Até ao dia 30 de Abril, investigadores podem enviar o seu projecto científico Julio César Mesa/ Flickr
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Até ao dia 30 de Abril, investigadores podem enviar o seu projecto científico Julio César Mesa/ Flickr

Mostra junta projectos recusados pela FCT para combater a “destruição da ciência”

Investigadores das Ciências Sociais e Humanas que viram os seus projectos serem recusados pela FCT vão mostrá-los em Lisboa. Iniciativa quer "resgatar" ideias e denunciar a actual “conjuntura assassina” da Ciência em Portugal

Dar visibilidade a projectos relevantes que, devido à actual “conjuntura assassina” da Ciência, “levada a cabo pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pelo Governo”, não chegaram a ver a luz do dia. No dia 20 de Maio, um grupo de investigadores vai juntar-se em Lisboa para “resgatar” a investigação que não vingou em Portugal, na mostra “Há Ciência além da FCT?”.

Foi durante o seminário “Memória, Cultura e Devir: Teoria e Caminhos nas Ciências Sociais”, onde se discute Ciência e se orientam teses, na Universidade Nova de Lisboa, que a ideia surgiu. “Entre as pessoas que lá estavam encontravam-se várias que não tiveram projectos financiados. Pessoas com currículos extraordinários e prémios internacionais, mas sem bolsa”, contou ao P3 Paula Godinho, docente no departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Com a inspiração do salão francês dos Recusados criado por Napoleão, onde iam parar as obras excluídas dos preceitos do século XIX, um grupo de investigadores decidiu fazer algo semelhante para o século XXI. “Quando se fizer a história da Ciência portuguesa só os projectos financiados pela FCT vão lá estar. E há muita coisa que ficará perdida.”

Até ao dia 30 de Abril, investigadores das Ciências Sociais e Humanas podem enviar o seu projecto científico recusado pela FCT, entidade pública de financiamento, para [email protected], com indicação do nome, área científica da candidatura, título e resumo do projecto (num máximo de 150 palavras).

O objectivo da mostra não é “substituir as comissões de avaliação nem a FCT”, sublinha Paula Godinho. “Eu própria já fiz parte de equipas científicas e quem está a avaliar nunca sabe qual é a linha de água. E a linha de água da FCT é baixíssima. Nada disto se faz contra esses colegas nem contra os que têm bolsa. É uma iniciativa para resgatar projectos.”

Muitos já emigraram

Os investigadores vão apresentar o projecto em Lisboa, no dia 20 de Abril (9 – 20h, na Casa da Achada), e durante a sessão serão discutidas as potencialidades e lacunas de cada um. Algumas das apresentações, antevê Paula Godinho, serão feitas por Skype: “São pessoas que já tiveram de abandonar Portugal para não abandonar a Ciência.”

A FCT tem sido alvo de críticas por parte de bolseiros, devido aos cortes no número de bolsas atribuídas. E, mais recentemente, alvo de críticas dos centros de investigação, das universidades e dos sindicatos do sector, que apontam irregularidades a um processo de avaliação destinado à atribuição de financiamento das unidades científicas até 2020. Tanto a anterior direcção, de Miguel Seabra, como a da investigadora Maria Arménia Carrondo, que tomou posse este mês, consideram que a avaliação foi feita com rigor e transparência.

Os cortes no financiamento têm afectado particularmente as Ciências Sociais e Humanas, consideradas “excendentárias” pela FCT e pelo Governo. “Nesta época de grandes produtivismos acha-se que são áreas descartáveis. Isto é um fenómeno que tem de ser combatido. Sem elas, pouco perceberemos do mundo. O mundo não pode ser algo onde só existe a produção”, sublinha Paula Godinho. A estratégia de “financiar projectos que têm muito a ver com aquilo que é o momento” é para a docente reveladora: “Denota ausência de visão de futuro.”

A mostra “Há Ciência além da FCT?” é organizada pelo seminário Memória, Cultura e Devir: Teoria e Caminhos nas Ciências Sociais, a Associação Portuguesa de Antropologia, a Associação Portuguesa de Sociologia, a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, os Precários Inflexíveis e o Sindicatos dos Trabalhadores de Arqueologia.