Com Yasar Kemal, a Turquia moderna teve a sua epopeia

O grande escritor da geração anterior a Orhan Pamuk morreu no sábado, aos 92 anos, vítima de falência respiratória. Deixa uma obra incomparável, traduzida em mais de 40 línguas, que fundou a moderna literatura turca e uma parte da sua consciência.

Fotogaleria
Yasar Kemal em 2011, durante uma manifestação de apoio ao sociólogo turco Pinar Selek BULENT KILIC/AFP
Fotogaleria
A mulher do escritor, Ayse Semiha Baban, anunciou no sábado, à porta do hospital onde se encontrava internado desde 14 de Janeiro, a morte de Yasar Kemal OZAN KOSE/AFP
Fotogaleria
Yasar Kemal com o escritor alemão Günther Grass na entrega do Prémio da Paz da Feira de Frankfurt, em Outubro de 1997
Fotogaleria
O Presidente francês François Mitterrand entrega a Legião de Honra a Yasar Kemal a 9 de Maio de 1984, em Paris AFP
Fotogaleria
Yasar Kemal com François Mitterrand no Eliseu, em Fevereiro de 1995, depois de ter sido indiciado por incitamento ao separatismo curdo AFP
Fotogaleria
Yasar Kemal à saída de um tribunal de Istambul em Dezembro 2005, numa manifestação de apoio a Orhan Pamuk CEM TURKEL/AFP

Yasar Kemal tinha cinco anos quando viu o pai ser apunhalado à sua frente à entrada da mesquita da aldeia onde vivia, no Sul da Turquia, e passou os sete anos seguintes a gaguejar e a sonhar com vinganças homéricas e banhos de sangue. Descendente de uma família curda que fugira da Anatólia Oriental perante o avanço das tropas russas na devastadora Primeira Guerra Mundial que acabaria com o Império Otomano, o fundador da literatura turca moderna foi um observador feroz da dureza da vida num país então ainda por industrializar, irremediavelmente agrário e feudal, e tornou-se condutor de tractores, jornaleiro nos campos de arroz e de algodão e canalizador antes de chegar a Istambul, onde os irmãos o introduziram nos círculos intelectuais comunistas, no jornalismo militante (trabalhou no Cumhuriyet, o diário de referência da esquerda turca) e na literatura europeia (toda a épica greco-romana, Cervantes, mas sobretudo Stendhal), que o formou tanto como o combate político.

Doente pulmonar, o seu estado de saúde agravara-se muito ao longo da última semana; acabou por morrer no sábado, vítima de falência respiratória, num hospital de Istambul, acompanhado pela mulher, Ayse Semiha Baban. O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, reagiu com "tristeza" à "perda do grande escritor e artista", sublinhando em comunicado a sua "capacidade para manter a dissidência e dizer a verdade sem hesitações num tempo em que dizer a verdade era difícil". Na sua conta do Twitter, o ministro da Cultura, Omer Celik, escreveu que "a Turquia e a Humanidade perderam uma grande alma".

Traduzido em mais de 40 línguas (em grande parte pela sua primeira mulher, Thilda Serrero, uma judia sefardita de Istambul que dominava perfeitamente o inglês e o francês), o grande escritor da geração anterior a Orhan Pamuk transportou a literatura turca, então ainda muito influenciada pelo barroquismo da poesia persa, até à modernidade europeia, justapondo ao universo fantasioso dos contos da tradição popular um agudo poder de observação e de denúncia das tremendas injustiças sociais da Turquia pós-otomana. 

Memed, Meu Falcão, o seu torrencial primeiro romance, publicado em 1955 (e editado em Portugal pela Caminho, que o incluiu na colecção Uma Terra Sem Amos), tornou-se muito rapidamente um clássico da literatura de revolta, narrando o coming of age do filho de jornaleiros pobres que se revolta contra o cacique da aldeia. Através de Yasar Kemal (que quase até ao fim, conta o Libération, continuou a escrever a lápis em grandes folhas de papel branco aquilo que deverá vir a ser a sua autobiografia), a Turquia rural tornou-se ficção, e todo um cancioneiro oculto, o cancioneiro difundido pelos velhos asik, trovadores ambulantes que chegavam às aldeias mais remotas do Sul do país acompanhados de um alaúde, ganhou visibilidade. Foi, de resto, a contar e a cantar histórias que Kemal descobriu o segredo para se libertar finalmente da gaguez, aos 12 anos. Foi então que nasceu verdadeiramente um escritor, e que se inaugurou uma literatura. 

Correr à frente do medo

Nascido em 1923 em Hemite, uma aldeia da região de Osmeniye, no Sul da Turquia, Kemal Sadik Gökçel começou a escrever ainda muito jovem, antes de chegar a Istambul: transcrevendo os seus poemas e as histórias do folclore popular, ouvindo os camponeses analfabetos ditarem-lhe as palavras que queriam fazer chegar aos seus entes queridos da grande diáspora da primeira metade do século XX.

Em 1946, mudou-se para Istambul para estar com os irmãos, Arif e Abdidi Dino, perfeitamente integrados nos círculos intelectuais esquerdistas da grande cidade euro-asiática, mas nunca deixou de sonhar com os arrozais e com os campos de algodão, nem com a linhagem de camponeses, bandidos, poetas errantes e ladrões de cavalos de que sempre se viu como herdeiro. Quatro anos depois, publicava o primeiro livro, comprometido não apenas com a renovação da língua e da literatura turcas como com a transmissão nua e crua da vida do campesinato: "Não acredito numa arte separada do povo. A minha literatura está ao serviço do proletariado", declararia.

O compromisso com o ideário comunista levá-lo-ia, já na década de 60, depois de publicados o seu primeiro volume de contos e o seu grande romance, à direcção do Partido Trabalhista turco em 1962; cinco anos mais tarde, fundava a Ant, uma revista marxista. Ao longo da sua vida, nunca deixou de presidir a sindicatos e associações de artistas e de escritores nem de se bater publicamente em defesa das causas que considerava justas, e nomeadamente pelos direitos da minoria curda e contra o abuso de poder.

O seu desassombro levou-o a ser detido uma primeira vez aos 17 anos; uma década mais tarde, cumpriu tempo na prisão por fazer "propaganda comunista"; o golpe militar de 1971 forçá-lo-ia ao exílio na Suécia. Já em 1995, de volta à Turquia, foi condenado a uma pena suspensa de 20 meses de cadeia por defender o separatismo curdo ("Um mundo em que haja apenas uma língua será pior do que o inferno").  Mas voltou a aparecer à porta do tribunal quando em 2005 foi preciso dar o seu apoio a Orhan Pamuk, que em certo sentido lhe roubou o Nobel da Literatura para que havia sido proposto pela primeira vez em 1973 e que então enfrentava um julgamento por "insultos à nação", ou, mais recentemente, ao sociólogo Pinar Selek, julgado em 2011. Era mais forte do que ele, explicou certa vez: "Detesto os heróis, mas como muitos homens não consigo impedir-me de correr à frente do meu medo." De resto, foi precisamente num tribunal que decorreu a primeira leitura pública do seu livro de estreia: "O juiz lia muito bem e no final da audiência confidenciou-me que tinha gostado muito da minha história."

Premiado inúmeras vezes no estrangeiro (François Mitterrand deu-lhe a Legão de Honra em 1984 e voltou a recebê-lo no Palácio do Eliseu em 1995, quando o escritor estava indiciado pelo seu apoio à causa curda), Yasar Kemal nunca deixou de acreditar na Turquia, que coincidentemente nasceria como república apenas umas semanas depois dele, apesar da sua terrível propensão para a tragédia. Na sua última grande saga, ainda por traduzir em português, narrou esse parto difícil saído do sangue e da impossível mortandade da Primeira Guerra Mundial: "É a tragédia original da modernidade turca que continua a assombrar a nossa memória: as guerras, os deslocamentos forçados de populações inteiras, os massacres, os genocídios, mas também a destruição da natureza."