Quase 10% dos adolescentes do 8.º e 9.º anos têm sintomas de depressão

Uma situação reversível com um programa de prevenção que está a ser testado nas escolas desde 2011.

"Mais de metade dos empresários lida com problemas de depressão"
Foto
Estudo foi feito com 3300 jovens com uma idade média de 14 anos Nelson Garrido

Oito por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9.º anos apresentam sintomatologia depressiva e 19% estão em risco de desenvolver a doença. Uma situação reversível com um programa de prevenção que está a ser testado nas escolas desde 2011 e que se revela mais eficaz quando envolve, também, os pais ou encarregados de educação dos jovens em risco, segundo indicam os resultados provisórios de uma investigação internacional ainda em curso.

“A investigação ainda não está concluída, mas já podemos afirmar, sem qualquer dúvida, que seria muito importante incluir nos currículos dos alunos este programa de prevenção, pelo menos através de projectos-piloto”, defendeu nesta sexta-feira Ana Paula Matos, investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e orientadora do projecto lançado em 2008, em que participam especialistas de instituições como a University of Emory (EUA), o Max Planck Institute (Alemanha) e a University of Iceland (Islândia).

Para o desenvolvimento da investigação, os técnicos acompanham desde 2011 cerca 3300 adolescentes com uma idade média de 14 anos de idade e a frequentarem os 8.º e 9.º anos de escolaridade. Um dos objectivos foi precisamente testar a eficácia do Programa de Prevenção da Depressão para Adolescentes (PPDA), já aplicado na Islândia. E, apesar de ainda não terem sido tratadas as entrevistas clínicas essenciais à consolidação de resultados, os primeiros dados apontam, já, para um aumento significativo do nível de resiliência dos jovens integraram a experiência.

No âmbito do projecto foram seleccionados 290 adolescentes considerados em risco de depressão, de acordo com os resultados de um questionário validado internacionalmente, o Children´s Depression Inventory, que avalia a sintomatologia depressiva. Aquele grupo foi dividido noutros dois: um de controlo, com 163 jovens, e outro sujeito à intervenção, formado por 137.

Durante 11 semanas, estes adolescentes, em pequenos grupos (de dez ou menos elementos), participaram em 14 sessões de 60 a 90 minutos, cada uma com objectivos definidos e orientada por psicólogos. “O objectivo, de uma forma geral, é dar aos jovens recursos para que possam lidar com os problemas e emoções próprios da idade antes de os episódios depressivos ocorrerem”, explicou Ana Paula Matos em declarações ao PÚBLICO.

Nas sessões, os próprios jovens são convidados a indicar problemas com os quais se tenham confrontado. As actividades podem passar por exercícios simples de análise do problema, colocação de hipóteses de solução, avaliação das vantagens e desvantagens de cada uma e opção pela melhor. O facto de isto ser feito em conjunto é considerado decisivo – “Os adolescentes aprendem imenso uns com os outros”, comenta Ana Paula Matos.

A inovação, em relação ao projecto da Islândia, constou da criação de um terceiro grupo de 36 adolescentes (que faziam parte dos 137 sujeitos à intervenção). Neste caso, também os pais e encarregados de educação foram chamados a participar na experiência. Para estes, a equipa da UC concebeu um programa específico, uma espécie de “curso de formação parental”, com vista ao treino de competências consideradas importantes na protecção do adolescente.

O programa destinado aos adultos integra conteúdos semelhantes ao dos jovens (como a compreensão da relação entre pensamentos, emoções e comportamentos; o treino de aptidões de comunicação ou a prática de resolução de problemas e de conflitos). Mas também conteúdos inovadores, no que respeita à investigação, sublinha Ana Paula Matos. De entre estes, destaca o treino de competências de validação emocional e da compaixão na relação consigo próprios e com os filhos.

“São muito valorizadas as competências dos pais para reconhecer, compreender e aceitar as emoções, próprias e dos outros, e também para serem compassivos, abertos ao sofrimento dos filhos, capazes de os escutar e de serem pacientes e cooperantes na procura de soluções”, indica a investigadora.

Os resultados mais promissores verificaram-se precisamente neste grupo. Os especialistas concluíram que, imediatamente após a intervenção, tanto os pais como os jovens apresentam valores médios mais baixos de sintomatologia depressiva, em relação ao ponto inicial – um ganho que se mantinha após seis meses de seguimento. E foi também naquele grupo que a percentagem de adolescentes resilientes (e que deixaram de fazer parte do grupo de risco) aumentou de forma mais significativa, atingindo os 83%. No caso dos alunos cujos pais não participam no projecto a percentagem de jovens resilientes era, após a intervenção, de 69%; e no grupo de controlo de 61%.

Estes e outros resultados da investigação serão analisados no congresso internacional que na próxima semana decorre em Coimbra. Apesar de este ser dirigido a especialistas, Ana Paula Matos diz esperar que as conclusões tenham impacto na comunidade e, em concreto, ao nível do Ministério da Educação e das autarquias locais para as quais foram recentemente transferidas competências neste domínio.

A investigadora faz notar  que a depressão "não só é uma das doenças mais prevalentes nas crianças e adolescentes" como tem "efeitos devastadores, comprometendo o funcionamento emocional, académico e relacional" dos jovens. “Estudos internacionais indicam que cerca de metade dos primeiros episódios de depressão acontecem entre os 15 e os 21 anos e que esta precocidade está associada à sua evolução crónica – seria muito importante que as escolas fossem dotadas de recursos humanos para desenvolver projectos de prevenção e que estes fossem incluídos nos currículos”, defende a investigadora.  

Os jovens com sintomatologia depressiva detectada durante a investigação (8% dos 3300) foram encaminhados para os serviços de saúde.