TAP gastou mais com combustível apesar da queda do preço do petróleo

A factura chegou quase aos 800 milhões no ano passado, mas a companhia espera uma redução em 2015. Mexidas na sobretaxa de combustível, que é reflectida no preço dos bilhetes, ainda estão a ser avaliadas.

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Governo veio falar de eliminação da sobretaxa, mas a companhia ainda não decidiu Daniel Rocha

De acordo com documentação da transportadora aérea, a que o PÚBLICO teve acesso, os gastos com combustível subiram 3,4% face a 2013, atingindo os 793 milhões de euros. A TAP beneficiou, em parte, da descida do preço do petróleo, mas essa vantagem não se reflectiu nas contas fruto de um aumento de 5,7% no consumo que resultou do reforço na oferta de voos, nomeadamente da inauguração dos novos destinos em meados do ano passado.

Além disso, a empresa não conseguiu tirar mais partido da desvalorização do crude por causa da queda do euro face ao dólar, a moeda a que compra o combustível. E, por outro lado, o funcionamento do mercado não favoreceu a TAP, já que além de haver um período de cerca de um mês entre as encomendas e o pagamento, o regime de compras futuras que permite a protecção face às oscilações de preços, o chamado hedging, tanto pode ser benéfico (quando o valor sobe), como prejudicial (quando desce).

Estas condicionantes fizeram com que no final de 2014, quando o barril do petróleo desceu abaixo dos 60 dólares, a companhia estivesse a gastar praticamente o previsto no orçamento no início do ano. Na TAP, o hedging é sempre parcial, fruto das restrições em garantir recursos financeiros que permitam uma protecção total. E, por tudo isto, quando os preços caem o efeito positivo nunca é imediato.

Para este ano, as previsões são melhores. De acordo com a documentação consultada pelo PÚBLICO, as estimativas da companhia de aviação apontam para uma redução de 7% na factura com combustível, embora a protecção do preço do combustível e a valorização do dólar continuem a minimizar os ganhos da TAP. Ou seja, aponta-se para uma poupança, em termos absolutos, de cerca de 60 milhões de euros. As projecções estão em linha com o sector, já que a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês) está a prever uma redução global de 5,8% em 2015 (de 204 mil milhões de dólares para 192 mil milhões).

No entanto, e à semelhança das suas congéneres, a transportadora aérea portuguesa também tem vindo a ser penalizada pela descida das tarifas médias. A IATA estima que este indicador desça 5% face a 2014, mas a previsão da TAP é mais pessimista. A documentação consultada mostra que a queda na companhia é da ordem dos 6%, o que pode representar, numa base anual, uma perda de 150 milhões de euros ao nível das receitas.

Mexidas na sobretaxa ainda por decidir
É precisamente este factor que explica, em parte, o motivo pelo qual a TAP ainda não reflectiu de forma directa a redução do preço do petróleo na factura dos clientes, considerando que a descida da tarifa média já está a beneficiá-los e, ao mesmo tempo, a prejudicar as suas contas. Mas a companhia também está a aguardar que surja um movimento mais global, especialmente na Europa, para dar algum passo no sentido de reduzir a sobretaxa de combustível que é reflectida no valor dos bilhetes. A hipótese não está, porém, totalmente descartada.

Foi o próprio Governo que colocou recentemente essa possibilidade em cima da mesa. Numa audição no Parlamento no início deste mês, o secretário de Estado das Infra-estruturas, Transportes e Comunicações, que tutela a TAP, afirmou que é “provável” que a empresa elimine a sobretaxa, fruto da queda do preço do crude.

Sérgio Monteiro estimou uma poupança de 150 milhões na factura da companhia de aviação com combustível, mas explicou que o valor seria necessariamente menor com a eliminação da sobretaxa, já que, de acordo com informação veiculada na imprensa no dia seguinte, esta gera uma receita que ronda os 60 milhões de euros.

Actualmente, a sobretaxa de combustível cobrada pela TAP custa 43 euros nas viagens de médio curso e 165 euros no longo curso. Para os Açores e Madeira, o valor é fixado administrativamente pelo regulador da aviação, que em Janeiro definiu os 15 euros para o primeiro trimestre de 2015. Já há exemplos de transportadoras aéreas que estão a fazer alterações nestes custos repercutidos no preço dos bilhetes, mas de geografias mais longínquas, como o Médio Oriente e Ásia.

Estas variáveis não serão indiferentes ao processo de privatização da companhia, que está na fase de consulta de informação por parte dos potenciais candidatos. O Governo estabeleceu o dia 15 de Maio como data limite para a apresentação de propostas, já que quer cumprir o objectivo de encontrar um comprador até ao final do primeiro semestre.

O facto de a factura com combustível ter aumentado no ano passado, ao mesmo tempo que se assistiu a uma redução da tarifa média, não veio ajudar os resultados do negócio de aviação da TAP, que, tal como o PÚBLICO noticiou, atingiram prejuízos de 27,7 milhões de euros até Setembro. Já o grupo, que agrega outras actividades, como a deficitária empresa de manutenção no Brasil, e que está incluído na privatização, teve perdas ainda mais elevadas (63,3 milhões).