Àpartes

Oportunidade Syriza

O conhecido filósofo Slavoj Zizek nunca escondeu que simpatizava com o Syriza. Há semanas quando o entrevistei dizia que caso viessem a formar governo a sua missão seria quase impossível, contendo qualquer coisa de heróico, de tal forma a luta a que se propunham era necessária mas desigual.

Esta semana confirmou-se. Antes das eleições os gregos foram acusados grosseiramente de irresponsáveis, preguiçosos e indisciplinados e o Syriza de radicalismo. E depois da vitória as forças estabelecidas desacreditaram a nova esquerda grega.

Antes das eleições dizia-se que se ganhassem viria aí o caos, depois a retórica ia no sentido que estariam a ceder nas suas posições – ou seja, se antes eram perigosos pela radicalidade, depois passaram a ser perigosos por mostrarem razoabilidade.

Naturalmente que o chão que o Syriza pisa está minado por todos os lados. De um lado, terão de se confrontar com a hegemonia das políticas de austeridade europeias e com o anseio dos poderes financeiros e políticos mais conservadores para que soçobrem com estrondo servindo de exemplo. Do outro terão que gerir as expectativas desmedidas de quem anda a dizer há muito que existem alternativas à austeridade.

Ninguém sabe o que irá acontecer. Nitidamente existe qualquer coisa assumidamente experimental no Syriza, apesar de todas as prateleiras onde são enclausurados. Como em todos os ensaios existe o risco do falhanço. Mas mais vale isso do criar a ideia de que não existem outras opções, ensaiando mais fugas para a frente e não encarando a complexidade da situação.

Não existe transformação sem alguma dose de risco, sendo que o maior perigo para a Europa neste momento é não haver mudança, com a extrema-direita ansiosa por preencher o vazio de descontentamento que os partidos do centro-esquerda e centro-direita não conseguem neste momento ocupar.

Independentemente do que vier a acontecer o Syriza já abalou a política de pensamento único que até agora imperou. Conseguiram levar o mal-estar que tantos europeus sentem ao poder, rompendo com o discurso que divide os partidos em dois: os que governam e os radicais, como se questionar a hegemonia dos grandes partidos significasse o ruir do sistema.

Na verdade não estamos perante um movimento de horizonte revolucionário. O que há é uma fadiga da subordinação da política à economia e uma dissolução da democracia. Trata-se, tão só, de defender a dignidade dos cidadãos que desejam que a sua voz seja reconhecida. A questão não se esgota no instrumento de controlo que é a dívida. O que está em causa é mais vasto: é a qualidade da democracia e o caminho que a Europa deseja seguir. O que vier a acontecer agora é decisivo.

Se a Grécia for imobilizada, e isso pode muito bem acontecer, perdem todos aqueles que acreditam num outro futuro para a Europa. A maior parte parece ter sido apanhada de surpresa pelo Syriza. Em parte, por isso, é compreensível, a desconfiança que se abre com a sua acção. Mas se nos limitarmos a assistir ao esforço grego não acontecerá nada. Os próprios sabem-no. E os poderes estabelecidos que regulam a Europa tecnocrática também, contando com o sonambulismo dos seus cidadãos.

O novo governo grego, por si só, não vai operar um milagre. Mas foi criada uma oportunidade que poderá ser ou não ganha. Até há uma semana discutia-se como foi possível o emergir do Syriza. Talvez daqui a algum tempo, quando olharmos para trás, nos interroguemos como é que só agora foi possível o Syriza.


 

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