Polícias de Baltimore que detiveram Freddie Gray acusados de homicídio

Ministério Público da cidade de Baltimore acredita que as lesões sofridas pelo jovem foram infligidas por acção da polícia, no momento da detenção e durante o transporte para a esquadra.

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O anúncio foi feito por Marilyn Mosby, procuradora da cidade de Baltimore Andrew Burton/AFP

Os seis agentes da polícia da cidade norte-americana de Baltimore envolvidos na detenção do jovem negro Freddie Gray foram formalmente acusados de vários crimes, incluindo homicídio simples e homicídio involuntário.

A detenção de Gray, no dia 12 de Abril, e a sua morte sete dias mais tarde, no hospital, motivaram várias manifestações pacíficas nas últimas semanas e um violento motim entre segunda e terça-feira, protagonizado por jovens das escolas secundárias da zona Oeste de Baltimore, onde estão localizados os bairros mais pobres da cidade.

Foi num desses bairros, conhecido como Sandtown, que Freddie Gray, de 25 anos, foi detido pela polícia, sem que até ao momento tenha sido avançada uma justificação legal para essa detenção. De acordo com testemunhas, e segundo a convicção do Ministério Público, Gray não cometeu nenhuma ilegalidade – terá fugido quando viu um agente e tinha consigo uma navalha que a procuradora da cidade disse ser legal no estado do Maryland.

É também convicção do Ministério Público que as lesões graves sofridas por Freddie Gray foram infligidas por acção da polícia, no momento da detenção e durante a meia hora em que o jovem foi transportado para a esquadra – numa conferência de imprensa realizada na tarde desta sexta-feira, a procuradora da cidade, Marilyn Mosby, disse que o jovem foi colocado na carrinha da polícia sem os cuidados necessários, sem cinto de segurança, e sem que lhe tenha sido prestada qualquer assistência apesar das suas queixas.

Freddie Gray viria a morrer num hospital da Universidade do Maryland no dia 19 de Abril, depois de ter sido internado com uma fractura na coluna vertebral e com lesões igualmente graves na laringe.

O caso é particularmente difícil de analisar porque até ao momento não surgiram vídeos da acção da polícia no momento da detenção – os vídeos captados por telemóvel e partilhados nas redes sociais mostram o jovem a ser levado para a carrinha da polícia, aparentemente sem se conseguir mexer e a gritar por ajuda.

De acordo com a procuradora Marilyn Mosby, as lesões de Freddie Gray foram agravadas pela forma como ele foi tratado e transportado na carrinha da polícia, o que justifica o facto de a acusação mais grave ter sido formulada em nome do agente que conduziu o veículo, Caesar Goodson Jr.

Este agente, de 45 anos, foi acusado de homicídio simples, homicídio involuntário, ofensas à integridade física e negligência, entre outros crimes. Se vier a ser considerado culpado de todas as acusações, pode ser condenado a um máximo de 63 anos de prisão.

A sargento Alicia White, de 30 anos de idade, foi acusada de homicídio involuntário e pode vir a ser condenada a 30 anos de prisão, tal como os agentes William Porter, de 25 anos, e o tenente Brian Rice, de 41 anos. Os agentes Edward Nero, de 29 anos, e Garrett Miller, de 26 anos, foram ambos acusados de ofensas à integridade física e negligência; se forem condenados, podem passar até 20 anos na prisão.

A procuradora referiu-se também às reacções mais violentas do início da semana, reconhecendo a sua importância mas apelando à paz: "Eu ouvi os vossos gritos de 'sem justiça, não pode haver paz'. Mas precisamos todos de paz enquanto eu trabalho para fazer justiça em nome deste jovem."

O anúncio de que o Ministério Público vai tentar levar a tribunal os seis agentes (que foram também alvos de mandados de detenção) foi recebido em euforia pelos cidadãos que assistiam à conferência de imprensa, em Baltimore.

"Não estava à espera, mas rezei por isto. Este dia significa que as acções têm consequências na cidade de Baltimore", disse Desmond Taylor, de 29 anos, ao jornal The Baltimore SunMeecah Tucker, de 23 anos, esperava mais: "Se tivesse sido um de nós a fazer aquilo a um polícia, seríamos acusados de homicídio premeditado."

Depois do anúncio do Ministério Público, um responsável do sindicato da polícia de Baltimore disse à agência Associated Press que os agentes envolvidos na detenção de Freddie Gray agiram com zelo e afastou a ideia de que algum deles seja culpado de qualquer crime. O mesmo sindicato já tinha pedido o afastamento do caso da procuradora Marilyn Mosby – Billy Murphy, o advogado da família de Freddie Gray, doou 5000 dólares para a campanha de Mosby há apenas quatro meses, e o seu marido, Nick Mosby, faz parte do conselho da cidade, em representação do distrito que inclui o bairro onde Freddie Gray foi detido.