A casa dos instrumentos

A Casa da Música faz dez anos. Fomos conhecer o labirinto onde se guardam os instrumentos.

A completar dez anos, o edifício da Casa da Música é também a casa dos instrumentos. Tem mais de dois mil: há pianos e cravos, violinos e contrabaixos, harpas e clarinetes, mas o naipe mais representado é o das percussões, que inclui um gamelão indonésio para uso comunitário

Para o concerto que realizou na Casa da Música no final de Março, dois dias depois da Gulbenkian em Lisboa, o pianista russo Grigory Sokolov fez vir de Espanha um piano Steinway de fabrico recente, acompanhado por um afinador próprio. Nas duas actuações que fez na Sala Suggia, em 2008 e 2010, Maria João Pires tocou num piano Yamaha, que normalmente a acompanha. Antes, o pianista polaco Krystian Zimerman, tão virtuoso quanto imprevisível, trouxe o seu próprio piano na deslocação ao Porto. E quando estava a ensaiá-lo no palco montou uma tenda à sua volta para ninguém ver como o preparava para o concerto...

Esta não é, contudo, a prática usual — a maioria dos pianistas que vêm actuar à Casa da Música usa um dos seus três pianos principais: dois Steinways e um Bösendorfer. Os dois primeiros, da marca internacionalmente mais prestigiada hoje em dia, foram adquiridos em 2004 e 2005 para a inauguração do edifício de Rem Koolhaas (que viria a acontecer a 14 de Abril de 2005, com um concerto de Lou Reed). Mas a verdade é que estes dois pianos se aproximam do fim do prazo de validade, para actuações de exigência máxima.

Quem nos explica isso é Ernesto Costa, engenheiro electrotécnico e designer nascido em Viana do Castelo, e o responsável pela coordenação dos recursos técnicos e humanos da Casa da Música, toda uma vasta equipa que assegura, nos bastidores, a ribalta dos artistas.

“A vida da Casa da Música é muito mais dinâmica do que pode parecer vendo apenas a agenda de concertos”, realça Ernesto Costa, na visita em que guiou a Revista 2 por entre o labirinto de salas de ensaio, gabinetes e armazéns onde está guardado todo o manancial de instrumentos que garantem a programação da Casa. Ao todo, são mais de dois mil instrumentos musicais, contabilizando aqui a miríade de objectos de percussão cuja variedade e natureza ultrapassa largamente o espectro mais reconhecido do naipe.

Na verdade, se o edifício inaugurado faz agora uma década, é programaticamente “a casa de todas as músicas”, ele é também a casa de todos os instrumentos. Tem uma dúzia de instrumentos de teclas: além dos pianos já citados, dois cravos de origem europeia dos séculos XX e XXI, mas construídos segundo fórmulas antigas (um deles é uma das peças herdadas da antiga Régie Cooperativa Sinfonia, etapa anterior na história já cinquentenária da Orquestra Sinfónica do Porto); uma espineta, um Yamaha Disklavier electrónico, uma celesta e dois órgãos (positivo e sinfónico)… Tem também três harpas, uma dezena de contrabaixos, quatro tubas wagnerianas, um cimbasso, um cimbalão húngaro, clarinetes diversos e… um gamelão, que é a peça mais exótica de todo o conjunto — não contando aqui, naturalmente, as percussões. E está a adquirir um contrafagote, para dotar a orquestra de sons mais graves do que os actualmente possíveis.

No piso -3 da Casa, a principal sala de guarda dos instrumentos mantém uma temperatura média de 20º e uma humidade equilibrada. Ernesto Costa explica ser “importante não haver diferenças de temperatura entre o palco e as salas de guarda”, principalmente para os instrumentos de pele e madeiras, que “são sempre muito sensíveis” a alterações ambientais. “Para encontrarmos o ponto de equilíbrio, foi preciso aprender como funciona o edifício”, diz este técnico, que entrou para a Casa da Música no ano 2000, quando se preparava a Capital Europeia da Cultura (Porto 2001), e que antes tinha passado por vários teatros e companhias, e trabalhado na Rede Nacional de Teatros.

Sobre a especificidade e sensibilidade dos instrumentos, Ernesto Costa explica que, mesmo se são os mais caros — um Steinway pode custar hoje em dia 150 mil euros —, os pianos não são os mais exigentes. “Os cravos, o órgão positivo e mesmo as harpas são os mais delicados e os que exigem mais cuidados”, acrescenta, chamando a atenção para as diferenças estruturais e de robustez. “O piano, que é um instrumento que sofreu uma grande evolução, passou a incorporar peças metálicas na sua estrutura, que lhe conferem uma estabilidade que não observamos nem no cravo nem no órgão positivo, que são mais pequenos e têm também uma mecânica mais ligeira”, nota Ernesto Costa.

Ao contrário do que acontece com os instrumentos de cordas — e o exemplo mais notório é o violoncelo Montagnana, que Guilhermina Suggia deixou em herança à Câmara do Porto, que foi já avaliado em três milhões de euros, e que ultimamente tem sido tocado pelo músico da Orquestra Barroca, Filipe Quaresma —, um piano desvaloriza-se com o tempo. Ernesto Costa diz que pode durar até 50 anos, mas o normal é “não ir muito além de uma década, com características de topo”. No resto do tempo, serve para ensaios e actuações em segundo plano.

“Cada instrumento tem uma espécie de Bilhete de Identidade e um Boletim de Vacinas, onde está inscrito tudo o que lhe acontece”, diz o coordenador. Para as reparações mais simples, a Casa tem uma equipa de “primeiros socorros”, mas, às vezes, a gravidade das cicatrizes obriga ao recurso a uma “clínica” no exterior. E, no caso dos Steinway, todos os anos há um técnico da marca que se desloca “ao domicílio” para os afinar.

Já os instrumentos de percussão têm uma vida mais longa e facilitada — exceptuando os que são feitos de peles e por isso são mais sujeitos a desgaste. A sua guarda está dividida entre uma sala de ensaio e um armazém junto ao parque de estacionamento, no piso -2. Na primeira, especialmente dedicada ao estudo e aos ensaios dos percussionistas, há marimbas, bombos, tan-tans, tímpanos, vibrafones, sinos tubulares… e um armário com gavetas cheias de baquetas e outros acessórios. “São os músicos que escolhem as baquetas que usam em cada programa”, diz-nos Fernando Gonçalves, um cabo-verdiano que faz parte da equipa responsável pela guarda dos instrumentos. “Cabe-me a manutenção e também assegurar que não há conflito entre as requisições e as necessidades dos músicos das diferentes formações residentes”, explica Gonçalves, que entrou na Casa em 2011.

Coube a Fernando Gonçalves, de resto, identificar aqui o poiso da velha bigorna — o instrumento nº 55.638-O [de Orquestra] —, que tínhamos ouvido, no último Concerto de Ano Novo, na execução de uma polka de Josef Strauss. Trata-se, com os respectivos banco de ferreiro e martelos, de uma peça também herdada da antiga Orquestra da RDP.

Entre esta sala e o armazém no mesmo piso, distribuem-me centenas de outras peças de percussão. Algumas, da tradição mais facilmente reconhecível deste naipe; outras, “inventadas” para os programas do serviço educativo, ou para servir o Remix, a formação dedicada à música dos séculos XX-XXI, e “os compositores contemporâneos” — nota Ernesto Costa —, que são quem mais alarga o leque destes instrumentos. E dá os exemplos do finlandês Magnus Lindberg, que foi ele próprio a um sucateiro de Gaia buscar uns travões e jantes de automóveis, ou o alemão Helmut Lachmann (o compositor em residência, este ano, na Casa da Música), que pediu bacias de água e um sino emprestado para a execução de peças suas.

É assim que nestas duas salas, misturados com cenários e outros materiais (como uma máquina de fazer neve, que o próprio Ernesto Costa construiu para o Concerto de Natal da Orquestra Barroca), se podem encontrar — todos afinados e com as respectivas notas identificadas — carris, molas, serrotes, correntes, gongos, chocalhos, rádios de pilhas, taças chinesas, tanques de plástico, tábuas e as pequenas caixas de madeira (woodblocks) usadas numa obra de Emmanuel Nunes.

Muitas destas peças foram criadas, e usadas, pelo serviço educativo. “Mais do que instrumentos, chamamos-lhes objectos sonoros”, diz Jorge Prendas, responsável por este departamento. Essas peças respondem também a um programa que tem “uma grande vertente pedagógica, quase ideológica, de fazer chegar a mensagem ecológica junto dos mais novos”.

Do Lixo se Faz Música

é, de resto, o título de um

workshop

para formação de professores que aquele serviço tem vindo a promover. E

Lixolândia

é um espectáculo criado com objectos resultantes da reciclagem e reutilização do lixo, destinado a crianças dos 0 aos 5 anos.

Às vezes, nem toda a gente percebe estar na presença de objectos musicais. Jorge Prendas recorda o episódio ocorrido numa apresentação de Lixolândia, em que “as mulheres da limpeza deitaram fora uma série de peças quando foram limpar o palco no fim do último ensaio”. “Foi preciso ir novamente recuperá-las… ao lixo”, diz, entre risos.

O serviço educativo é também o principal utilizador do gamelão, instrumento exótico e um dos conjuntos mais extraordinários de quantos se podem admirar na Casa da Música. Foi adquirido, em 2008, em Java, Indonésia — custou 13.400 euros, mais 3000 de transporte —, e é constituído por 48 peças, vibrafones e xilofones, em madeira tropical e metal.

“É um instrumento comunitário para celebrações rituais”, explica Jorge Prendas. Para além de projectos pedagógicos e comunitários, o gamelão tem servido também para a realização de workshops de sonorização de dança, teatro de sombras e cinema de animação.

Em 2013, a Casa da Música constituiu um Ensemble de Gamelão, dirigido pelos músicos Jorge Queijo e Maria Mónica, que já gravou um disco e realizou concertos em Barcelona e na Igreja dos Clérigos, no Porto. No próximo dia 31 de Maio, vai actuar no Serralves em Festa.

Jorge Prendas diz que “o gamelão é muito simples de tocar, tem um grande potencial sonoro e, com ele, é muito fácil fazer música”.

A dificuldade maior, para os músicos ocidentais, “é tocá-lo sentado no chão, uma posição que para nós não é nada natural”, confessa o responsável pelo serviço educativo.