O gato de Seabra

Tal como o Gato de Schrödinger existe paradoxalmente ao mesmo tempo em dois estados, Miguel Seabra colocou-se numa sobreposição de lugares.

É o paradoxo do Gato de Schrödinger que vem à memória quando se fica a saber o nome do principal vencedor deste ano do Grande Prémio Bial de Medicina.

Miguel Seabra é professor catedrático da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (UNL), onde se licenciou em medicina em 1986. O doutoramento, em bioquímica e biologia molecular, foi em 1992 na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Daí partiu em 1997 para Londres, para o Imperial College. Tem-se pois dedicado à investigação médica há vários anos. Até ao início de 2012, dirigiu o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da UNL.

Desde Janeiro de 2012 e até esta terça-feira, quando a sua demissão foi anunciada, assumiu a presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), a principal instituição pública que financia o sistema científico do país, tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência. É o seu braço na aplicação das políticas científicas. Tem por missão desenvolver, avaliar e financiar o sistema científico português. Assim, a FCT financia projectos de investigação, bem como equipamentos científicos e bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Em suma, como diz o decreto-lei que define a sua missão, compete-lhe “a coordenação das políticas públicas de ciência e tecnologia”. Políticas que, no actual Governo, e com Miguel Seabra na FCT, têm passado por cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento e por uma avaliação de credibilidade duvidosa aos centros de investigação do país.

É por isso, no mínimo, surpreendente Miguel Seabra ter-se candidatado a um prémio de investigação científica enquanto ocupava a presidência da FCT. Tal como o Gato de Schrödinger existe paradoxalmente ao mesmo tempo em dois estados, Miguel Seabra colocou-se numa sobreposição de lugares: era gestor político, que coordenava as políticas públicas de ciência e tecnologia, e ao mesmo tempo cientista que concorreu a um prémio com a sua própria investigação científica.

Não está em causa o mérito do seu trabalho científico, nem do seu currículo como investigador, nem do júri que avaliou tudo isso, nem da Fundação Bial que atribuiu o prémio. Vamos pensar que foi o melhor trabalho a concurso, entre os 36 que concorreram, e que merecia vencer. Mas, ao candidatar-se ao Grande Prémio Bial de Medicina na qualidade de investigador enquanto era presidente da FCT, Miguel Seabra começou por colocar os membros do júri, também cientistas, de diversas universidades, numa situação estranha. Cientistas que são avaliados e financiados pela fundação presidida por Miguel Seabra. Tal como colocou numa situação incómoda a Fundação Bial (criada pelos Laboratórios Bial e pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas), até porque no regulamento do prémio nada há que impeça a candidatura de quem ocupe um cargo de gestão da política científica do país. Mas, principalmente, pôs-se a ele próprio num lugar ainda mais estranho. Digamos que há um certo paradoxo ético.

Se Miguel Seabra já estava debaixo de fogo enquanto responsável pela gestão da ciência portuguesa, esta candidatura ao prémio vem deixá-lo ainda mais chamuscado.