Morreu Weizsäcker, o primeiro Presidente a confrontar passado nazi da Alemanha

Richard von Weizsäcker estava no cargo quando o país se reunificou, após a queda do Muro de Berlim

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Richard von Weizsäcker com Ronald Reagan em 1987 MIKE SARGENT/AFP

Presidente durante uma década, entre 1984 e 1994, Richard von Weizsäcker, que morreu neste sábado aos 94 anos, era tido como uma autoridade moral da Alemanha do pós-guerra. Convidou o país a encarar de frente o seu passado nazi.

Membro da União Democrata-Cristã (CDU), o partido conservador da actual chanceler Angela Merkel, Weizsäcker foi o primeiro chefe de Estado alemão a afirmar que o dia 8 de Maio de 1945 – o proclamado “Dia da Vitória” dos aliados sobre a Alemanha nazi – significou a libertação e não a capitulação do seu país.

Em 1985, discursando perante os membros do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão, no 40º aniversário da derrota do Terceiro Reich, o então Presidente Weizsäcker disse que o dia 8 de Maio de 1945 marcou a “libertação de um sistema desumano erigido pela tirania nacional-socialista [nazi]”.

Uma parte da direita alemã associava a data à derrota da Alemanha. O discurso de Weizsäcker, nota a AFP, recebeu mais aplausos entre a bancada da oposição social-democrata do que junto da sua própria família política. O discurso tornou-se célebre na Alemanha e trouxe-lhe notoriedade internacional.

Weizsäcker foi “uma testemunha do século”, afirmou este sábado o actual Presidente alemão, Joachim Glauck, descrevendo o seu predecessor como “um grande homem, um chefe de Estado excepcional” e, “para a maior parte das pessoas, uma instância moral”, por ter tido um papel relevante na forma como a Alemanha geriu o período mais sombrio da sua história.

Weizsäcker foi ainda o primeiro Presidente de uma Alemanha reunificada, o que aconteceu em Outubro de 1990, durante o seu mandato – embora tenha sido sobretudo um espectador de uma unificação levada a cabo pelo então chanceler Helmut Kohl. Segundo a Deustche Welle, Weizsäcker defendeu uma convergência mais cautelosa notando que as duas alemanhas tinham estado separadas durante um longo período.

O foco da sua presidência foi a reconciliação com a Europa de Leste e Israel. Estava convencido de que uma nova relação com estas nações só seria possível por via da contemplação crítica e da comemoração, em vez de uma supressão do passado.

Nascido a 15 de Abril de 1920 em Estugarda (Alemanha Ocidental), o barão Richard von Weizsäcker provinha de uma grande família de teólogos protestantes, de homens políticos e de juristas. O pai, Ernst von Weizsäcker, era um diplomata que trabalhou como subsecretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Hitler entre 1938 e 1943, o que lhe valeu a condenação nos julgamentos de Nuremberga.

O filho, então um jovem jurista, participou na sua defesa. Ernst von Weizsäcker foi sentenciado a sete anos de prisão. Apesar de ter servido no exército alemão durante a II Guerra,  Richard von Weizsäcker era mais próximo dos meios de resistência a Adolf Hitler, nota a AFP.

Weizsäcker foi presidente da câmara de Berlim Ocidental entre 1981 e 1984. Candidatara-se à presidência da República pela CDU pela primeira vez em 1974, mas foi derrotado pelo candidato de esquerda Walter Scheel. Foi eleito dez anos mais tarde, com uma maioria absoluta, e confortavelmente reeleito para um segundo mandato cinco anos mais tarde.