Andaluzia: Socialistas têm vitória clara, Podemos uma estreia promissora

Primeiro teste ao anunciado fim do bipartidarismo espanhol confirma irrupção do Podemos e do Cidadãos. Em casa, na Andaluzia, PSOE aguenta melhor o embate do que se antecipava.

Foto
A socialista Susana Díaz vai manter-se à frente do governo regional da Andaluzia REUTERS/Marcelo del Pozo

Foi uma Susana Días muito sorridente a que apareceu bem depois da hora prevista para comentar a sua vitória nas eleições autonómicas da Andaluzia. A socialista que chegou à presidência do governo regional sem ter sido eleita acabou por ver compensada a decisão de antecipar em mais de um ano as eleições, mantendo o número de deputados, 47, e voltando a fazer do PSOE o partido mais votado na região.

Mas Días não tem maioria absoluta e vai ter de negociar num parlamento com duas novas forças, o Podemos e o Cidadãos, um parlamento que, nas suas palavras, “é o fiel reflexo da pluralidade que hoje existe na sociedade”. A política de 40 anos com aspirações à direcção nacional dos socialistas falou num “novo tempo, de diálogo, de unidade”.

Não foi a única. O grande derrotado da noite, Juan Manuel Moreno, do Partido Popular, também afirmou que “os andaluzes votaram para terem um parlamento mais fragmentado, plural, e temos todos de saber ouvir essa mensagem e ser capazes de dialogar”.

O PP passou de 50 deputados, em 2012, para 33 – as últimas autonómicas, quando os conservadores foram o partido mais votado mas os socialistas formaram governo em aliança com a Esquerda Unida, foram a excepção, numa região onde o PSOE governa desde que há democracia, a única que resistiu à alternância em todo o país.

Para além de Días, os outros dois vencedores da ida às urnas foram os dois novos partidos que vieram baralhar o tabuleiro político espanhol, o Podemos, que nasceu do movimento dos indignados e foi fundado há pouco mais de um ano, e o Cidadãos, que já tem dez anos mas era até há pouco tempo um partido catalão, que entretanto se tornou nacional através de alianças com formações locais e regionais.

Um e outro obtiveram mais ou menos os resultados que as sondagens lhes antecipavam: o Podemos reuniu 15% dos votos e elege 15 deputados; o Cidadãos tem 9% e vai ter uma bancada de nove lugares.

A derrota da Esquerda Unida dói ainda mais do que a do PP. O partido que governou nos últimos três anos com os socialistas passa de terceira a quinta força política e perde sete deputados (tinha 12, passa a cinco). Para uma formação que chegou a ter 20 lugares, em 1994, é um resultado trágico. Se o Partido Socialista aguentou o embate do Podemos, a Esquerda Unida sofreu e bem com o aparecimento do novo partido de esquerda.

Num ano em que os espanhóis serão chamados a votar em eleições municipais e autonómicas antes das legislativas, previstas para Dezembro, estas eleições tem leitura nacional. Mais ainda quando as sondagens antecipam o fim do bipartidarismo, dão o Podemos como partido mais votado no país, à frente do PSOE, e o Cidadãos como obtendo quase tantos votos como o PP.

O primeiro-ministro, o conservador Mariano Rajoy, participou em cinco actos de campanha e acompanhou o escrutínio em Madrid rodeado pelo seu núcleo duro. O mesmo fez o novo líder socialista, Pedro Sánchez, que participou pouco na campanha por decisão de Susana Días, sua adversária interna que quis fazer uma campanha pessoal e anunciou que seria apenas ela a decidir se governava em minoria, com pactos pontuais, ou tentaria negociar uma coligação. Sánchez vai querer que esta seja uma vitória do PSOE – e é a primeira em quatro anos –, Días, que que herdou o governo quando José Antonio Griñan começou a ser investigado num caso de corrupção, quer que vitória seja sua.

Novo ciclo político

Mesmo que Días queira tentar um acordo para governar em maioria é improvável que o consiga. Sempre disse que não o faria com o Podemos nem com o PP. Olhando para os resultados, resta-lhe o Cidadãos, que dificilmente quererá coligar-se ao PSOE quando consegue grande parte dos votos à custa dos populares e tanto está em jogo até ao fim do ano.

“Enfraquece mas não morre o bipartidarismo, só se vislumbra o suposto novo ciclo político, Susana Díaz resiste à irrupção de novos partidos e quebra a lógica habitual de que quem antecipa eleições paga com perda de votos”, escreveu o principal jornalista parlamentar do El País, Fernando Garea.

Opinião diferente têm Podemos e Cidadãos. “O bipartidarismo morreu, todos o sabemos”, declarou Albert Rivera, líder do Cidadãos e nova estrela da política espanhola.

“A política já não é um monopólio de dois partidos”, declarou o secretário da organização do Podemos, Pascual Sergio, que comentou os resultados antes da líder andaluza do partido, Teresa Rodríguez. “Havia quem pensasse que antecipar as eleições nos apanharia desprevenidos”, disse Sergio. Foi exactamente isso que Susana Días pensou e, provavelmente, pensou bem. Quando se soube que haveria eleições, no fim de Janeiro, o partido de Pablo Iglesias não tinha ainda líder na região e a estrutura regional ainda está por erguer.

Não terá sido ainda o terramoto que as sondagens antecipam para o país, mas os resultados dos dois partidos emergentes são um sucesso. Para o Podemos este era um primeiro teste especialmente difícil, no pior terreno possível, a região mais socialista da Espanha.

“O mapa político da Andaluzia e do país já mudou”, afirmou a líder regional, a ex-professora Teresa Rodríguez, que em Maio foi eleita para o Parlamento Europeu. Sublinhando que aquilo que o partido conseguiu foi feito sem recursos, com contribuições cidadãs e trabalho voluntário, “com as nossas mãos”, Rodríguez prometeu levar para as instituições “o senso comum da rua” e a “voz da cidadania”. “A mudança já está em marcha.” Os próximos meses o dirão.