barcelona, onde o curso de Escultura que frequentava passou, depois de uma reformulação, a chamar-se Comportamentos Escultóricos. “O que eu faço hoje é exactamente isso. Se calhar nem os professores do curso levaram alguma vez o tópico tão a sério.” Nisso, e ao contrário dos outros entrevistados, Sílvia é uma expatriada à força: “O meu projecto artístico desenvolveu-se de uma maneira que torna quase impreterível a presença nos contextos: são eles que vão criando estas esculturas de seres. Preciso de chegar aos lugares, de criar relações. É das coisas que mais me fascinam neste processo: o facto de me lançar ao acidente da vida.” O que talvez seja outra boa maneira de dizer: emigrante.