Opinião

O mistério brasileiro: vale a pena prestar atenção

Algo surpreendente está a ocorrer na paisagem intelectual e política do Brasil.

Escrevo do Brasil, na manhã de domingo, horas antes das manifestações previstas para centenas de cidades do país, bem como de várias outras cidades do mundo: Nova Iorque, Toronto, Londres, Sydney, Berlim e parece que também Lisboa, entre várias outras.

Não faço ideia da projecção que estas iniciativas vão ter — na sequência das manifestações que no passado dia 15 de Março trouxeram à rua mais de dois milhões de brasileiros. Mas, tendo passado aqui — no Rio e em Petrópolis — a última semana, posso seguramente reportar que algo está acontecer por estas paragens.

O que é exactamente eu não sei — se é que alguém sabe ao certo. Um imenso movimento popular, pacífico, ordeiro, patriótico, está em marcha. Não existe um centro organizador deste movimento. Baseia-se nas redes sociais, tem jovens, muito jovens, a dar a cara, que recusam qualquer identificação partidária, e que assumem um programa genérico contra a corrupção e o “aparelhamento do Estado”. Alguns, talvez muitos, exigem o “impeachment” da Presidente Dilma. Mas muitos outros dizem que basicamente querem o respeito pelo Estado de Direito e pelos princípios da liberdade sob a lei. Embora se trate de um vasto movimento de rua, ninguém põe em causa a Constituição ou as instituições representativas.

No passado dia 15 de Março, as multidões que desceram à rua eram pacíficas e ordeiras. Em vez de confrontarem as forças da polícia, aplaudiam-nas. Vestiam as cores da bandeira do Brasil e cantavam o hino nacional. Entre as principais palavras de ordem, contavam-se “Contra a corrupção” e “Contra o aparelhamento do Estado” (o que basicamente significa contra a captura do Estado por partidos políticos particulares, neste caso sobretudo o PT, mas não só).

Não é possível determinar com exactidão o programa político de um movimento descentralizado e tão vasto como este. Mas é possível identificar algumas características mais marcantes que o distinguem e tornam inovador.

Em primeiro lugar, reclama menos Estado, em vez de mais Estado. Alguns dos apoiantes do movimento declaram nas redes sociais que querem ver as funções do Estado recuar para as de um Estado mínimo ou mesmo “microscópico”. Reclamam a liberdade da sociedade civil e da iniciativa privada, para a qual exigem a protecção da lei geral e igual para todos. Acusam o “crescimento tentacular” do Estado como principal fonte de corrupção, que consideram gigantesca.

Em segundo lugar, o seu discurso é dominantemente dirigido contra o que designam por “autoritarismo da esquerda estatista”. Mas várias vozes condenam igualmente o que designam por “direita estatista” e reclamam-se sobretudo de tradições que designam como “liberal e conservadora”.

Algumas das vozes que se fazem ouvir na imprensa e nas redes sociais são, além de bastante jovens, surpreendentemente articuladas e informadas. Uma dessas vozes é a do famoso Rodrigo Constantino, autor de um blogue da revista Veja. O seu livro Esquerda Caviar acaba de ser publicado no Brasil e em Portugal (Aletheia), com prefácio do português João Pereira Coutinho — célebre cronista das terças-feiras na Folha de S. Paulo e, entre nós, do Correio da Manhã. (Ambos estarão no Estoril Political Forum, a 22-24 de Junho próximo, discutindo esse livro com Bruno Garschagen, outro jovem destacado porta-voz destas correntes nas redes sociais).

Há surpreendentes traços comuns nestes jovens autores. Não condenam apenas o estatismo

e o marxismo, a que atribuem o subdesenvolvimento latino-americano. Condenam ainda a cultura “patrimonialista” que procura capturar e expandir o Estado em favor de interesses particulares e à custa da asfixia da sociedade civil. Condenam o jacobinismo e o positivismo de matriz francófona, cuja influência no Brasil responsabilizam pelo crescimento do Estado patrimonialista.

As suas referências intelectuais são sobretudo do mundo de língua inglesa, com particular incidência no liberalismo conservador de Edmund Burke e nos pais fundadores dos EUA. Mas insistem que não são “estrangeirados”. Reclamam uma tradição luso-brasileira liberal e conservadora, que associam ao “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves” (1815-1822) e à monarquia constitucional brasileira (1822-1889). Não têm quaisquer complexos “anti-coloniais”. Com acentuado sentido de humor — outro traço que os distingue — dizem sarcasticamente que foi Portugal que se separou do Brasil, não o Brasil de Portugal.

Enfim, uma coisa é certa: algo surpreendente está a ocorrer na paisagem intelectual e política do Brasil. Vale a pena prestar atenção.