Opinião

Riscos gregos

1. A vitória do Syriza na Grécia criou uma nova dinâmica política. E essa dinâmica é a dinâmica da ascensão dos extremismos e dos populismos, sejam de direita, sejam de esquerda. Durante muito tempo, nesta página, alertei para o perigo de expansão dos populismos de direita e de esquerda. Para essa expansão, contou decerto uma atitude errada da União Europeia na condução da crise das dívidas soberanas. Independentemente da substância das políticas, havia todo um modus faciendi que podia ter feito a diferença. Um bom exemplo é o modelo das troikas, que, mercê da sua natureza tecnocrática, reforçava a percepção “impositiva”, “inflexível”, “punitiva” e, em parte, “humilhante” dos programas. A adopção de um mecanismo de interacção política, com representatividade institucional e democrática, podia ter obviado a essa percepção. Esses erros de método e de procedimento favoreceram muito o argumentário extremista e dificultaram a vida àqueles que procuravam uma posição de equilíbrio.

 Mesmo não olhando ao conteúdo dos programas aplicados (mesmo aceitando a sua indispensabilidade), é preciso reconhecer que a falta da velha “cultura comunitária” na estratégia europeia acabou por contribuir para reforçar o flanco das propostas políticas mais radicais.

Os radicais chegaram ao poder na Grécia. Chegaram com toda a legitimidade e isso tem de ser respeitado. Não sabemos – é cedo para tanto – se moderarão a sua estratégia e o seu discurso e, com isso, atenuarão os riscos da dinâmica de expansão dos extremismos e populismos. Em todo o caso, convém não pôr a cabeça na areia e estar ciente dos riscos que esta vitória e a sua agenda radical podem comportar.

2. O primeiro risco – a que chamo “risco constitucional” – foi ontem lapidarmente identificado aqui no Público, por João Carlos Espada, em termos que subscrevo por inteiro e que, por conseguinte, me escuso de desenvolver. A agenda de ligação à Rússia de que falei neste espaço há quinze dias é motivo de profunda preocupação. A coligação com uma extrema-direita de vinco nacionalista e confessamente anti-semita é geradora das maiores inquietações. A agenda interna de colectivização e socialização da economia também não dá azo a esperança. Há riscos para a democracia liberal tal como a entendemos no mundo ocidental, mundo de que a Grécia faz parte. Esse é o risco constitucional.

3. O segundo risco é o “risco internacional” e prende-se essencialmente com a imediata conjuntura geoestratégica internacional, designadamente com a crise ucraniana. Rui Ramos, também ontem, mas no Observador, chamava a atenção, com absoluta razão, para que a crise na Ucrânia é bem mais grave do que o problema grego. A questão é que a combinação de ambas e a evidente “conexão russa” no respectivo desenvolvimento não é de molde a deixar ninguém tranquilo. A Rússia não terá condições para resgatar financeiramente a Grécia; como, de resto, e na altura em melhor situação, demonstrou não ter para resgatar Chipre. Mas dispõe de capacidade de perturbação e destabilização em alto grau e não deixará de explorar todas as oportunidades que possam enfraquecer a União Europeia e a NATO. Ora, a emergência de uma querela grega com os seus parceiros tradicionais será música celestial para os ouvidos de Putin.

Não pode demais excluir-se – e isso talvez explique a hesitação no retrocesso da privatização do porto do Pireu – um recurso do governo grego à China. A China, como bem sabem os portugueses, tem vindo a aproveitar a crise das dívidas soberanas para colocar as suas pedras no tabuleiro europeu. A crise grega poderia dar-lhe a oportunidade de colocar a pedra angular.

4. Se o risco constitucional e o risco internacional poderiam depor no sentido de tentar um acordo e uma cedência de maior tomo ao actual governo grego, a verdade é que isso é altamente desaconselhável por aquilo que denomino de “risco europeu”. O risco europeu é um risco eminentemente político e é o risco de indução e contágio dos populismos e extremismos.

O caso mais glosado, mas que não é sequer o mais iminente, é o do contágio dos extremismos de esquerda. E aqui aparece com mais saliência do que qualquer outro, o exemplo do Podemos em Espanha. É natural que, por força de causas estruturais e conjunturais, a que agora se somaria a experiência grega, um partido com aquelas características possa ter uma base de apoio ampla. Basta pensar na agenda republicana (que alteraria o regime em Espanha, com a provável desagregação do Estado) ou na contemporização com a secessão catalã para imaginar o tremendo câmbio político que uma vitória do Podemos poderia provocar. Já não falando no programa de colectivização e socialização e nos seus efeitos. Numa situação destas, com mudanças tectónicas de nível geopolítico, Portugal seria muito afectado e a União Europeia ficaria decerto em muito maus lençóis.

Não menos inquietante é o risco de indução. Como se viu pelo entusiasmo de Marine Le Pen, a vitória do radicalismo de esquerda é um catalisador para os radicais da direita. As forças anti-europeias de direita (Verdadeiros Finlandeses, Partido da Liberdade e Aliança do Futuro na Áustria, Jobbik na Hungria, Partido do Povo na Dinamarca, Aurora Dourada e Gregos independentes na Grécia, Democratas Suecos, Liga Norte na Itália, Partido da Liberdade na Holanda, Frente Nacional na França, UKIP e BNP no Reino Unido) têm muito a ganhar com a vitória do Syriza. Irão explorar os sentimentos anti-europeus, irão diabolizar qualquer gesto de aproximação ao governo grego, irão acentuar a fractura Norte-Sul. E se algum deles chegar ao poder, irá retaliar e bloquear todo o processo decisório na União Europeia. A vitória do Syriza e os eventuais ganhos da sua agenda serão um enorme indutor do radicalismo de direita, em especial na Europa do Norte. Com radicalismo de esquerda no Sul e radicalismo de direita no Norte, a paisagem política da Europa ficará irreconhecível. E a democracia liberal que fundámos e em que acreditámos, irrespirável.

SIM. Papa Francisco. Na cena mundial, tem sido a única voz de referência. O apelo a que a Igreja acolha os marginalizados, acampe na rua humana e seja o hospital de campanha é todo um programa de recomeço a nível global.

NÃO. António Costa. Cria taxas para o turismo; aumenta as taxas dos bens essenciais. Mas perdoa magnanimamente mais de um milhão de euros ao futebol. É o regresso da velha política. Um escândalo.

Sugerir correcção